Teologia e Cultura: Um Diálogo Possível (Pt. 2)

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Cultura: conceito e breve esboço histórico

Esboçar um conceito de cultura exige que recuemos muito no tempo, quase ao início de nossa própria história, (ou antes) onde já o encontramos caracterizando um mundo, o mundo cultural, diante de outro diferente e oposto, o mundo da natureza; universos estes que, por sua vez, fazem fronteira com outros estados individuais ou coletivos correspondentes, o civilizado e o natural, como formas alternativas e possíveis de vida. É importante observar, contudo, que embora entre os extremos dessa dualidade cultural X natureza por vezes se interpõe uma separação ou às vezes uma harmonia, o que, em contrapartida, constitui o verdadeiro problema é a busca, por parte do ser humano, da paz da vida natural diante do desassossego de seu contraponto, a vida civilizada que, com sua artificialidade, impede o ser humano de se realizar. Consequentemente, o que se depreende dessa tensão é a crítica de um conceito de cultura que, ultrapassando as margens de nossa natureza, ao invés de tentar salvar o homem, acaba por oprimi-lo ou cerceá-lo.

A cultura como cultivo pessoal alude à formação individual, naquilo que o ser humano é e deve ser, assumindo formas distintas, de acordo com as épocas. Assim, dizendo de modo sintético, o momento clássico entende a cultura como um processo de instrução, graças ao qual a natureza humana alcança o ideal contemplativo ao qual ela tende por si mesma: o medieval, em contrapartida, cifra a cultura, também contemplativa, na educação dos deveres religiosos e na preparação da pessoa para sua salvação eterna; o moderno considera como cultura esse modo, através do qual o ser humano pode chegar a viver da melhor maneira neste seu mundo, o que leva a pôr a atividade ou trabalho junto dos aspectos contemplativos; para o momento ilustrado-romântico, a cultura já aparece não apenas como um patrimônio universal humano, mas também como conhecimento geral, ou enciclopédico do saber; e, finalmente, atualmente, a cultura oscila entre multiplicação e especificação e restrição de conhecimentos gerais; ou, o que dá no mesmo, entre uso profissional de conhecimentos pragmáticos e o cultivo integral de nossa natureza.

A cultura aparece como algo inseparável da natureza humana, até o ponto de acabarmos sendo conformados por ela. Esta conformação se produz em nível evolutivo e educacional. Em nível evolutivo, dando lugar a uma inflexão que determina a emancipação do biológico, provocando no ser humano não tanto uma evolução em termos de indivíduo, mas sim de sociedade e em nível educativo, socializando os processos biológicos, afetivos e cognitivos.

A vida do grupo é, pois, determinada pela cultura, por essa maneira específica de pensar, de querer e de sentir que permite logo ao indivíduo responder, tal qual o grupo o faria, aos mais diversos estímulos, e tratar de solucionar os seus problemas mais graves. Mas é necessário constatar que nem todos os aspectos organizativos da cultura estão à vista, e que alguns se acham implícitos. Os primeiros configurarão a chamada cultura manifesta, formada por objetos, ações e pautas, tais como os tipos de casas, os gestos, a linguagem, ou os princípios éticos; e os últimos, a cultura encoberta, isto é, não observável diretamente, como as crenças, os valores, os medos, entre outros, e que, longe de serem independentes entre si, costumam formar um sistema. De sua explicação depende, pois, a compreensão das condutas.

Religião: conceito geral

É provável que a reflexão humana sobre a religião seja tão antiga como a própria religião. De fato, as mitologias já constituem uma tentativa de organização do mundo dos deuses, de explicação sobre sua origem (teogonias) e de esclarecimento sobre sua presença e suas funções no mundo humano. Desde seus primeiros passos nos pré socráticos, a filosofia ocidental procurou dar conta do divino por meio de variadas teologias. A teologia, herdeira da mitologia, já desde Platão e Aristóteles até a época moderna, interessou-se pela religião, perguntando racionalmente sobre seu “objeto”, Deus ou o divino, e o fez através da razão natural: teologia natural ou filosófica, ou partir de textos e tradições tidos como revelados e a partir do interior da adesão a eles: teologias em sentido estrito, desenvolvidas, de uma ou outra forma, por todas as tradições religiosas.

