Tobias: um livro para leitura em família

Areopago-Jairo-Tobias

Introdução

O livro de Tobias é deuterocanônico, ou seja, não está incluso na Bíblia hebraica, e, portanto, não está incluso na Bíblia utilizada pelos protestantes. São Jerônimo (347-420), que traduziu a Bíblia das línguas originais, para o latim, não o considerou canônico, mas como favor aos seus amigos, traduziu-o do aramaico para o latim, chamada de Vulgata, em um dia, com a ajuda de um intérprete de aramaico. Santo Agostinho e Santo Ambrósio confirmaram a canonicidade. Foi aceito no Concílio de Hipona em 393 e, por causa de sua presença na Vulgata, foi declarado canônico pelo Concílio de Trento em 1563.

Como gênero literário pode-se considerar um romance popular, com pretensão didática e sapiencial, pois o narrador, por meio da história de Tobit e Tobias, deportados típicos, quer fornecer a seus irmãos isolados em meio às nações um ensinamento religioso.

O livro de Tobias (ou Tobit), é uma das joias da literatura judaica. Romance popular que se inspira na tradição da sabedoria do mundo pagão circundante, obra de edificação alimentada pelos escritos bíblicos, ele dá testemunho, por sua riqueza, da vitalidade humana e religiosa do judaísmo nos séculos posteriores ao Exílio.

A data mais provável para a escrita do livro de Tobias situa-se entre 200-180 a.C. Uma data posterior é indicada pela confusão relativa à história assíria do Século VII a.C., a reflexão sobre o costume pós-exílico de dar dízimos, e a aceitação dos profetas como canônicos. Não há nenhuma evidência de tribulação ou de ideias apocalípticas ao redor da revolta dos Macabeus. Não há nenhuma evidência conclusiva no que diz respeito ao lugar da composição, se na Palestina, no Egito ou Mesopotâmia.

Comentário

Capítulo 1

No capítulo 1 do livro ficamos sabendo que Tobit era homem piedoso, embora vivesse no Reino do Norte, onde havia o santuário em Dã, ele, quando jovem, peregrinava até ao Templo de Jerusalém e pagava todos os dízimos (1,6-9). Quando da invasão da Assíria na Samaria, ele, junto com sua parentela, foram deportados para Nínive, seus compatriotas não respeitavam mais os preceitos mosaicos, apenas Tobit continuava a manter os ritos e preceitos instituídos por Moisés, tais como esmola, vestir os nus e enterrar os mortos, o que lhe quase custou a vida, pois era proibido pelo rei Senaquerib, diante disso ele precisou fugir da ira do rei, ficando sem nenhum bem, o que lhe foi restituído mais tarde, por interferência de seu sobrinho Aicar que foi admitido na corte como superintendente das finanças do rei.

Capítulo 2

O capítulo 2 narra ainda a piedade de Tobit ao deixar seu “prato intacto” em plena celebração da festa de Pentecostes, para enterrar um homem do seu povo, apesar do risco de vida que corre. Ao tentar descansar em noite de calor forte, cai excrementos de pardais sobre os seus olhos deixando-o cego sem solução encontrada pelos médicos. Foi sustentado por seu sobrinho Aicar durante dois anos, após esse período sua esposa Ana precisou trabalhar para o sustento da casa. Esta recebe de seus fregueses além do salário um cabrito para algum almoço, Tobit não acredita que fora um presente, pensa que ela roubou o cabrito, e ordena a Ana que devolva. Ana enfurecida diz: “Onde estão suas esmolas? Onde estão tuas boas obras? todos sabem o que isso te acarretou.” (2,14).

Capítulo 3

Aborrecido com a vida que está levando, “com alma desolada, suspirando e chorando” (3,1) Tobit eleva uma súplica e lamentação a Deus descrita na parte A do capítulo 3.

Na parte B do mesmo capítulo, ficamos conhecendo Sara filha de Raguel, parente de Tobit, estes viviam em Ecbátana, na terra Média. De acordo com a narrativa, Sara acabara de receber insultos de uma serva, pois havia sido dada sete vezes em casamento, e antes que este se consumasse, o demônio Asmodeu (que significa “aquele que faz perecer”), o mais terrível dos demônios, assassinava seus maridos. Após o insulto da serva, Sara pensa em enforcar-se, mas por compaixão ao seu pai e para não envergonhar, desiste de seu intento, e “estendendo as mãos”, ora a Deus, assim como Tobit uma oração de súplica e lamentação, o narrador com hábil perícia diz que as orações, tanto de Tobit e Sara se dão no mesmo instante.

