A água, o garoto e o baldinho

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Você pode também escutar esta crônica na voz de “Gilberto Macedo”

Tinha acabado de ler num folheto aquela historieta pedagógica, por todos conhecida, cujo título é “Caberá o mistério da Santíssima Trindade em nossa pobre pequenez?”

Santo Agostinho andava pela praia, pensativo nos assuntos teológicos e, especialmente, dedicava atenção ao mistério da Santíssima Trindade: Três pessoas em um só Deus. Como pode ser isso?

Avistou um garotinho com um baldinho retirando a água do mar e enchendo um buraquinho na areia. Fazia isso, repetidas vezes.

O santo se aproximou e perguntou ao menino “o que você está fazendo?”.

O menino de forma simples respondeu “Vou colocar toda a água do mar neste buraquinho.”

Garoto, isso é impossível! A água do mar é muita e o buraco é pequenino demais!

Ao que o menino, com profundidade, respondeu:

É mais fácil eu conseguir colocar toda a água do mar nesse buraquinho do que você desvendar os mistérios de Deus!

O santo calou-se e aprendeu.

Era uma manhã ensolarada de domingo. Ainda tendo o pensamento voltado à narrativa do menino com o baldinho, o buraco na areia e o santo filósofo, apreciava o límpido céu de anil sob as lentes escuras dos óculos de sol. As brancas nuvens, como carneirinhos, se movimentavam lentamente na vastidão do horizonte sem fim. Uns mais magrinhos se desgarravam. Ficavam paradinhos. Pouca atenção davam aos demais que se movimentavam lentamente num plano inferior.

Aquela historieta batida numa rápida leitura despretensiosa, nada exigia dos neurônios. Afinal, a lição aprendida da catequista: três velas acessas cujas chamas se entrelaçavam mostravam visivelmente uma grande chama. Recurso pedagógico simples e eficaz: três corpos unindo-se e formando uma grande chama.

Uma suave brisa litorânea passeava entre os coqueirais. Eu, num momento de puro lazer, sem nada fazer, fitava os olhos nas peripécias do netinho (naquele tempo, era o único neto).

Uma criança com menos de dois anos de idade brincava na beira da piscina. A mãe com uma tigelinha plástica despejava água do alto da cabeça ante os olhos do menino. Este tentava segurar com as duas mãos e a água lhe escapava.

A cena se repetiu umas três vezes. Depois a mãe colocou o utensílio na mão da criança que olhou, analisou o objeto em toda a circunferência e colocou-a no chão. Depois viu a mãe enchê-la de água até transbordar, sob o olhar atento do petiz.

Tão logo a mãe deixou a tigelinha plástica de lado, mais do que depressa, o pequeno alcançou-a com a mão direita, agachou-se meio sem jeito, encheu-a com a água da piscina e com sorriso garoto (maroto é só quando adulto) despejou o precioso líquido na carroceria de um caminhãozinho plástico.

Percebeu que não fora o suficiente. Repetiu o gesto até a água transbordar. Não satisfeito, virou o caminhão de ponta cabeça. Esbaldou-se batendo com as mãozinhas na água esparramada na beira da piscina. Sorria com o feito em seu mundo de conquistas, de ensaios e erros.

A avó, minha esposa, admirada com todos os feitos do netinho filosofava: “Parece que entende, não é? Quis segurar a água com as mãos, não conseguiu. Por mais que tente, em vão o esforço. Não dá pra segurar a água. Ela escorre entre os dedos.”

Chamou-o e ensinou: “Pra segurar a água é preciso juntar as duas mãozinhas e fazer uma concha.” Juntou-as, derramou a água e, então, comentou: “Viu só! Pra segurar tem que juntar as mãos.” O petiz deu um largo sorriso, abriu as mãozinhas para aplaudir e a água foi ao chão…

O pensamento voou…

As mãos postas em oração como concha sempre colhem as bênçãos. Estas como pingos de chuva caem sem cessar. A alma como terra árida e seca anseia pela água viva lá dos céus.

Inevitável a lembrança…

“Todo aquele que beber desta água tornará a ter sede, mas o que beber da água que eu lhe der jamais terá sede. Mas a água que eu lhe der virá a ser nele fonte de água, que jorrará até a vida eterna.” (Jo 4, 13-14)

E a água escorrendo pelos ladrilhos, a carroceria esvaziada e a tigelinha seca? Não sei.

Se algum dia encontrar o menino da praia por onde andava Santo Agostinho, tentarei obter a resposta.

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17 respostas em “A água, o garoto e o baldinho”

Bela reflexão trazendo-nos presente a ternura,docilidade e entrega da pequenes de uma criança…Que o Senhor renove em nossos corações e desperte diariamnete a docilidade,entrega ,ternura e confiança da criança para que possamos nos abandonar no colo de Deus.

Como sempre, uma bela e profunda reflexão. Obrigada amigo e compadre. Continue sempre, assim de mansinho, a nos propiciar momentos importantes pra nossa meditação.

Excelente texto! Parabéns!
Você sempre procurando nos blindar com algum assunto interessante de uma maneira simples e didática!
Tudo de bom para você e família e que Deus o abençoe!

Mui bom! – Seria um mundo sem ilusões; com mais acertos e bênçãos de realizações; se todas as mãos se predessem em oração. Meu caríssimo amado Irineu e todos (areópagos) meu abraço é gratidão.

Show 👏👏
Como sempre iluminando a nossa mente com simplicidade, e nos fazendo refletir.
Parabéns meu amigo Irineu.

Mui bom! – Seria um mundo sem ilusões; com mais acertos e bênçãos de realizações; se todas as mãos se predessem em oração. Meu caríssimo amado Irineu e todos (areópagos) meu abraço é gratidão.

Obrigada por mais um ensinamento, sr. Irineu… Por essa brilhante reflexão 👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼

Quantas bençãos posso ter deixado passar por não segurar com as mãos fechadas, postas em oração…
Texto muito reflexivo. Obrigada por partilhar!

Tudo o que temos é o instante !
Aproveitar todos é saborear a vida.
O sorriso, o olhar, o aroma que desperta lembranças, os feitos e descobertas do netinho que alegra os nossos “instantes”
Obrigada amigo Irineu por nos apresentar estes momento para reflexão!!
Abraço

É apenas um olhar!
É o captar um momento e transformá-lo.

Pronto, definido o que é um artista.

Pode ser um conto, uma poesia, uma pintura, escultura ou música. É apenas um olhar. Um relance!

O mistério da Santíssima Trindade….como muitos não se abrem aos dons do Espírito Santo, acham mais fácil se desviar do caminho do que buscar o Amor de Deus, que tudo explica. Na simplicidade de uma criança, o segredo da vida.

Como sempre, brilhante em suas crônicas. Versar os versos imaginários é uma tarefa para poucos. Entres eles está Irineu Uebara. Saca do fundo da alma, uma história complementar ao ocorrido com Santo Agostinho. Obrigado irmão por você existir e nos brindar com tamanha e importante reflexão.

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