No entanto o termo “religião” significava, na linguagem teológica durante toda a época do pensamento cristão, a relação do ser humano com a divindade e a virtude pela qual tributa-se culto e adoração que são devidos a Deus. Este sentido perdurou até há algumas décadas na teologia católica. Na época moderna, sobretudo, a partir no nascimento e da extensão, na segunda metade do Século XIX, da ciência das religiões, o termo “religião” designa o fato religioso, isto é, esse aspecto do fenômeno humano que acompanhou o ser humano ao longo de toda a sua história e que constitui o objeto da história das religiões.

Neste sentido a crítica contemporânea à religião irrompe com a modernidade. Até então, o cristianismo, embora levando em consideração as suas dissidências internas, havia ocupado a cultura vigente e havia mantido, em termos gerais, o controle social. A dissidência representada pela heresia significava a exceção e constituía uma crítica no interior do universo de crenças

A Igreja se abre ao mundo moderno

Não poderíamos deixar de tratar do grande momento na história da Igreja, que refletirá na história da humanidade, trata-se no advento do Concílio Vaticano II (CVII) que ocorreu entre 1962 e 1965, quando a Igreja, deixa de olhar para si mesma, e procura um contato maior com o mundo exterior. Sem deixar de ser anunciadora do Evangelho, mas agora, com os olhos, ouvidos, corações e passos voltados, de fato, para “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem…”.[Constituição Pastoral Gaudium et Spes Sobre a Igreja no Mundo de Hoje, 1.]

Assim a Igreja, ao ler “os sinais dos tempos” se permite ao aggiornamento, que tem o sentido de uma renovação ou atualização, no entanto, esta tradução não é a mais adequada, pois dá a impressão de que, uma vez atualizada, não haveria a necessidade de atualizá-la, ou renová-la novamente. Uma tradução mais adequada seria “o ato de pôr as coisas em dia”, assim o aggiornamento é um processo permanente.

O CVII determinou que a Igreja promovesse um aggiornamento em duas esferas principais: a institucional, relativa à estrutura da Igreja, e a individual, relativa a cada cristão e cristã. Segundo o CVII, a melhor maneira de atingir essa meta seria a de respeitar e a de fortalecer tanto a tradição quanto a inovação, ao invés de procurar contrapor uma à outra.

Assim, o CVII abre novas perspectivas, para compreensão e interação com as diversas culturas dos mais variados grupamentos humanos, criando uma relação de harmonia, de diálogo, de fraternidade com todos os povos, independentemente de suas características, étnicas, sociais, religiosas, e tudo o que define um determinado modo de viver, não necessariamente uniforme com aquilo que a Igreja imaginava ser antes do advento do CVII.

A eleição de João XXIII para o papado foi surpreendente em muitos aspectos. Ele não era o candidato favorito ao papado quando Pio XII faleceu em 1958 e, segundo alguns autores, podemos depreender, que ele foi eleito como um candidato de compromisso para exercer um mandato tampão. Afinal, aos 77 anos de idade, que mal esse bondoso homem poderia fazer? Com certeza, ninguém esperava que ele deixasse uma marca duradoura na história da Igreja. No entanto, no momento em que seu nome foi anunciado, houve uma surpresa. Ele havia escolhido ser chamado de João XXIII, o mesmo nome do papa que havia fugido do Concílio de Constança (1414-1418) e que mais tarde acabou sendo deposto por esse mesmo concílio geral. Desde então, esse nome papal nunca mais havia sido escolhido novamente, mas o cardeal Angelo Roncalli não era um homem de se sentir preso ao passado.