No instante da oração de ambos, Deus ouve e envia Rafael “para curar os dois”. Aqui o narrador já adianta o que irá suceder, com Sara, Tobit e seu filho Tobias.

Capítulo 4

O capítulo 4 está na forma de um discurso de despedida. Em uma exortação da “sabedoria”, incentiva seu filho Tobias a praticar as virtudes que ele mesmo pratica: caridade, especialmente esmolas, e enterrar os mortos, fidelidade à lei, especialmente a respeito do casamento, e confiança em Deus. Tobit afirma o princípio que a esmola deve ser em proporção às posses de uma pessoa, uma teoria advogada no mesmo século por Sirac (Eclo 35,9-10) e mais tarde por Paulo (2Cor 8,12-15). As esmolas livram uma pessoa da morte (Eclo 29,10-13; 40-17,24) e são uma oferta digna para Deus. (NCBSJ)

No versículo 15 temos a regra de ouro de, praticamente, todas as religiões: “Não faça a ninguém o que não queres que te façam”, repetida por Jesus em Mt 7,12.

A partir do versículo 20, Tobit diz ao filho que tem uma alta soma depositada com Gabael, que vive na terra Média, que ele não se preocupe em ficar pobre.

Capítulo 5

Capítulo 5 narra a contratação de Rafael. O leitor sabe que Rafael é um anjo, que Rafael é seu nome e quer dizer Deus cura, e que sua finalidade é trazer a cura em resposta às orações de Tobit e Sara. No entanto pai e filho vêem somente um parente chamado Azarias (Deus Ajudou) filho de Ananias (Deus é misericordioso), que é um guia habilidoso para acompanhar Tobias à terra média. Um documento original foi assinado por Tobit e por Gabael, depois divido em duas partes, assim pode-se reconhecer a autenticidade da requisição da quantia depositada com Gabael. (NCBSJ)

A mãe Ana, entra em cena novamente e reclama com o marido a ida do filho para longe, com um desconhecido. Como mãe teme pela vida de seu filho, ficando assim, mãe e pai desamparados na velhice, ela prefere o filho por perto a correr o risco pela busca de um dinheiro, que para ela é desnecessário. Parece que o autor que colocar um pouco de dramacidade ao texto, mas é inútil, pois o leitor já sabe, antecipadamente, como se dará o desfecho da história.

Capítulo 6

A viagem é narrada no capítulo 6. Ao pararem para descansar, Tobias, quando vai lavar os pés à margem do rio Tigre, é atacado por um grande peixe, seguindo recomendação de Rafael, Tobias pega o peixe, tira-lhe o fel, o fígado e o coração e guarda-os. Curioso, Tobias pergunta ao anjo para que servem o que foi recolhido do peixe, Rafael, antecipa o que o leitor já sabe, o fígado e o coração serão usados para espantar o demônio que atormenta Sara, e o fel restaurara a visão a Tobit.

Na segunda parte do capítulo 6 Rafael diz a Tobias, que pousarão na casa de Ragüel, e lhe explica o porquê: era para tomar Sara por esposa, Tobias responde que sabe o que sucedeu com os maridos anteriores, todos morreram na noite de núpcias. Tobias teme também morrer e por consequência matar seus pais de tristeza. Tobias parece não ter prestado atenção à explicação do anjo quando este lhe explica qual será a função do fígado e do coração do peixe, diante disso, Rafael retoma a explicação dando detalhes do modo de preparar o fígado e o coração na noite de núpcias, queimando-os no perfumador, isto afugentará o demônio que “nunca mais aparecerá”, após isso, recomenda que orem a Deus por proteção. Ao ouvir todas as explicações do anjo, Tobias “enamorou-se dela de tal modo que seu coração não podia separar-se dela” (6,20), mesmo sem conhece-la.

Capítulo 7

No capítulo 7 ficamos conhecendo a família de Ragüel, este fica feliz e emocionado ao saber que Tobias é seu sobrinho, filho de seu irmão Tobit.

