João Batista: o batizador

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O profeta do Altíssimo

Ao contrário do que muitos pensavam, João não era o Cristo. Sua missão foi preparar os corações para receber o Reino de Deus, que em breve iria chegar, por meio de Jesus. A missão de João envolveu sofrimento, incompreensões e martírio, como havia acontecido, ao longo da história da revelação, com patriarcas e profetas.

O nome do menino é João, que, no idioma hebraico, significa “Deus agraciou”. Ou seja, o profeta é uma graça, um dom de Deus, não apenas para os pais dele, que estavam velhos. João é um dom de Deus porque é um profeta. Sua vinda a este mundo é uma intervenção de Deus no curso da história.

Por isso, o nascimento do profeta causa “alegria” e “temor” nas pessoas. Alegria porque a vinda de um profeta ao mundo significa que Deus ainda se importa com a humanidade; significa que, diante da infidelidade das pessoas, Deus manifesta fidelidade de sua parte e deseja reatar os laços de amizade com a humanidade. Temor porque o profeta nos inquieta, a sua palavra é espada cortante e penetrante, que manifesta as intenções dos corações. A vida do profeta é luz a exigir que nos deixemos iluminar e abandonemos nossas trevas interiores (Andrade, 2020).

Mas quem era e qual a mensagem de João Batista?

Lucas, além de situá-lo como parente de Jesus (Lc 1,41-44), também apresenta, historicamente, sua missão: Tibério era o imperador, Pilatos o governador e Herodes Antipas o tetrarca da Galileia. Anás e Caifás eram os sumos sacerdotes (Lc 3,1-2). “Zacarias, seu pai, um sacerdote da classe de Abias e sua mãe, descendente de Aarão, chamava-se Isabel (Lc 1,5-6).

João era filho único de um sacerdote que atuava no Templo de Jerusalém e, segundo as leis, deveria suceder o pai em sua função, assegurando que a linhagem sacerdotal continuasse. Mas, em algum momento, João rompe, conscientemente, com o templo e com tudo o que ele significava (MEIR, 1996, p.38-41)

O comportamento inusitado de João Batista tem desafiado autores de todos os tempos. Mas, todos concordam que essa atitude radical está bem de acordo com a ação e mensagem de João, conforme relatadas por Lucas. “O menino crescia e se fortalecia em espírito. E habitava nos desertos, até o dia em que se manifestou a Israel” (Lc 1,80). Não existem relatos de que se apoie em algum mestre. Tampouco invoca alguma autoridade para legitimar sua ação. “De repente abandona a terra sagrada de Israel e vai ao deserto para proclamar sua mensagem: a história do povo eleito chegou a seu fracasso total” (PAGOLA, 2014, p.89).

João é a voz que clama no deserto

Para os judeus, o deserto remete à origem da história de seu povo; lugar em que é preciso retornar em épocas de crises para recomeçar a Aliança rompida com Deus. É lugar de infertilidade, de simplicidade, de libertação, de prova, mas também lugar de bênção. O deserto é uma forma de exílio, longe de Deus, longe da terra natal, longe da fraternidade dos amigos e da família.

Pode-se supor João inquieto, angustiado e perturbado pela opressão a que são submetidos os camponeses, pela brutalidade imprimida pelos romanos, pelas brigas entre as famílias, pelo desprezo pela Lei de Deus, manifestada pelos religiosos. Conhecedor das mensagens dos profetas, especialmente de Jeremias, que consolou e animou o povo, durante e depois do exílio, exortando-os a confiar no perdão divino.

João anunciava o juízo iminente e gritava a necessidade de conversão com imagens duras e cortantes como faca. Exortava à penitência e exigia dos que acorriam a ele, para ouvi-lo, a conversão e a prática da justiça. A conversão deveria ser manifestada de maneira visível, por meio de um símbolo ritual: pela confissão pública dos pecados e pelo batismo com água. Ao se submeter, humildemente, a um batismo ministrado pelo pregador do arrependimento e do julgamento iminente, o candidato aceitava a verdade das palavras proferidas. João gritava que não adiantava apelar para a eleição por parte de Deus. Era imperativo reconhecer-se afastado de Deus, tomar consciência das faltas e, clamando por misericórdia, retornar a Deus.

“Quando se cumprirem em ti todas essas palavras, — a bênção e maldição que te propus, — e as meditares vivendo entre os povos para onde Iahweh teu Deus te expulsará, tu te converterás a Iahweh teu Deus; escutarás sua voz, o que hoje te ordeno, com todo o coração, com toda a alma, tu e teus filhos. Então Iahweh teu Deus, compadecido de ti, mudará tua sorte; Iahweh teu Deus voltará e te reunirá, tirando-te de todos os povos por onde te dispersou”.

Dt 30,1-3

Longe da terra, longe de Deus. Retorno à terra, retorno a Deus. João não quer levar o povo ao desespero, pelo contrário, convida todos a acorrerem ao deserto para uma mudança radical de vida. Devem ir para o deserto, arrependerem-se, atravessarem o Jordão, saindo de Israel e, uma vez fora da terra prometida, tendo recebido o perdão de seus pecados, mergulharem novamente nas águas do Jordão1.

