As mulheres da Bíblia (Pt 2)

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Esse artigo é o segundo de uma série que tratará das mulheres na bíblia, e tem a intenção de colaborar para que leitores e leitoras da Sagrada Escritura, olhem com maior atenção para as Mulheres da Bíblia, sem as quais a história humana não seria a mesma, e descubram o que está, muitas vezes, por trás da Palavra de Deus.

A Mulher defensora do Povo de Deus

Nos Livros Históricos encontramos várias mulheres. Esses livros descrevem a história do Povo de Deus em sua luta pela vida e mostram o sistema patriarcal com todo o seu rigor.

As mulheres aí apresentadas, no tempo das tribos e do Estado monárquico, eram defensoras e profetizas do Povo de Deus. Cada uma delas constituiu sinal dos tempos para a marcha do povo livre em sua história.

Débora era a mãe de Israel. Rute era como Abraão, que deixou sua terra natal para salvar um povo disperso e seguir a Lei. Ana, a mãe de Samuel, era o retrato do povo pobre e sofredor. Micol era a mulher e conselheira política do rei Davi. Abigail era a esposa fiel que sustentava o rei em suas lutas. E Betsabéia era a mãe de Salomão, o sucessor de Davi.

A rainha de Sabá era a estrangeira atraída pela sabedoria do Povo de Deus. As viúvas eram o sustento e o apoio do ministério profético (Elias e Eliseu). A Sunamita era a mulher rica que defendia seu povo. E Hulda era a profetisa influente que orientava a restauração do Povo de Deus, num momento importante de sua história religiosa e política.

Do Livro de Josué

Js 2: Nesta narrativa temos Raab, mulher cananéia da cidade de Jericó. Como as parteiras do Egito, ela desafia a ordem do rei e salva o povo que esperava entrar na Terra Prometida. Assim como a mãe de Moisés o escondeu do faraó, Raab esconde os dois espiões na casa dela. Raab era marginalizada por ser cananéia, mulher e prostituta, no entanto se torna ancestral de reis e profetas, verifique em Mateus, capítulo1, versículo5 (Mt1,5).

Juízes

Jz 4.5: Débora era uma figura feminina atraente que mostrou o papel das mulheres na defesa do Povo de Deus, desde a antiguidade. Ela vivia em tempos difíceis e o seu povo estava ameaçado. Entregou-se ao serviço desse povo em nome de sua fé e em nome da justiça, sendo apresentada como a mulher líder, que apoiou Barac para formar a primeira confederação das tribos. A mulher profetisa, e juíza, uniu o povo e incentivou a organização de sua proteção e defesa.

Ela lidera homens e mulheres que lutavam pela defesa do povo ameaçado de extermínio, conforme narra, em Jz 4,9. Ela é a única mulher apresentada como juíza e profetisa. O juiz é quem assegurava a prática da justiça na vida do povo. Ela também é profetisa, isto é, a mulher que nos momentos difíceis sabia discernir e organizar a luta. Ela anima Barac, um dos juízes de Israel, na luta contra o exército de Sísara. Débora é considerada “mãe de Israel” (Jz 5,7)

Jz 4,17-22: Nesta luta surge outra mulher, Jael, uma estrangeira, ela é quenita, que teve papel decisivo na vitória sobre o inimigo, para libertação do Povo de Deus. O cântico (Jz 5,24ss) não explica a motivação de Jael, ela não era israelita, também não fica claro se ela acreditava no Deus de Israel. No entanto, aqui se vê, em seu ato, a realização da vontade de Deus, de sempre libertar seu povo da opressão, assim ele se utiliza de pessoas, não necessariamente israelitas, mas de qualquer pessoa que se simpatize com a sua causa.

Jz 9,52-55: Mulher Anônima – Mata Abimelec, o usurpador, era vergonha enorme ser morto por uma mulher.

Jz 11,29-40: A Filha De Jefté – Entregue em holocausto pelo próprio pai, por ter vencido uma batalha contra os amonitas. A filha pede dois meses para “lamentar sua virgindade”, pois, para uma mulher não gerar uma descendência era uma terrível vergonha. Na questão do holocausto de seres humanos, a história é semelhante a de Isaac, porque será que Deus não interviu como em Isaac?? Será que era uma mulher?? Não podemos acreditar nisso. Mas podemos pensar que foi obra de um autor que preferia o sacrifício de humanos, a abrir mão de um voto a Deus. Certamente Deus não se agradou desse ato. Mas pode-se perguntar, por que Deus fez com que Jefté vencesse a batalha??? A resposta é: Para testar Jefté, ele preferiu manter o seu voto, a agradar a Deus.

