O dia do perdão

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Jesus nos ensina que não há dia, nem hora, nem lugar e tampouco quantas vezes devemos perdoar quem nos ofendeu. “Se meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe? Até sete vezes?” Jesus respondeu: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18,21-22).

Devemos perdoar sempre, a todas as pessoas (mesmo aos inimigos) e sem qualquer reserva, sombra ou prevenção. Esta é uma das exigências mais difíceis que Jesus nos faz. No entanto, não há, neste campo, meias tintas, dúvidas, evasivas, desculpas: trata-se de um valor fundamental da proposta de Jesus. Ele deu testemunho, em gestos concretos, do amor, da bondade e da misericórdia do Pai. “Jesus é a face misericordiosa do Pai, a fé cristã parece encontrar nestas palavras a sua síntese. Tal misericórdia tornou-se viva, concreta e alcançou o seu clímax em Jesus de Nazaré” (FRANCISCO, 2015, n.1).

Para nos ajudar a mergulhar nos mistérios, contidos nas Sagradas Escrituras, sobre a misericórdia de Deus, recorremos à parábola sobre “A Volta do Filho Pródigo”, segundo o Evangelho de Lucas (Lc 15,11-32). Essa parábola nos fala de um Deus, cheio de bondade e de misericórdia, que derrama sobre os seus filhos, de forma total, ilimitada e absoluta, o seu perdão.

Ao meditarmos sobre essa leitura, nós, os discípulos de todos os tempos, somos convidados a assumir uma atitude semelhante para com os irmãos que, dia a dia, caminham ao nosso lado.

Com alegria, mergulhemos na narrativa de Lucas:

História de dois filhos e do seu pai

“Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: «Pai, dá-me a parte da herança que me cabe». E o pai dividiu a herança entre ambos. Poucos dias depois, o filho mais novo juntou tudo o que era dele, partiu para um país distante, e por lá esbanjou toda a fortuna, na má vida. Quando já tinha gastado tudo, houve uma grande fome naquela região e ele começou a passar necessidade. Foi pedir trabalho a um homem do lugar, que o mandou guardar porcos nos seus campos. O rapaz queria matar a fome com a vianda que os porcos comiam, mas nem isso lhe davam. Então, refletindo, disse consigo: «Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura e eu aqui a morrer de fome! Vou meter-me ao caminho, vou ter com o meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra o céu e contra ti; já não mereço chamar-me teu filho. Trata-me como um dos teus empregados». Pôs-se a caminho e foi ter com o pai. Quando ainda estava longe, o pai avistou-o e teve compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o e cobriu-o de beijos. O filho começou a dizer: «Pai, pequei contra o céu e contra ti. Já não mereço chamar-me teu filho». Mas o pai disse aos empregados: «Trazei depressa a melhor túnica para lhe vestir; colocai-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Ide buscar o novilho gordo, matai-o, e vamos fazer um banquete. Porque este meu filho estava morto e tornou a viver, estava perdido e foi encontrado». E todos começaram a festejá-lo. O filho mais velho andava no campo. Ao voltar, já perto de casa, ouviu a música e as danças. Chamou um dos criados e perguntou o que era aquilo. O criado respondeu: «O teu irmão voltou e o teu pai matou o novilho gordo porque o recuperou são e salvo». Ele ficou com raiva e não queria entrar. O pai saiu e pôs-se a convencê-lo. Mas ele respondeu ao pai: «Eu trabalho para ti há muitos anos sem nunca desobedecer às tuas ordens e nunca me deste um cabrito sequer para fazer uma festa com os meus amigos. Mas mal chega esse teu filho, que gastou os teus bens com prostitutas, matas para ele o novilho gordo». O pai respondeu-lhe: «Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu. Mas temos que nos alegrar e fazer festa porque este teu irmão estava morto e tornou a viver, estava perdido e foi encontrado”.

Lc 15,11-32

Partida do filho mais jovem

O texto relata a partida do filho mais moço. “Pai, dá-me a parte da herança que me cabe” (Lc 15,12). De saída somos interpelados por essa ação, porque ao pedir a sua parte da herança, o filho rompe com a tradição judaico-cristã em que fora criado, “segundo a lei, o filho mais velho, por ser o primogênito deveria receber uma porção dupla de todos os bens do pai” (Dt 21,17), ficando o restante, um terço no caso, para o filho mais novo.

Entretanto, a herança só poderia ser repartida por ocasião da morte do pai: “Somente no fim de tua vida, no momento da morte, distribuirás a tua herança” (Eclo33,24). Ninguém poderia negar o fato de que o filho mais novo tinha direito à herança do pai: não tinha, porém, direito de exigi-la enquanto seu pai ainda vivesse.

