Maria Madalena: pecadora, prostituta e santa

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Por meio deste artigo, quero esclarecer, de fato, o grande equívoco que ainda perdura sobre a figura de Maria Madalena, desde o Século VI até os dias atuais. Não vou esgotar o tema sobre Maria Madalena, pois há muito que falar dela. Porém, aqui, vamos corrigir o que muitos acreditam que Madalena foi uma prostituta, uma pecadora. Sua figura é de especial importância para a Igreja, e para a história da nossa salvação, que se dá através de Jesus Cristo, mas isto vamos deixar para outra oportunidade, quando trataremos com mais profundidade.

Muitos fiéis ainda acreditam que Madalena era uma prostituta que se converteu a Jesus. Há algumas possibilidades que levam a se acreditar nesta hipótese, uma delas pode ser uma leitura muito rápida dos textos bíblicos, ou mesmo um exemplo da pouca importância que se dá à memória do discipulado das mulheres. Pode ser que exista a ideia de ligar a figura de Maria Madalena a uma mulher que se arrepende de seus pecados, pede perdão e é, obviamente, perdoada. Outro motivo, não tão claro, é a de esconder, por conta do machismo e/ou do patriarcalismo, o discipulado das mulheres que seguiam Jesus, sim, muitas mulheres eram discípulas de Jesus, basta uma leitura atenta do Evangelho.

Mesmo que esta deturpação da figura de Maria Madalena não fosse muito consciente, ela é um desvelamento do medo que o androcentrismo tem de perder o poder. Se a tradição da discípula e apóstola permanecesse, haveria o perigo de que as mulheres descobrissem a sua importância nas origens do Cristianismo e se sentissem animadas a assumir com autoridade, dignidade e pleno direito seus espaços de reflexão, decisão e também no ministério ordenado das igrejas cristãs. Estariam lado a lado com os homens, mantendo a memória fiel de Jesus de Nazaré, fazendo circular o amor pleno e sem medo, exercendo o poder de defender e fortalecer a vida1.


Para a teóloga luterana Ivoni Richter Reimer, as transformações da imagem de Maria Madalena foram “usadas para justificar a criação de conventos para mulheres, para afirmação do celibato ou da abstinência sexual. Tirando-se o poder da Maria Madalena apóstola e companheira de Jesus, tirava-se também a força dos movimentos eclesiais madaleanos. A ‘popularização’ dessa “outra” Maria Madalena está intrinsecamente ligada com uma política eclesiástica patriarcal de desempoderamento das mulheres”2.

Ahhh!!!! mais confusão

A confusão ficou mais grave ainda, quando o Papa Gregório Magno (540-604), ensinou na Catedral de Milão no ano de 596, a partir da leitura equivocada de Lc 7,36-45, que a mulher que unge os pés de Jesus seria Maria Madalena; esclarecendo os fiéis presentes que o exemplo dessa mulher impura e pecadora, agora convertida, deveria ser seguido pelas pessoas. Se Gregório, o Magno, fez essa declaração, obviamente que muitos outros pregadores e oradores o seguirão nesta declaração errônea. Infelizmente isso perdura até os nossos dias, desde o Século VI, são mais de 1400 anos infligindo à Maria Madalena o que, de fato, ela nunca foi.

Por que Gregório Magno faz essa confusão? Porque logo após o trecho citado acima (Lc 7,36-45), ainda em Lc 8,1-3, Lucas relata algumas mulheres que seguiam Jesus, entre elas está o nome de Maria Madalena. Porém em Lc 7,36-45 a mulher não é citada pelo nome, isso quer dizer que, ela pode ser qualquer pessoa, é “genérico”. Sempre que na Bíblia não se cita o nome de algum personagem é porque ele pode se referir a qualquer pessoa: você, eu, ele, ela, nós, enfim: é uma mensagem dirigida a quem ler o texto.

A mulher citada em Lc 7,36-45, é uma mulher marginalizada, excluída do convívio social e da comunidade, não pertence ao círculo de discípulas e discípulos de Jesus. Ela é corajosa e decidida ao entrar na casa do fariseu Simão e realizar o rito de acolhida e de boas-vindas que o anfitrião não fez, é de especial importância esse rito, além de educação, era um alívio a quem caminhava nas estradas poeirentas e pedregosas de Israel.

Outra confusão criada, pois esta mulher (Lc 7,31-45) é confundida com as que ungem os pés de Jesus, dias antes de sua crucifixão, narrados em Mt 26,6-16 e Mc 14,3-9, ambos evangelistas dizem que o nome do anfitrião também é Simão, como em Lc 7,31-45), porém completam com a alcunha de “o leproso”. Uma leitura atenta faz perceber que estão em contextos diferentes, em Lc 7,36-45 é um jantar na casa de Simão fariseu, como relatamos acima. Em João 12,1-8 a mulher que unge os pés de Jesus é Maria, irmã de Marta e Lázaro, aquele que Jesus fez retornar à vida. Neste contexto, assim com em Mt e Mc, ocorre dias antes da crucifixão de Jesus.

Maria Madalena é a mulher mais citada pelo nome pelos quatro evangelistas. Além disso, ela aparece sempre realizando funções muito importantes para as origens do Cristianismo:

  • discípula de Jesus (Lc 8,1-3);
  • testemunha da sua crucifixão (Mc 15,40-41; Mt 27,55-56; Lc 23,49; Jo 19,25);
  • testemunha do seu sepultamento (Mc 15,47; Mt 27,61);
  • testemunha da sua ressurreição (Mc 16,1-8; Mt 28,1-10; Lc 24,1-10; Jo 20,1; 20,11-18);
  • enviada aos Onze com uma mensagem de Jesus (Mt 28,10; Jo 20,17-18).