Jz 13,1-25: Mãe De Sansão – Mais uma mulher estéril; ela recebe a notícia do anjo que será mãe de Sansão, consagrado a Deus, para salvar Israel do poder dos filisteus. Mais uma coincidência na história de Israel, ou mais uma manifestação de Deus como gerador de vida, onde é improvável a vida?

Jz 14,14.16,4-21: Filisteias e Sansão – Sansão se apaixona por uma filisteia, que o trai, e o casamento não se consuma. Ele se apaixona por Dalila, que também o trai. Ambas mulheres são estrangeiras.

Jz 19,22-28: Mulher De Um Levita – Ela é entregue aos homens da cidade de Gabaá, para proteger a filha do seu hospedeiro. Os habitantes da cidade queriam manter relação homossexual com o levita; o dono da casa tenta impedir, oferecendo sua própria filha, para que abusassem dela, eles querem o levita, este, que deveria ir, preferiu salvar a sua pele, entrega a própria mulher ao crime de estupro, que morre. O levita usa a esposa, como argumento de legítima defesa. Interessante que Abraão, também usou esse expediente no Egito e em Canaã conforme Gn 12 e 20, porém o desfecho não é trágico como este.

Jz 21,8-25: Mulheres Para Os Benjaminitas – Virgens e mulheres roubadas e estupradas. em Silo, para perpetuarem a tribo de Benjamim. A violência contra as mulheres, justifica a continuidade de uma tribo.

Rute

Entre todos os livros da Bíblia, este parece ter sido escrito por mulheres para mulheres. Como Raab, Tamar e Bersabéia, Rute era uma estrangeira que abraçou a religião de Israel e lutou para realizar a vontade de Deus.

O livro de Rute é uma homenagem a Deus, que realiza seu desígnio apesar de todos os obstáculos humanos. Na família de Noemi, o marido e os dois filhos morreram. A nora era uma estrangeira moabita. Elas perderam as terras da família. Mas foi exatamente essa família que Deus escolheu para originar os ancestrais do grande rei Davi.

Interessante notar que os moabitas não podiam coabitar com os israelitas, conforme está descrito em Dt 23,4-5, no entanto é justamente em Moab, através de uma moabita que a família de Noemi encontra pão, e na volta do estrangeiro para Belém-Éfrata é a moabita que trará o pão para Noemi.

O ponto central desse livro é a compaixão: Deus é compassivo e misericordioso com seu povo; Rute é compassiva com a sogra Noemi, e Booz é compassivo com Rute.

É um livro escrito, segundo muitos estudiosos, no tempo do exílio, se duas viúvas sem filhos e sem terras, podem voltar à Terra Prometida, todos os exilados também podem.

Outra particularidade, muito especial, é de o nome de Rute é citado na genealogia de Jesus por Mateus, verifique em Mt 1,5.

Rute merece um artigo a parte, aguardem.

Do Livro de Samuel

1Sm 1.2: Ana (=compaixão, graça), mãe de Samuel é mais uma mulher estéril, que se torna fonte de salvação para o Povo de Deus. O filho dela recebe uma vocação especial de Deus, ele unifica o povo, portanto seu nascimento deve ser visto como uma ação direta de Deus.

O cântico de Ana é um hino de louvor a Deus, cuja família ele abençoou com um filho. O hino inclui outros temas de ação de graças, importantes na vida do povo de Israel: o Deus de Israel venceu os poderosos que atacaram seu povo mais pobre. Ele ajudou os famintos e os necessitados, Ele humilhou os orgulhosos que oprimiam os humildes. O Deus de Israel e de Ana instaurou um reino de justiça neste mundo, fazendo desaparecer as desigualdades.

Qualquer semelhança com o Magnificat, não é mera coincidência.

Mulheres de Davi: Mulheres celebram a vitória de Davi sobre Golias: 1Sm 18,17-29. Merb e Micol, usadas como armadilha contra Davi, 1Sm 18,17-29. Saul tira Micol de Davi, e a dá a Laís, 1Sm 25,44. Davi recupera Micol, 2Sm 3,13-16. Micol despreza Davi e não lhe dá mais filhos, 2Sm 6,2. Davi compra suas concubinas, 2Sm 20,31.

