‘Filho Pródigo’ na ótica do irmão mais velho

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Sou o filho mais velho. Tenho um irmão e duas irmãs. Meu pai é o primogênito de uma grande família. Os avós paternos, japoneses, tiveram onze filhos. Apesar de não cristãos, batizaram todos os filhos na Igreja Católica. Seguramente, providência divina. Viviam na zona rural. Eram lavradores. Nas famílias da colônia, ao filho mais velho cabia responsabilidade de relevo.

Meu pai, então, o que mais trabalhou na terra. A imagem do meu pai: homem com chapéu na cabeça, mãos no arado, a revolver toda a terra preparando-a para o plantio. O dia todo arando a terra, cavando aqueles sulcos que formavam um desenho bonito no solo. Um artista criando a sua obra. Todo cuidado era pouco. Traçado forte e mãos firmes no arado. O tempo todo desvirginando o solo para o plantio. “Cio da terra à propícia estação”. Um solo macio bem regado, um ambiente propício ao germinar livre, as sementes agradecidas.

Homem de poucas palavras. Vivia e respirava trabalho. Exemplo de simplicidade e conformismo. Não era dado a murmuração. Nem reclamação, nem ofensa. Nunca se exibia. Era de paz. Baixa estatura. Discreto e tímido. Demonstrava o amor pela família dedicando-se ao trabalho. Respeitava a mulher. Não a contrariava. Amava os filhos, concentrando-se no trabalho. Trabalho bem feito, amor demonstrado. No trabalho rural jamais conhecera férias. Nem tinha salário. Tinha sustento. Tudo era do patriarca. Sim, o esquema era totalmente patriarcal. A parte que lhe cabia no latifúndio era lavrar a terra. Tão só. Nisso se resumia sua vida. Sofrida, nunca reclamada.

Longe da roça, na cidade grande, aposentou-se. Ao partir, deixou um vazio. Impreenchível. Humildade e honestidade aliadas à dedicação ao trabalho compõem a sua biografia, seu legado. Com a sua obediência ao patriarca, inspirou-me à humildade sem rebaixamento. Um aprendizado decodificado com o tempo.
Ao relembrar a vida do meu pai, reconto a parábola do filho pródigo (cf. Lc 15, 11-32) sob a narrativa do filho mais velho, entremeadas de observações acerca do meu pai particular.

A parábola em crônica.

Sou o filho mais velho. Meu irmão pediu a parte da herança para viver a sua liberdade. Meu pai não sabia dizer não. Como o terreno. Ele acabou cedendo ao apelo do meu irmão desmiolado e lhe deu a parte cabível. Herança antecipada era ofensa grave! Sabe como é coração de bom pai ou coração bom de pai, não é? Pouco tempo depois, meu irmão juntou tudo o que o pai lhe dera e partiu. Foi para bem longe. Meu irmão nunca teve juízo, tudo perderá. Dizem que pessoa assim é pródiga. Pródigo é quem não tem controle sobre seus gastos e dilapida o patrimônio. Não significa “arrependido” como muitos pensam. Tudo previsível. Ele vai levar a vida na flauta: comer, beber e dormir. Vai viver na luxúria. Só no vai-da-valsa.

Um dia estava no campo. Voltava para casa. Ouvi uma algazarra com música alta e danças. Não era comum. Perguntei a um dos empregados qual a razão daquela festança toda.

Contaram-me tudo. Bastou o meu irmão apontar lá na estrada, o meu pai mesmo sendo de andar lento e solene, apressou-se e correndo abraçou largamente e beijou o rosto o meu irmão. Deu-lhe honras de príncipe. Acolheu-o de braços abertos; sandálias novas nos pés; a melhor roupa e um bonito anel no dedo. Presentes que fazem parte da honra familiar. Não se concede aos serviçais. É reconciliação plena. Sem qualquer reparo ou condição.

Meu pai terreno tinha pouco. Se tivesse muito, tudo disporia.

Meu pai quis e fez a festa com o novilho gordo. Discordei de tudo. Despropositado, injusto e sem sentido. A reação pacienciosa do meu pai afirmando ser tudo meu o que era dele com a cabal explicação de que meu irmão vivia na perdição, mas agora está salvo, me convenceram. Quando quisesse poderia fazer festa com os amigos.

Meu pai terreno quase não tinha amigos.

Não preciso contar sobre a vida do meu irmão. A história é sobejamente conhecida: terra distante, grande fome, sem proventos, sem trabalho, comida dos porcos, as refeições dos empregados do pai, vergonha, arrependimento etc.

Agora vou-me abrir e revelar o que não aparece na parábola contada por Jesus.

