Pentecostes, ápice da Ressurreição

Areopago-Luiz-Pentecostes

Espírito, Espírito! Que desce como fogo! Vem como em Pentecostes! E enche-me de novo!

Hoje celebramos a plenitude da Páscoa, com a festa de Pentecostes, onde o Espírito Santo é derramado sobre todas as pessoas de todo o mundo. Na Páscoa houve um sopro, quando o homem novo é criado, o novo Adão (cf. 1Cor 15,45), evocando a criação do antigo Adão, quando Deus soprou-lhe em suas narinas.

Envias teu sopro e eles são criados, e assim renovas a face da terra (Sl 104,30).

Em Pentecostes Jesus sopra sobre seus discípulos dizendo: “Recebam o Espírito Santo” (Jo 20,22). Jesus renova a vida e sopra, colocando nos discípulos o Espírito de Deus. Recebemos esse Espírito Santo para continuar, no mundo, a mesma missão de Jesus Cristo, que é a promoção da vida em todos os ambientes.

No Pentecostes, o mistério pascal é celebrado como um todo (morte, ressurreição, ascensão, envio do Espírito). O Concílio Vaticano II resgatou a unidade entre Páscoa e Pentecostes. Hoje recordamos o dia em que o mistério pascal atingiu sua plena realização no dom do Espírito derramado sobre a Igreja. Pentecostes deve ser considerado como o coroamento do tempo pascal (c.f. ADAM, 1982, p.90)

O livro dos Atos dos Apóstolos narra as manifestações do Espírito Santo na comunidade reunida para celebrar a festa de Pentecostes; palavra que contém, em si, o número cinquenta (Cinquenta dias após a Páscoa, a ressurreição de Jesus.). Essa festa antiga constituía-se na ação de graças pela colheita dos cereais (Ex 23,14-16; 34,22). Mais tarde foi relacionada ao evento salvífico do êxodo, para celebrar a Aliança, o dom da Lei no Sinai.
As imagens do vento e do fogo evocam a revelação de Deus no Sinai, a Aliança firmada em sua palavra (Ex 19, 16-18; Dt 4,36). Estes símbolos evocam a força irresistível de Deus, que vem ao encontro do homem, comunica com o homem e que, dando ao homem o Espírito, constitui a comunidade de Deus.

Derramarei o meu espírito sobre toda carne (Jl 3,1)

A palavra Espírito, em hebraico ruah, aparece muitas vezes no Antigo Testamento. No Gênesis (Gn 2,7) pode ser traduzida por sopro ou vento, que possui a força que cria, dá a vida e repousa sobre certos eleitos, investindo-os de poderes extraordinários com a finalidade de criar, animar, organizar, discernir, profetizar, ressuscitar, libertar, recriar, combater, governar, executar diversos trabalhos e profetizar.

É nos profetas Jeremias: (Jr 31,31-34), Ezequiel (Ez 36,24-28) e Joel (Jl 3,1-2) que, de forma mais expressiva, pode-se constatar a marcante transição da atuação externa e pública da ruah de Iahweh, para uma perspectiva mais interior e profundamente pessoal, onde o Espírito do Senhor é visto como aquele que age no coração de cada fiel, capacitando todo o povo de Deus à experiência de uma renovação interior e à novidade do coração, em vista da aliança que o Senhor projetava contrair com os seus. (c.f. SANTANA, 2010).

Na plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho (Gl 4,4) para concluir o seu desígnio de salvar e renovar todos os homens. Jesus abre o caminho da história para a releitura das promessas messiânicas. Os primeiros discípulos, o grupo dos Doze, conhecedores das promessas messiânicas, viram em Jesus, o descendente de Davi dotado da plenitude do Espírito do Senhor.

Tendo-se completado o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar (At 2,1).

Estavam reunidos, em assembleia, algumas mulheres, entre elas Maria, a mãe de Jesus (At 1,14), o grupo dos Doze e algumas outras pessoas, “uma multidão de quase cento e vinte pessoas” (At 1,15).

Entre os discípulos de Jesus, não havia pessoas excluídas, todas eram convidadas para a festa de Pentecostes. Nessa festa aconteceu algo extraordinário: “De repente, veio do céu um barulho como o sopro de um forte vendaval, e encheu a casa onde eles se encontravam. Então apareceram línguas como de fogo, que se espalharam e foram pousar sobre cada um deles” (At 2,2-3).

Estavam reunidos numa casa, “no cenáculo” (At 1,13). Jesus resgata o sentido original da casa e das festas na vida das comunidades. Um retorno à vida comunitária e solidária (At 2,42-46; 4,32-¬35). Essa festa volta a ser a festa da casa, marcada pela solidariedade. É no espaço da casa que o Espírito de Deus se manifesta. “Todos ficaram repletos do Espírito Santo” (At 2,4) (c.f. NAKANOSE e MARQUES, 2000).