1Sm 19,11-12: Apresenta Micol, filha de Saul, mulher de Davi, que o salva da perseguição de Saul. Micol, (forma abreviada de Micael ou Miguel) é modelo de mulher no sistema patriarcal. Ela, filha de um rei e esposa de um perseguido político, fica dividida entre o amor de seu pai e o de seu marido, ela toma um partido: defende o bem comum. O amor da esposa tornou-se um amor político e libertador para o futuro de seu povo ameaçado.

1Sm 25,2-42: Abigail – Usa de astúcia e sabedoria para salvar sua vida e sua casa. Fica viúva e casa-se com Davi.

1Sm 25,43: Aquinoam – Mulher de Davi ao mesmo tempo que Abigail e Micol.

1Sm 28,7-26: Necromante, consultada por Saul, apesar de sua própria proibição de consultar necromantes. O rei corrupto, desrespeita suas próprias leis, por interesses pessoais.

BETSABEIA – Esposa de Urias, que Davi manda matar para se casar com ela. O filho deles falece logo ao nascer. 2Sm 11,1-27. 12,15-23. Betsabeia conspira a favor do filho Salomão.

2Sm 13,1-18: Tamar, irmã de Absalão, violentada por Ammon, que é seu irmão, todos são filhos de Davi. Absalão indignado com a atitude de Ammon, o mata.

2Sm 14,1-24: Mulher De Técua – Incentivada por Joab, reconcilia Davi e Absalão.

2Sm 21,10-11: Resfa – Concubina de Saul, protege os corpos dos filhos, contra os pássaros e as feras, que foram enforcados por vingança.

Dos Livros dos Reis

1Rs 2,13-25: Abisag – Jovem de Sunar, serve o rei Salomão, mas não se casam. 1Rs1,3-4. Salomão nega Abisag a Adonias: 1Rs 2,13-25.

1Rs3,1: Filha Do Faraó Do Egito, casa-se com Salomão.

1Rs 11,1-13: Salomão uniu-se a centenas de mulheres estrangeiras.

1Rs 10,1-13: Rainha De Sabá, visita Salomão para certificar-se de sua sabedoria. O testemunho da “sabedoria” de Salomão, pela boca de uma rainha (mulher) realça a qualidade do rei Salomão, com justo para com o povo.

1Rs 14,1-8: Mulher De Jeroboão – Pede um oráculo do Senhor ao profeta Aías, para que salve seu filho, mas é em vão.

1Rs 17,7-16: Os profetas sempre deram atenção aos pobres. Nesta narrativa, sobre Elias, surgem duas figuras que representam o povo pobre: a mulher, viúva, e seu único filho. O maior sinal de caridade era o cuidado que se devia dar a essas pessoas carentes.

Embora a viúva de Sarepta não fosse israelita, nem participasse da Aliança do Senhor, foi justamente ela, uma estrangeira, que Deus escolheu para sustentar o profeta Elias. No pouco, ou quase nada, que possuía, partilhou com o profeta, e Deus, vendo sua generosidade e obediência, não deixou que a vasilha de farinha e o jarro de azeite se esvaziassem durante toda a seca.

Em outro episódio ainda em 1Rs 17,17-24, o filho da viúva adoece e vem a falecer, ela acredita, como era costume, que todo sofrimento vem como castigo pelos pecados pessoais. Elias clama ao Senhor pela vida do menino e é atendido. A narrativa é anunciada a todo o povo com a seguinte mensagem: se Israel se dedicasse totalmente a Deus, Ele daria nova vida à nação.

Jezabel – Esposa do rei Acaz, persegue Elias 1Rs 19,1-2. Faz intriga contra Nabot e mata-o para ficar com sua vinha: 1Rs 21,1-26. Morre pelas mãos de Jeú: 2Rs 9,30-37.

2Rs 4,1-7: Aqui a narrativa é muito semelhante a 1Rs 7,16, só que desta vez quem intercede pela viúva pobre que tem seus dois filhos levados como escravos, é Eliseu, discípulo de Elias.

2Rs 4,8-37:Praticamente repete o mesmo episódio de 1Rs 17,17-24, com a ressurreição do filho da sunamita.

2Rs 8,1-6: Neste enredo volta à cena a sunamita a qual Eliseu fez o filho ressuscitar. Aqui após um período de fome e seca em sua terra, ela retorna, mas haviam tomado todas as suas propriedades, Eliseu intercede por ela junto ao rei, que ao ouvir os feitos de Eliseu, manda devolver tudo que pertence à viúva.