Tobias tem pressa em casar-se com Sara, e pede a Rafael que anuncie sua intenção a Ragüel, este pede que tomem primeiro a refeição, para depois tratarem do assunto, pois sabe o que pode se suceder a Tobias, e não quer espantar o rapaz tão cedo, no entanto Tobias não se deixa dar por vencido e insiste, diz que não tocará no prato até resolverem a questão. Ragüel, diante da insistência de Tobias, concede a mão de Sara a Tobias, mas explica-lhe o que tem ocorrido com os pretendentes anteriores. Apresenta Sara a Tobias e redige um contrato de casamento. Após o jantar, Ragüel pede a Edna, sua esposa, para preparar o quarto de núpcias, está chora a desgraça que se aproxima da filha mais uma vez, no entanto pede à filha que tenha confiança em Deus.

Capítulo 8

Depois da lauta refeição, decidem ir dormir. Tobias seguindo as instruções do anjo, prepara o ritual para a expulsão do demônio; este foge para o Egito, é perseguido por Rafael que o amarra e o prende. Tobias e Sara seguem a segunda instrução do anjo e oram a Deus por misericórdia e benção em 8,5-8.

A escavação da sepultura por Ragüel é uma ironia do livro. Ele não pode recusar o casamento, mas tem tanto temor de seu resultado que se prepara para o pior. Não pode nem mesmo suportar verificar o casal, mas envia a empregada da esposa para saber se Tobias está vivo ou morto.

A saber que Tobias vive, ergue aos céus seu canto de louvor e gratidão pois a misericórdia de Deus é maior do que a sua expectativa. Manda fechar imediatamente a cova antes do amanhecer.

 Agora Ragüel prepara uma festa. Seu papel principal, agora, é de anfitrião gracioso. A duração da festa de casamento é o dobro do de costume, serão quatorze dias de alegria para superar as tristezas da filha. Dá a metade de seus bens a Tobias, e promete a outra metade quando morrerem ele e a esposa Edna.

Capítulo 9

No capítulo 9 se realiza o verdadeiro intento da viagem, que é de recuperar o dinheiro que está com Gabael. Assim Tobias pede a Rafael, que se prepare para recuperar o valor combinado e convide Gabael para a festa de casamento. Rafael prontamente se dirige a Rages, recupera o dinheiro e volta com Gabael para a festa, reconhece em Tobias as mesmas virtudes do pai deste, e celebram a alegria do encontro da felicidade que reina na família de Ragüel.

Capítulo 10

A festa de casamento duplicada em dias, atrasou Tobias mais do que o tempo previsto. Tanto seu pai quanto sua mãe preocupam-se de forma característica. Tobit, que contou os dias, teme que Gabael esteja morto e não há ninguém para entregar o dinheiro. Ana, embora declare sua certeza de que Tobias morreu, observa todos os dias a estrada pela qual ele deve voltar.  Tobit, ao tranquilizá-la, esconde sua própria preocupação. Tobias sabe da preocupação de seus pais e pede ao sogro que o libere para voltar para casa, este insiste que Tobias fique e enviará mensageiros para avisar seus pais, Tobias não aceita, dessa forma Ragüel dispõe de metade de seus bens em favor de Tobias. A despedida em Ecbátana indica as expectativas do casamento. As duas famílias uniram-se. o pai e a mãe são compartilhados por cada esposo. Os filhos são desejados e espera-se alegria e felicidade. Tobias parte com Sara em oração, de acordo com o espírito que permeia o livro.

Capítulo 11

O capítulo 11 faz a narrativa da volta de Tobias com sua esposa Sara e Rafael. Este aparece para dar instruções a Tobias para a cura de Tobit. Ana ainda observando a estrada anuncia a boa notícia a Tobit. Ana estava tão certa da morte de seu filho e agora está pronta para morrer por conta da alegria de vê-lo novamente.

Ao ser curado Tobit responde com oração, a quinta do livro. Tanto a aflição como a cura são atribuídas a Deus. O sofrimento não é visto como uma punição para o pecado, mas ao invés disso, como uma parte do funcionamento misterioso do plano de Deus. As curas e toda a alegria da última parte do livro são atribuídas à benção e graça de Deus.

A chegada em Nínive reitera a união das famílias, devida ao casamento de Tobias e Sara. Em seu pequeno discurso, Tobit refere-se à Sara quatro vezes como “filha”, isso demonstra a verdadeira integração familiar. A festa nupcial, agora realizada com Tobit e Ana, juntam-se os primos de Tobit, Aicar e Nadav.