A missão de Jesus é conduzida pelo Espírito (Mc 1,10; Lc 4,14). Ele renova a esperança de vida e possibilita, à pessoa, a volta à comunidade. A comunidade de Jesus é, assim, capacitada pelo Espírito para viver uma nova humanidade. Jesus organiza a comunidade. Em seu ministério, estabelece novas relações, fundamentadas na lei do amor e da solidariedade. Restitui a vida pelo perdão e organiza a partilha. Ele recria a vida na liberdade (Mc 5,8).

Na festa da vida, todos podem participar. A vinda do Reino é alegria, por isso é celebrada como a Boa Nova, aquela que não possui tristeza ou desânimo, mas contém a esperança e o ânimo para a caminhada. Jesus, pregando o Reino, traz consigo a boa notícia, a alegria do Evangelho, recordando a dimensão de que, a casa de Deus, é lugar de festa, de celebração.

Guiados pelo Espírito, os discípulos de Jesus percorreram o mesmo caminho do Mestre. As primeiras comunidades cristãs libertam e criam um novo espaço para as pessoas. As comunidades passam a se organizar a partir da casa (At 12,12). Na casa, as pessoas vivem novas relações, baseadas no amor, no respeito (At 1,15) e no acolhimento (At 2,42) de cada um dos membros.

Ide, fazei discípulos de todas as nações… (Mt 28,19)

No Pentecostes, o Espírito liberta os discípulos do medo e os faz saírem de si mesmos, transformando-os em anunciadores das maravilhas de Deus. O Espírito foi preparando os corações dos discípulos, conforme eles mesmos, aos poucos, abriam espaço, a partir do desejo e saudade que tinham de estar com Jesus. Jesus se aproxima dos seus de maneira tranquila, sossegada e despercebida. O Espírito é que capacita os discípulos a criar espaço de diálogo e confiança. O anúncio da Boa Nova chega às pessoas dentro de sua situação de vida.

Todos têm a oportunidade de ouvir a Boa Notícia a partir de sua própria realidade. Essa experiência nova leva a pessoa a anunciar a mensagem de Jesus para todos. Assim, o movimento de Jesus se torna essencialmente missionário e profético, sob a luz e a orientação do Espírito Santo.

O Reino de Deus anunciado por Jesus é a oferta de Jesus para os homens; missão de todos os batizados que assumem, com consciência e responsabilidade, o projeto de Deus. A Igreja auxilia nesse caminho, ao ensinar as pessoas a distinguirem as coisas boas das coisas ruins. Os cristãos são chamados a intervirem no mundo, de modo que se faça conhecer a presença de Deus em suas ações. Esse é o povo de Deus, a Igreja missionária que Jesus pediu aos discípulos de todos os tempos, cumprindo o mandado do Ressuscitado (c.f. SILVA e EUCLIDES, 2018).

O dom do Espírito Santo harmoniza todas as diversidades, suscitando o amor e a fraternidade entre todos os povos. Conduzidos pelo Espírito, formamos um só corpo em Cristo, que se completa com a vida e a missão de cada membro a serviço do Reino de Deus.

Renovados pelo Espírito, como em Pentecostes, possamos falar a linguagem do amor, da justiça e da paz, que une os povos na fé em Jesus ressuscitado. O Espírito de Deus, que conduziu a missão de Cristo, permaneça sempre conosco para guiar nosso caminho de discípulos missionários.

Cantemos, juntos, esse belíssimo hino:

Hino de Pentecostes, por Gabriel Nogueira
Referências:
BÍBLIA de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.
BÍBLIA do Peregrino. São Paulo: Paulus, 3ª edição, 2017.
ADAM, Adolf. O Ano Litúrgico. São Paulo, Edições Paulina, 1982, p.90.
ANTONIAZZI, Padre Alberto. Redescobrir os Atos dos Apóstolos. Revista Vida Pastoral - Ano: 59 - Número: 322-Jul-Ago/2018.
BOSETTI, Elena, O Espírito e a Missão nos Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulus, 2009.
NAKANOSE, Shigeyuki; MARQUES Maria Antônia. Pentecostes: festa das comunidades, Espírito e missão (At 2,1-13). https://www.vidapastoral.com.br/artigos/temas-biblicos/pentecostes-festa-das-comunidades-espirito-e-missao-at-21-13/ Acesso em 27 de abril de 2021.
SANTANA, Luiz Fernando Ribeiro. O Espírito Santo na vida de Jesus - Por uma Cristologia Pneumática. < https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/13329/13329_3.PDF > Acesso em 28 de abril de 2021.
SILVA, Marcelo da; EUCLIDES, Edemilson. Reino de Deus e dignidade humana: atualização da mensagem de Cristo na América Latina. Acesso em 23 de abril de 2021.
SANTANA, Luiz Fernando Ribeiro. O Espírito Santo na vida de Jesus - Por uma Cristologia Pneumática. < https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/13329/13329_3.PDF > Acesso em 18 de abril de 2021.

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Uma resposta em “Pentecostes, ápice da Ressurreição”

Que belo texto nos enche o coração de esperança. Em meio a todo sofrimento que o Povo de Deus tem passado com essa pandemia no mundo todo, vem Pentecoste mostrar-nos que Jesus está sempre conosco e sopra seu Espírito Santo a todos que Nele crê. Bendito seja Deus na sua infinita misericórdia.

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