Eu, sendo o filho mais velho, naquele tempo e naquela sociedade patriarcal, era o representante legal da família. Fui muito egoísta! Tanto quanto meu irmão mais novo eu também errei. Sim, pedir herança antecipada é uma afronta! Discordar da decisão do pai que é o patriarca na frente de todo mundo, confrontá-lo, como fiz, também é desrespeito. Deixei a ira e a inveja poluírem o meu coração.

Nunca percebi ira ou inveja no meu pai terreno. E sabe?! Tudo isso era passível de apedrejamento. Nenhum de nós foi apedrejado. Fomos agraciados com o perdão.

Melhor mesmo seria mudar o título para: A parábola do Pai Misericordioso. Nessa história toda, Ele é o único perfeito. Ele é o Pai. O Pai das Misericórdias.

Meu pai terreno foi bondoso. Plantou a semente da minha vida. Ao trabalho entregou-se por inteiro: seu jeito de mostrar amor aos filhos e ao mundo. Simplicidade em pessoa.

Pai é Pai! Conjuga o verbo amar o tempo todo.
Deus é Pai. Deus é Amor (1Jo 4, 8).
O meu, viveu o trabalhar. Insubstituível.

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38 respostas em “‘Filho Pródigo’ na ótica do irmão mais velho”

Querido Irineu, fiquei profundamente emocionado, lendo com muita atenção e carinho sua crônica. O saudoso Dayr Zanelli já definia você como o nosso japonezinho de Deus. Oxalá podemos cada vez mais reconhecer o quanto nos faz bem saber que temos o privilégio de sua amizade. Sua profundidade espiritual nos remete ao encontro contínuo com Deus. Deus o proteja e lhe dê toda a força que tão bem é merecedor. Forte abraço nosso inspirador.

Que texto lindo, profundo, sensível! Estava com saudades de suas cronicas, sempre tão bem escritas. E as palavras de seus filhos, nos comentários, serviram para enriquecer ainda mais a mensagem de suas palavras. Parabéns! Deus o abençoe sempre.

Poxa Irineu, quanta emoção em seus textos! Não basta ser bom, tem q ter o “dom”, e vc tem, pois nos prende em seus textos sem algemas. Parabéns Irineu, orgulhosa por ter a oportunidade de te conhecer!

Irineu, sua belíssima crônica vai além, homenageia a muitos pais e as famílias que se abraçam nos exemplos virtuosos. Parabéns!

Sensacional … li com lágrima nos olhos …. Não tenho o dom da palavra como você, nem como o meu irmão Rodrigo, porém é extremamente lindo e gratificante tudo o que você escreve. Quem dera eu ser metade do que você é … já seria uma pessoa abençoada e extremante feliz. Te amo Irineu Uebara, a quem tenho orgulho de chamar de Pai, que sempre cuidou de tudo e de todos !!!! Como um velho sábio escreveu uma vez: “Pai é Pai! Conjuga o verbo amar o tempo todo.”

As palavras lindas e bem colocadas. suas colocações me deram uma saudade da teologia. Fazer da vida uma expressão de proximidade não somente com Deus mas sobretudo com as pessoas que nos rodeiam. Sempre as minhas felicidades é ler você e escutar com atenção suas palavras que nos edificam. Eu sempre agradeço a Deus pelo dom da sabedoria que você tem para um mundo melhor. Parabéns a você pai.

Caro Amigo Irineu, quanto mais vemos sobre o Filho Pródigo, mais temos a aprender. Normalmente condenamos o Irmão mais novo e nos parecemos com os olhos do irmão mais velho.
Colocaste muito bem que o egoísmo falou mais alto em ambos os lados. A sabedoria, a humildade, a compaixão e o reconhecimento do Pai, nos mostra o grande amor pela família, usa da misericórdia para com todos.
Irineu, gostei das palavras do Rodrigo, das colocações e afirmações, eu como filho mais novo, sai de casa com 12 anos para estudar, um pouco diferente do Filho Pródigo pois chorava todos os dias com saudades de todos em especial da minha querida mãe, foram em torno de seis meses até acostumar, põe filho ‘choroso’ nisso, mas a vida acaba nos ensinando muito, que saibamos tirar proveito desta parábola proferida por Jesus, para nós ensinar e confirmar.

Trabalho considerado uma obra de muito valor, como outras que conheço do amigo. Fico orgulhoso por te conhecer a tempos, mas nesses dias de agora vc tem superado limites.
Vc amigo representa a fé que as vezes abandonamos e nem se quer sabemos o porque.
Grande abraço e q Deus continue musculando suas pregações para levar a tds o sentido da palavra, como muito bem definido no Filho Pródigo.
IRINEU és um homem de Deus
Amém

Alegria em reencontrá-lo, Irineu, num texto! Estava com saudade de sua escrita sensível, que chega àquela difícil simplicidade em que se fundem razão e emoção. Obrigada, amigo!