João é o “mensageiro precursor do Senhor” (Lc, 1,67-79), aquele que novamente guia Israel pelo deserto e volta a introduzi-lo na terra prometida. “E ele percorreu toda a região do Jordão, proclamando um batismo de arrependimento para a remissão dos pecados, conforme está escrito no livro do profeta Isaias: “Uma voz grita no deserto: Preparai o caminho do Senhor, aplainai suas veredas” (Is 40,3).

Mas, João não era o Messias esperado

Meier destaca que muitos autores, ainda hoje, se debruçam sobre como situar a figura de João dentro do vasto campo em que se apresentam os profetas de Israel. Seu discurso é simples e claro, ele prega com base em sua autoridade pessoal, que parece sentir provir diretamente de Deus. A radicalidade e a originalidade da atividade de João, deram origem a especulações sobre a figura do Messias. Seria João o Messias ansiosamente esperado por Israel? (MEIR, 1996, p.49-51).

João nunca se considerou o Messias dos últimos tempos. Ele tinha consciência de que era aquele que apenas iniciava a preparação. Via muito além do seu tempo, compreendia-se como parte de um processo dinâmico, com duas etapas bem definidas: A primeira etapa seria a da preparação, no deserto, em um batismo ‘com água’, batismo de conversão a Deus e a acolhida de seu perdão. Depois viria outra etapa, que seria experimentada e vivida dentro da terra prometida. Ele não seria o protagonista, mas alguém ‘mais forte’, que batizará ‘com o Espírito Santo e com fogo’. Batismo definitivo que conduzirá a uma vida plena. Israel será renovado e transformado. O povo conhecerá uma vida digna e justa numa terra prometida. Viverá uma Aliança com seu Deus.

“Como é difícil discernir entre a Palavra e a voz, os homens acreditaram que João era Cristo. Tomaram a voz pela Palavra. Mas João se identificou como a voz para não usurpar os direitos da Palavra. Disse: Não sou o Messias, nem Elias, nem o Profeta. Perguntaram-lhe: O que diz de você? E ele respondeu: Eu sou a voz que clama no deserto: “Preparai o caminho do Senhor.” A voz que clama no deserto, a voz que rompe o silêncio. Diz “preparai o caminho do Senhor”, como se dissesse: “Sou a voz cujo som apenas introduz a Palavra no coração; mas, se não lhe prepararem o caminho, a Palavra não virá aonde eu quero que ela entre”2.

Santo Agostinho

O batismo que João oferece é, precisamente, o novo rito de conversão e perdão radical de que Israel necessita: o começo de uma eleição e de uma aliança nova para esse povo fracassado.

Também hoje, temos entre nós, um grande profeta: o Papa Francisco. Mas, parece que as coisas não mudaram muito. Também ele é rejeitado por muitos. A hipocrisia, infelizmente, ainda se faz presente no meio de nós.

“A hipocrisia escandaliza, denunciou o Papa Francisco. E o profeta faz-nos compreender a diferença que existe na nossa vida entre o real e o formal. É verdade, o formal é uma expressão do real, devem caminhar juntos. Mas quando o formal se separa do real, vivemos só de formalidades e aparências. É isto que Deus condena: viver de aparências. Uma vida para aparecer, sem verdade na realidade do coração das pessoas. Aliás, o Senhor recomenda que sejamos muito simples nas aparências para não nos vangloriarmos das obras boas”3.

Peçamos ao Senhor a Graça de sermos coerentes, de não sermos vaidosos, de não parecermos mais dignos do que somos. Peçamos esta Graça, nestes tempos: a coerência entre o formal e o real, entre a realidade e as aparências.

Notas
1) PAGOLA, José Antonio. Jesus: aproximação histórica. Petrópolis: Vozes, 2014, p. 91. Os estudos mais recentes sobre o Batista (Stegemann, Meier, Webb, Vidal) o situam batizando a leste do Jordão, no território da Pereia, que estava sob a jurisdição de Antipas. Isto explica que ele pudesse encarcerá-lo e executá-lo na fortaleza de Maqueronte, ao sul da Pereia. Na Judeia governava neste momento Pôncio Pilatos.
2) II DOMINGO DO ADVENTO: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas!”. Disponível em: http://vidacrista.org.br/ii-domingo-do-advento-preparai-o-caminho-do-senhor-endireitai-suas-veredas/ Acesso em: 5/junho/2020.
3) PAPA FRANCISCO. Coerência não hipocrisia. Disponível em http://www.vatican.va/content/francesco/pt/cotidie/2019/documents/papa-francesco-cotidie_20190308_coerencia.html Acesso em: 4/junho/2020.
Referências
ANDRADE, Aíla L. Pinheiro. Natividade de São João Batista – 24 de Junho. Publicado na Revista Vida Pastoral - Ano: 61 - Número: 334 – Mai/Jun/2020.
BÍBLIA de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.
Bíblia do Peregrino. São Paulo: Paulus, 3ª edição, 2017.
MEIER, John P. Um judeu marginal: repensando o Jesus histórico. volume 2, livro 1; mentor. Rio de Janeiro: Imago ed. 1996.
PAGOLA, José Antonio. Jesus: aproximação histórica. Petrópolis: Vozes, 2014.

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2 respostas em “João Batista: o batizador”

[…] Pois esta é a história de João, o batista. Existe ainda alguns ricos elementos que acabei deixando de fora para não se alongar tanto e também porque não estão diretamente ligados com a história de João, mas sim com um aprofundamento teológico. Se desejar, aconselho dar uma lida nesse outro artigo aqui » João Batista, o batizador. […]

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