“Assim, a maneira do filho partir é equivalente a desejar a morte de seu pai e, ainda deixar a casa é, portanto, muito mais do que um acontecimento histórico limitado ao tempo e ao lugar. É negar a realidade espiritual de que pertenço a Deus com todo o meu ser. Deixar a casa é viver como se eu ainda não possuísse um lar e precisasse procurar por um”.

NOUWEN, 2008, p.42-43

O filho, exercendo sua liberdade para sair, torna-se insensível à voz do amor, à voz do Pai. Agindo assim, está seguindo outras vozes, que lhe mostram outros caminhos.

A volta do filho mais jovem

“Quando já tinha gastado tudo, houve uma grande fome naquela região e ele começou a passar necessidade” (Lc 15,14).

“O que aconteceu com o filho no país distante? Além de todas as consequências físicas e materiais, quais foram as íntimas consequências do abandono do lar? Toma consciência que está perdido, “quando nenhum dos seus companheiros mostrou o menor interesse por ele,” o filho mais moço percebeu “que estava a caminho da morte (…) um passo a mais o levaria à autodestruição”.

NOUWEN, 2008, p.42-43

Naquele momento crítico, o que fez com que o jovem optasse pela vida, foi a descoberta do seu mais profundo ser. O texto mostra que antes mesmo de reconhecer a sua própria situação, a primeira coisa que o filho fez, foi reconhecer o quanto seu pai é bom. Em seus pensamentos vem a imagem do pai e de sua maneira carinhosa de tratar a todos, os empregados tinham pão em fartura e ele morrendo de fome. Ao olhar para si, se dá conta da miserável situação em que se encontra e sabe que tudo isso aconteceu porque se distanciou do seu pai. Então decide-se: “Vou-me embora, procurar meu Pai” (cf. Lc 15,18).

A volta para casa só acontece quando o filho mais novo se reconhece como filho, apesar de ter estado tão longe e, praticamente, haver perdido tudo o que o ligava à casa do Pai. Para voltar, optou por viver. É o momento da escolha: tendo reconhecido o seu erro, se põe a caminho da casa de seu pai.

“Reivindicando a filiação, porém, o caminho para casa é longo e difícil. Assim começa a entender que receber o perdão exige uma absoluta aceitação para deixar Deus ser Deus e fazer toda a cura, restauração e reparos”.

NOUWEN, 2008, p.52

Tem início a conversa com o mais íntimo do seu ser. É o momento da entrega, de se reconhecer como filho, como ser humano frágil e necessitado, é o momento de se tornar criança. “Em verdade vos digo, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18,3).

O filho mais velho se entristece

O filho mais velho andava no campo. Ao voltar, já perto de casa… Ele ficou com raiva…(cf. Lc 15,25.28).

Aquele homem ficou junto do pai, procurou corresponder às expectativas do pai, foi obediente, viveu de maneira exemplar, mas estava tão perdido quanto o que partiu. Ao optar por ficar em casa, o filho mais velho também se tornou um homem perdido. Externamente fez todas as coisas que um bom filho deve fazer, mas, no íntimo, se afastou bastante de seu pai. O texto questiona, indaga, pergunta: Como é possível uma pessoa fazer escolhas e não as viver de maneira plena, alegre, feliz?

“Aparentemente a vida do filho mais velho era sem defeitos. Mas quando se defronta com a alegria do pai pela volta do filho, surge uma onda de revolta que explode, surge uma pessoa ressentida, orgulhosa, egoísta e má”.

NOUWEN, 2008, p.78

Talvez devamos perguntar sobre o que é mais danoso: A luxúria e a imoralidade presentes no mundo, ou o julgamento e o ressentimento, presentes em muitos que optaram por uma vida reta na presença de Deus.

“Diferentemente de um conto de fadas, a parábola não sugere um final feliz. Ao contrário, deixa-nos face a face com uma das mais difíceis escolhas espirituais: confiar ou não no amor todo misericordioso de Deus”.

NOUWEN, 2008, p.82

A narrativa da parábola não tem a pretensão de separar os bons dos ruins, mas de demonstrar que, somente o Pai, é bom. Ele ama ambos os filhos. O Pai os quer juntos à sua mesa, partilhando de sua alegria e de sua felicidade.

O pai vai ao encontro do filho mais velho e o convida a entrar, dizendo: “Meu filho, tu estás sempre comigo, e tudo que é meu é teu” (cf. Lc 15,31). Nas palavras do pai não há recriminação ou julgamento, apenas a manifestação de sua vontade. Não pode haver pronunciamento mais claro do amor ilimitado do pai pelo filho mais velho. Assim, o amor sem reservas, ilimitado, é oferecido inteiramente e igualmente a ambos os filhos.