Querido Irineu.
Bela homenagem
Que LUZ DIVINA ilumine sempre seu caminho.
Sou seu fã. Aliás……sempre fui.
Parabéns
Grande abraço e muita LUZ pra você meu irmão.

Amigo Irineu, já estava bom saudades de seus textos
O que se refere a seu pai, parte da história eu já tinha ouvido, mas contado agora por você Emociona.
Grande abraço amigo

Que texto fluído e simples, deu saudades do meu pai…
Parabéns Irineu, eu na minha adolescência tinha uma admiração muito grande por vc apesar da diferença de idade ñ seja grande. Abraço!

Lindas e maravilhosas palavras Irineu.
Convivi pouco com vc em ANDRADINA na CJC pois sai cedo em abril de 1968.
Mas lembro bastante de você sempre acompanhado do Tio, o Clineo
Nunca mais tivemos o prazer de encontrar mos
Neste ano que tinha programado a ida ao encontro de ANDRADINA a pandemia nós atrapalhou.
Não sei se lembra de mim,mas vamos nos encontrar ainda, se DEUS quiser e ele quer.
Parabéns pelos escritos
Bujão

Parabéns Irineu !!
Li o belo texto inteiro e fiquei muito feliz.
Há muito tempo não via a nossa língua portuguesa ser tão bem tratada.
Precisamos de mais escritos com essa qualidade.
👏👏👏👏

Nosso pai realmente era uma pessoa iluminada e amoroso. Acho que comigo ele conseguiu demonstrar mais esse amor pois como sou a caçula conseguiu demonstrar mais esse carinho. Ele deixou um vazio enorme em todos que fizeram parte da vida dele. Todos lembram dele com muito carinho e sempre pronto pra ajudar no que precisasse. Obrigado meu irmão por este texto lindo. Que pena que ele não teve tempo de ler seus textos pois ele gostava muito de ler. Acho que você herdou isso dele.

Incrível! Me emocionei muito e ler o que o Sr. escreve, é sempre uma inspiração para mim! Que orgulho tenho do Sr.
Deus te abençoe!

Irineu, amigo que muito nos honra por testemunhar com tanta propriedade os ensinamentos de Jesus!!!! Parabéns por mais esse canal de divulgação de ensinamentos profundos, com leveza, numa linguagem poética que tanto nos toca!!!!

Para dizer o simples: Esse seu texto (desabafo?), serve para ilustrar muitas relações familiares. Tenho orgulho de tê-lo como meu companheiro , de CjC, de Andradina. Não eras da Antena, mas, para chegar à sua casa (chácara), tinhas que passar por ela. Abraços meu amigo escritor, poeta, e pelos seus conhecimentos religiosos, melhor que alguns padres .

Lindo texto amei , e olha que não sou uma pessoa que gosta de ler, mais ele consegue fazer eu parar pra ler. Tenho uma palavra que o Sr. Nós ensinou (Sumidade) essa palavra te defini. Muito orgulho de ser sua Amiga. Parabéns. Saudades.

Lindo texto Irineu. Parabéns!
Eu também sou o filho mais velho de um pai muito querido.querido. Homem trabalhador, simples, humilde, exemplo de honestidade e honradez.
Abraços.

Como sempre, Irineu, você escreve com simplicidade, deixando nas entrelinhas mensagens de muita profundidade. O verdadeiro Amor permeia o texto e o pensamento… Sábias e iluminadas palavras! Parabéns e sucesso pra você, que bem merece!

Excelente texto Sr Irineu, como sempre bem esclarecedor e tocante. Que bom que voltou a escrever, Deus ilumine sua vida sempre amigo. Parabéns e sucesso.

Tantos sentimentos. Tantos pensamentos. Tantos sentimentos e pensamentos calados. Tantos por que? E hoje o filho coloca seus sentimentos com tanto amor.

Eu amei. Vc é uma pessoa iluminada um pai um amigo um esposo maravilhoso,agradeço por ser amiga dessa família um coração de ouro

Tive o prazer de conhecer esse homem de um coração puro, seu pai.
Que me acolheu muitas vezes em sua casa…. homem de poucas palavras, porém de gestos grandiosos….

Li e reli por duas vezes. E foram duas vezes por dois motivos: o primeiro é que o texto é familiar e que conta fatos que nunca soube, ou melhor, que nunca tive curiosidade de perguntar; o segundo é que sendo filho do escritor, o primogênito e não pródigo – com toda a certeza – busco palavras, mas não acho, para tentar expressar o quanto orgulho tenho de ser seu filho. Parabéns pelo brilhante texto e mais uma vez te digo, pois isto é fácil de escrever: TE AMO.

Não sei qual texto é mais bonito. O texto do meu amigo ou a resposta de seu filho. Mas existem mais personagens nessa história. Abraços e meu respeito a todos.

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