Madalena, nestes textos, é citada sempre em primeiro lugar, João 19,25 é o único que coloca em terceiro lugar, após “sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas e Maria Madalena.”

No Evangelho, quando se coloca o nome de algum personagem em primeiro lugar, é sinal de destaque ou liderança, vejam o caso de Pedro, sempre em primeiro lugar nas citações, não seria diferente com Madalena. O evangelista Marcos dá importância a atividade das mulheres, especialmente Maria Madalena: “Estavam aí olhando à distância algumas mulheres, entre elas Maria Madalena, Maria mãe de Tiago o menor e de Joset, e Salomé, as quais. quando ele estava na Galileia, o tinham seguido e servido; e ainda muitas outras que haviam subido com ele para Jerusalém” (Mc 15,40-41). Esta passagem está narrando a crucifixão de Jesus, elas, as mulheres, o seguiam e o serviam, não o abandonaram na hora derradeira. Destaque para as mulheres sim, não é erro deste que vos escreve.

Sete demônios!? que repugnante, que impressionante

Lc 8,2 diz que “Maria Madalena, da qual tinham saído sete demônios”, Mc 16,9, também faz a mesma menção (sete é o número da plenitude, da totalidade). Uma interpretação errada sobre o significado do termo “demônio”, vejamos: no Evangelho, especialmente em Lucas, “demônio” significava que Madalena tinha alguma doença nervosa ou física, o número sete, diz que é algo gravíssimo; após ao encontrar Jesus ela recupera a harmonia interior e entra em um processo de crescimento e amadurecimento pessoal, até atingir a plenitude do seu ser na experiência pascal. Interpretações erradas de termos bíblicos e leituras fundamentalistas, levam a grandes equívocos e preconceitos.

De memória à Festa

Por vontade do Papa Francisco, a Congregação para o Culto elevou a memória de Santa Maria Madalena, com um decreto assinado pelo cardeal Robert Sarah, ao grau de festa. O documento tem a data de 03 de junho de 2016. O secretário do dicastério, o arcebispo Arthur Roche que também assinou o decreto, explica que esta decisão “inscreve-se no atual contexto eclesial, que pede uma reflexão maior e mais profunda sobre a dignidade da mulher, a nova evangelização e a grandeza do mistério da misericórdia divina”.

Assim o Papa Francisco torna mais solene ao elevá-la ao mesmo nível das festas celebradas pelos apóstolos, para destacar a importância da primeira testemunha da ressurreição e o papel da mulher na evangelização. A data da celebração continuará sendo o dia 22 de julho.

Apóstola dos Apóstolos

Santo Tomás (1225-1274) disse que era “apóstola dos apóstolos”, porque foi ela quem anunciou aos discípulos atemorizados e trancados no cenáculo o que eles, por sua vez, tinham que anunciar por todo o mundo. Por isso, é justo que a celebração litúrgica desta mulher tenha o mesmo grau de festa outorgado às celebrações dos apóstolos no Calendário Romano Geral e que ressalte a especial missão desta mulher, que é um exemplo e modelo para todas as mulheres na Igreja.

Convém lembrar que, nas Igrejas Ortodoxas, Madalena ostenta o título de “Apóstola dos Apóstolos”, uma vez que é a Apóstola (a Enviada) da ressurreição: “Eu vi o Senhor!” (cf. Jo 20,17-18), por ser ela a primeira pessoa que fez a experiência com Jesus ressuscitado e logo compartilhou a sua experiência com os demais apóstolos.

Oração

Deus, nosso Pai, a Maria Madalena, feita por Vós uma nova criatura, Vosso Filho ressuscitado confiou o primeiro anúncio pascal: concedei também a nós, em comunhão com ela, seguir Jesus Cristo até a cruz, proclamá-lo ressuscitado e contemplá-lo um dia na Vossa glória. Ele que vive e reina agora e para sempre. Amém.

Santa Maria Madalena, rogai por nós.

Notas
1) https://cebi.org.br/noticias/genero/maria-madalena-e-as-outras-marias-mercedes-lopes/
2) http://www.ihu.unisinos.br/www.ihu.unisinos.br/78-noticias/590798-mulheres-da-igreja-maria-madalena-a-primeira-testemunha-da-ressurreicao

Esse artigo foi gravado em vídeo e está disponível no canal do Areópago. Vide abaixo.


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12 respostas em “Maria Madalena: pecadora, prostituta e santa”

Muito esclarecedor , amei!
Parabéns Cleide por conseguir nos mostrar claramente essa leitura Atenta tão importante!!!

bem esclarecedor o texto, parabéns acessora Cleide do Cebi e aos teólogos.
vcs são iluminados.

Querido Jairo, parabéns pelo artigo claro e muito esclarecedor. Me fez refletir que muitas vezes nos deixamos levar por opiniões e conceitos preconceituoso sem nos dar conta disso.

Prof. Jairo… Excelente texto. Resgatar a imagem das mulheres na Igreja é fundamental para a sua continuidade… Me fez lembrar a aula sobre a criação.. Ish e Ishá… Duas partes da mesma vida…

Excelente artigo! Que aula! Parabéns pela qualidade do material teológico apresentado pelo Areópago! Bendita seja a 13a. Apóstola Maria Madalena! 🙏🏻

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