2Rs 11,1-16: Atália – Quando rainha de Judá governou o país com impiedade, até ser assassinada pelo verdadeiro herdeiro do trono, Joás.

2Rs 22: Hulda: O centro dessa narrativa é a “descoberta” de um novo livro da Lei, em virtude da reforma religiosa que o rei Josias pretendia fazer. Para isso era necessário que se confirmasse a autenticidade do livro encontrado, o rei pede aos seus secretários que consultem Hulda, profetisa que mora em Jerusalém, ela confirma a veracidade do livro e profetisa que o rei morrerá antes de ver a desgraça que cairá sobre o povo, por ter se desviado da Aliança.

A sociedade era patriarcal, a liderança religiosa e política pertencia aos homens, no entanto na profecia, todos eram iguais. Hulda entra para a história dos judeus e dos cristãos como a profetisa que teve influência decisiva numa reforma política e religiosa na vida do Povo de Deus. Sua profecia é decisiva para a reforma do Povo de Deus.

Precisamos de profetisas e profetas, que se organizem para pôr fim ao sofrimento dos mais pobres, e corrigir as injustiças cometidas aos desamparados.

Livro de Esdras

Esd 9,1-15: Mulheres Estrangeiras – Esdras ordena que os casamentos de judaítas com estrangeiras sejam desfeitos e que as expulse suas casas e de suas terras. Isso em nome de manter a identidade nacional baseada na índole religiosa.

Livro de Neemias

Ne 6,14: Noadias – Profetisa que perturbou Neemias e sua sede pelo poder.

Ne 13,23-28: Mulheres Estrangeiras – Apresenta a mesma situação de Esd 9,1-15. Aqui Neemias usa de violência física contra as mulheres, e compara a união com mulheres estrangeiras a atitude do Rei Salomão, que se uniu a mulheres estrangeiras, que Neemias, chama de infâmia, e que levaram o rei a pecar, dando inicio a desgraça de Israel.

Livro de Tobias

Tb 1,11-14: Ana Esposa De Tobit – Trabalha fora de casa para sustentar o marido e o filho.

SARA – Futura esposa de Tobias, é humilhada por suas servas, por ter todos os seus maridos mortos antes de consumar o casamento; ela pede ao Senhor um casamento, casa-se com Tobias; deixa a casa dos pais para morar com Tobias e seus pais, festa da chegada de Sara e Tobias. Tb 3,7-15.7,12-9,1-6;10,10-13;11,18-21.

Na grande maioria das vezes em que se lê, ou mesmo se estuda, a Bíblia, a figura feminina fica, na melhor das hipóteses, em segundo plano. Não se dá muita importância aos feitos dessas mulheres que colaboraram, significativamente, com Deus, no caso do AT, e com Jesus e seus discípulos, no caso do NT, para a salvação do povo de Deus.

Embora obscurecidas pelo patriarcalismo, e até mesmo pelo machismo, esses movimentos não conseguiram sufocar plenamente a ação de Deus através das mulheres. Deus também se serviu delas para o seu plano de salvação, cada uma a seu modo e com a sabedoria que lhe cabia em determinado momento da história humana.

Essa modesta síntese tem a intenção de colaborar para que leitores e leitoras da Sagrada Escritura, olhem com maior atenção para as Mulheres da Bíblia, sem as quais a história humana não seria a mesma.

Referências
ARNS, Paulo Evaristo. GORGULHO, Gilberto. ANDERSON, Ana Flora. Mulheres da
Bíblia. São Paulo: Paulinas, 2004.
BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2010.
BÍBLIA DO PEREGRINO. São Paulo: Paulus, 1997.
GALLAZZI, Sandro. RIZANTTE, Anna Maria. Teologia das mulheres: a quem Deus
revelou seus mistérios. São Paulo: Fonte Editorial, 2012.
GRÜN, Anselm. JAROSCH, Linda. Mulheres da Bíblia. Petrópolis: Vozes, 2013.
Bibliografia Complementar:
ABRAHAM, Susan. PROCARIO-FOLEY, Elena. (Orgs.) Nas fronteiras da teologia
feminista católica. Aparecida: Santuário, 2013.
BRENNER, Athalya. A mulher israelita: papel social e modelo literário na narrativa
bíblica. São Paulo: Paulinas, 2001.
Revista Theologando: Revista teológica – Ano I – Número 1.

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