Menos de três meses depois de sua eleição, este João XXIII, (agora São João XXIII) em um anúncio surpreendente, contou que em um momento em que se encontrava rezado a ideia de um “concílio ecumênico” subitamente apareceu em sua mente, embora, segundo alguns relatos, houvesse indícios de que ele já vinha pensando em convocar um concílio há algum tempo, talvez até mesmo durante o conclave que o elegeu. Em todo caso, essa decisão sem dúvida havia sido exclusivamente sua, pois ele não havia feito nenhuma consulta sobre a conveniência do Concílio Vaticano II. 

O CVII, ocorrido entre outubro de 1962 à dezembro de 1965, representou uma ousada renovação de toda a Igreja. Foi um novo marco no diálogo com o mundo moderno. Em sua identidade encontramos agora a unidade de uma fé construída no diálogo com o sensus fidei que está presente no mundo, apesar de não se confundir com ele, mas que existe para a salvação deste mesmo mundo, ao modo de sacramento. Esta Igreja se compreende então como presença de serviço, estabelecendo a via do diálogo como instrumento para que possa, com toda a humanidade, responder ao desafio da construção de um mundo fraterno e solidário, com sólidas bases na justiça e no direito.

Uma Igreja que na Constituição Dogmática Lumen Gentium (LG) se define como sacramento, ou seja, instrumento, manifesta solenemente seu programa de superar o eclesiocentrismo para viver o programa de seu Mestre: “Não vim para ser servido, mas para servir e dar a minha vida em resgate de muitos”. (Mc 10,45). Analogamente poderíamos dizer que a Constituição Pastoral Gaudium et Spes (GS) representou o primeiro ensaio prático desse programa. Nela, verificamos que pela mesma porta se pode entrar e sair, transitar, gerar comunhão com a sociedade.

Dos documentos conciliares a GS é o coração pulsante dos anseios de tantos que esperaram para ver a face da Igreja voltada para o mundo; é a porta do CVII em direção ao mundo; é ela que nos apresenta para além de nossas fronteiras; revela o coração da Igreja como mãe atenta à vida, às dificuldades, às alegrias e angústias de seus filhos e filhas, dispersos pelo mundo. A GS marcou as orientações pastorais da Igreja em relação às questões referentes à vida da pessoa em sociedade. Outros documentos foram emanados pelos pontificados subsequentes, porém, podemos afirmar que ela é a referência principal para a maioria dos textos sociais posteriores.

A GS foi escrita para ser uma resposta ao grave problema do confinamento da Igreja dentro dos muros Vaticanos. A abertura das janelas da aula conciliar, por São João XXIII na primeira sessão, seria um gesto paradigmático, que deveria ser repetido todos os dias por toda a Igreja. A GS foi o “plano de voo” de uma Igreja que pretendeu ultrapassar os jardins do Vaticano, sem se aprisionar novamente às promessas de senhora e guardiã da Verdade. É o velho desafio de “estar no mundo” sem “ser do mundo” (cf Jo 17,11-18).

A cultura na visão da Igreja Católica

A questão da cultura, em seu sentido amplo, sempre esteve presente no pensamento teológico. Tal tema é central em pelos menos um dos Documentos do Concílio Vaticano II, a Constituição Pastoral Gaudium et Spes (GS), como explanado acima. Se o tema aparece esporadicamente em alguns outros documentos, é na GS que ele se apresenta de maneira mais incisiva. Afinal, a GS tem por objetivo justamente constituir patamares de uma reflexão da relação da Igreja com o Mundo e, por conseguinte, com a Cultura.

Embora já tenhamos definido o termo “cultura” acima, cabe aqui indicar como a GS define este termo que inicialmente aparece como

“cultura”, em sentido geral, indica-se todas as coisas com as quais o homem aperfeiçoa e desenvolve as variadas qualidades da alma e do corpo; procura submeter a seu poder pelo conhecimento e pelo trabalho o próprio orbe terrestre; torna a vida social mais humana tanto na família quanto na comunidade civil, pelo progresso dos costumes e das instituições, enfim, exprime, comunica e conserva, em suas obras, no decurso dos tempos as grandes experiências espirituais e as aspirações, para que sirvam ao proveito de muitos e ainda de todo o gênero humano.