Capítulo 12

A revelação de Rafael se dá no capítulo 12. Tobit pratica o que prega com relação ao pagamento de um salário justo. Rafael recusa e afirma que toda a sua benção é devida a Deus. Tobias foi instrumento da providência de Deus, Rafael o mensageiro. É Deus que cura, a quem o louvor é devido. As instruções de Rafael continuam, com a exortação para proclamar a bondade de Deus para com os outros. Nota-se que uma das chaves de leitura do livro é a importância da esmola, isto é, boas ações feitas para outras pessoas. Junto com o livro de Eclesiástico, Tobias é grande responsável pelo desenvolvimento desta noção da esmola. A esmola poupa-nos do pecado e liberta da morte. A bênção esperada pelo justo de acordo com a teologia da retribuição está ligada, neste livro a dar esmolas.

Na segunda parte do capítulo Rafael revela sua identidade como um dos sete anjos que estão diante da “Glória do Senhor” (cf Ap 8,2). Além de suas funções primárias no livro como guia e mensageiro, Rafael revela seus deveres de mediador das orações e dos testes.

Capítulo 13

O capítulo 13 demonstra a obediência de Tobit a ordem de Rafael para louvar a Deus, ele proclama a sexta oração formal do livro. A oração contém vários momentos desde a proclamação da misericórdia e a liberdade de Deus, ao hino a Jerusalém.

Capítulo 14

O capítulo 14 poderia ter como subtítulo “…viveram e morreram felizes para sempre.”. As idades avançadas eram sinal de benção de Deus sobre o justo, por isso não pode ser levada ao pé da letra, nestes casos os números são mais qualitativos do que quantitativos. O discurso de despedida de Tobit ao filho e aos netos demonstra que ele crê no poder da palavra profética de Naum. O movimento da vida de Tobit, da desolação à restauração, é ecoado aqui na descrição do destino do povo, do exílio ao retorno.

Nos versículos 6 e 7, são descritos a imagem que o autor tem de crentes verdadeiros e de sua recompensa. A queda de Nínive (612 a.C.) ilustra a outra metade da retribuição: os ímpios serão punidos.

Mensagem geral do livro de Tobias

O propósito do livro é didático. O conto de duas famílias unidas pelo casamento é narrado para edificar e entreter. A mensagem do livro, ilustra por meio de vidas de fiéis comuns, é que Deus de fato justo e livre. O sofrimento não é uma punição, mas um teste. Deus, a longo prazo, recompensa o justo e castiga o ímpio. Seguir os preceitos de Deus tais como ser caridoso, atencioso aos mais necessitados, misericordioso para com todos, louvar e agradecer a Deus por sua benção e sua graça. O crente é chamado a confiar em Deus e refletir em sua vida diária a justiça, a misericórdia e a liberdade de Deus.

O que está em questão no livro, não é tanto a realidade dos fatos, ao que parece evidente (3,17), da solicitude de Deus para com os fiéis em aflição, mas é sobretudo a maneira de exercê-la em meio às provações, valendo-se do que parece ser uma sucessão de casualidades em função de um desígnio preestabelecido, dum segredo que só no fim será revelado. A resposta celeste a Tobit e Sara (3,16-17) por uma parte, a revelação de Rafael (12,11-15) por outra, constituem os dois polos da narrativa. Os executores dos desígnios de Deus são os anjos. Em nenhuma outra parte do Primeiro Testamento os anjos são vistos com um aspecto tão humano, como que para não impor a ação divina à liberdade humana.

A família é a célula insubstituível na qual se transmite a herança espiritual da nação (1,8; 4,19; 14,3.8-9). Donde a insistência em todas as virtudes que lhe podem favorecer a coesão, muito especialmente o respeito aos pais (1,8; 3,10.15; 4,3-4; 6,15; 14,12-13). Momento decisivo da vida de uma família é o casamento. Nele se realiza a transição de uma geração à outra, dele depende o futuro. É grande o risco dos deportados se deixarem assimilar às nações pela dinâmica dos casamentos mistos. Por isso compreende-se por que o casamento ocupa o centro dos conselhos de Tobit ao filho (4,12-13), assim como ocupa o centro do livro (6-8) que é, afinal, a história de um casamento conforme a vontade de Deus.

Reflexão: Para você, qual é a mensagem do livro?

Referências:
Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.
Tradução Ecumênica da Bíblia: São Paulo: Loyola, 1994.
NOWEL, Irene. CRAVEN, Toni. DUMM, Demetrius. Tobias, Judite e Ester. in Novo Comentário Bíblico São Jerônimo: Antigo Testamento. Santo André: Academia Cristã; São Paulo: Paulus, 2012.

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