(GS 53b)

O texto admite, também, que cultura apresenta um aspecto histórico e etnológico. Assim ao falar de cultura, é preciso levar em consideração a multiplicidade e diversidade cultural (cf GS 53c).

O Documento afirma ainda que “é próprio da pessoa humana não atingir a humanidade verdadeira e plena senão pela cultura, isto é, cultivando os bens e os valores da natureza, em todo o lugar portanto, quando se trata da vida humana, a natureza e a cultura se entrelaçam de um modo muito íntimo” (GS53a).

Para o cristianismo, desde tempos mais remotos, na medida em que este se disseminava por outros povos através de sua ação missionária, e até os dias atuais, pela necessidade do diálogo com o mundo cada vez mais pluralista, o equacionamento das relações da vida do crente com a cultura em que está inserido foi, e é. uma preocupação constante. Quando há uma convergência entre a perspectiva cristã da existência e os valores culturais da sociedade abrangente, o ambiente cultural se encontra em sintonia com a dimensão da fé, facilitando a sua expressão. Porém, pode trazer dificuldades quanto a fidelidade ao Evangelho que vai de encontro à corrente das perspectivas culturais envolventes. A história de dois mil anos da Igreja tem sido repleta desses momentos.

Pressupondo que a conversão a Jesus Cristo pode se dar em todas as culturas e sociedades, pois todas as pessoas são filhas do mesmo Deus, e Cristo não marcou nenhuma diferença ao incluir todos na Salvação, a questão passa a ser como compreender as diferenças culturais para, inclusive, poder atuar evangelicamente.

Os cristãos, muitas vezes, se depararam com hábitos muito diferentes e realidades locais e culturalmente aceitas, como por exemplo escravatura, silvícolas, politeísmo, infanticídio, poligamia, entre outros. Não há modo de se fazer com que a palavra do Evangelho não interfira nessas culturas, chegando alguns casos à transformação radical e levando os povos a abandonarem suas próprias tradições de origem. O cristianismo, sendo uma experiência de vida e de liberdade, influi na cultura, nem sempre de modo satisfatório.

A compreensão de que é cultura já anunciada, em seu processo dinâmico, na narrativa bíblica da Criação do ser humano. No Livro do Gênesis, Deus remete aos seres humanos, homens e mulheres, a incumbência de dominar as terras, as plantas e os animais (Cf. Gn 1,27-28). Ao expulsá-los do Jardim do Éden, em resposta a terem provado da sabedoria e da possibilidade de escolha, remeteu-os ao mundo da cultura, ou seja, ao mundo que os próprios seres humanos seriam os protagonistas e teriam de, através de suas próprias decisões, encontrar o caminho do bem. Deveriam assim, buscar a inspiração da fé para que retornassem ao plano da verdade do Pai. o ser humano é criado, portanto, com a possibilidade e responsabilidade de ser protagonista de sua história e de seu destino. A cultura é o resultado dessa ação do ser humano que busca a construção de sua humanidade em harmonia com o sentido de sua existência.

Conclusão

A cultura está ligada à atividade de transformação do mundo, na construção da comunidade humana em busca do sentido da vida. O ser humano, no exercício de sua criatividade e na condição de liberdade, está no centro da cultura. O ser humano constrói a cultura, ou seja, transforma o mundo que o cerca, através da sua capacidade de compreensão de si mesmo e das circunstâncias, e inspirado na verdade. Esta verdade o atrai e é nessa dinâmica de busca da compreensão de si mesmo e do sentido de sua existência que encontra a beleza e o sentido de sua ação, construindo assim a civilização. Essa ação transformadora encontra-se em síntese superior na experiência religiosa. O reconhecimento de Deus, através da teologia, leva o humano à sabedoria, num quadro de compreensão da vida humana, encontrando as respostas às questões fundamentais que sempre se antepõem ao espírito humano.

Referências
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