O filho mais velho é desafiado a abandonar o orgulho, a rivalidade, o egoísmo, e qualquer outro sentimento negativo que possa nutrir pelo seu irmão. O pai está disponível para amar e perdoar seus filhos. O pai não invade as intimidades de seus filhos, ao contrário, compreende suas qualidades ímpares e suas imperfeições e acolhe ambos com a mesma disposição, o mesmo amor, a mesma alegria. Não existe discriminação, julgamentos ou reserva por parte do pai.

O pai acolhe o filho mais novo

O pai sentia seu filho todos os dias. Provavelmente, por diversas vezes, olhava para a estrada, esperançoso de ver o seu filho voltando para casa. Em seu íntimo tentava imaginar onde e como estaria seu filho, o que estava fazendo, o que estava sentindo seu filho, sua criança que havia partido.

Mas hoje, era um dia diferente ao olhar para a estrada ele vê seu filho caminhando vagarosamente, titubeante, cheio de dúvidas. O pai não se conteve, suas entranhas estremecem, esquece-se de suas fraquezas, de suas debilidades e parte ao encontro do filho. “Estava ainda longe quando o pai o viu e, movido de compaixão, correu-lhe ao encontro, se lançou ao seu pescoço e o beijou” (Lc 15,20). O pai quase cego, reconhece, com os olhos do coração, seu filho ao longe e, quando se aproxima, abraça-o, e o beija.

O pai se compadece de seu filho, demonstra cuidado, dispensa atenção, mostra preocupação, acolhe-o, procura restaurar sua dignidade de filho amado por Deus. Esse é o Pai que Jesus vem nos revelar, um Pai amoroso e misericordioso que a todos acolhe, que padece junto com o sofrimento de seus filhos, que busca ajudá-los a enfrentar com coragem e esperança as agruras desta vida: “No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (Jo 16.33).

O Pai deseja somente que saibam que o amor que buscaram das maneiras mais diversas estava, está e estará sempre à sua espera. O Pai deseja dizer, mais com as mãos do que em palavras: “Você é o meu Filho Amado, sobre você coloco minha bênção” (cf Mc 1,11).

O pai quer comemorar

O encontro com o Pai é sempre motivo de alegria. O pai sempre comemora a volta de seus filhos e não economiza nada, ao contrário, esvazia-se por completo por cada um. A comemoração é com uma festa e um banquete; “Dizei aos convidados que eu já preparei o banquete, meus bois e meus animais cevados estão mortos, tudo está preparado. Vinde às bodas”! (Mt 22, 4).

Chama a atenção, na narrativa, a maneira com que o pai recebe seu filho: Veste-o com a melhor túnica, coloca-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Nessa descrição percebemos a riqueza do amor e da misericórdia do Pai. Na gratuidade do perdão, restitui ao filho mais moço a filiação e a dignidade, perdidas na partida. Libertando-se das experiências humilhantes e da culpa advinda de seus erros, o filho mais jovem compreende que a verdadeira herança não era a posse, mas o amor e a misericórdia do Pai.

Para o pai, somente o perdão não basta, falta devolver-lhe a condição de herdeiro;

“Não somente o pai perdoa sem fazer perguntas e alegremente acolhe seu filho perdido de volta à casa, mas não pode esperar para lhe dar vida nova, vida em abundância. Dá-lhe a melhor veste; um anel, provavelmente de ouro; calça-o com sandálias. O Pai veste seu filho com todos os sinais de liberdade, a liberdade dos filhos de Deus”.

cf. NOUWEN, 2008, p.120-121

Restaurado em sua liberdade e dignidade, partem para a comemoração junto à mesa:

“Não há dúvida de que o pai deseja uma festa suntuosa. Matar o novilho que havia sido cevado para uma ocasião especial mostra o quanto o pai desejava retirar todos os impedimentos e oferecer ao filho uma celebração como nunca tinha havido”.

NOUWEN, 2008, p.122

O pai deseja, ardentemente, comemorar a passagem da morte para a vida. “Vamos celebrar fazendo uma festa, porque este meu filho estava morto e voltou à vida; estava perdido e foi encontrado” (Lc 15,24). Não há outra coisa a fazer quando alguém nasce para uma nova vida, que não seja se alegrar. A resposta do pai, saída da boca de Jesus, evidencia que Deus age para com os pecadores com misericórdia.

A narrativa conduz à percepção de que, em cada um de nós, coexistem os três personagens: ora o filho mais novo e seus conflitos consigo mesmo e com o pai, ora o filho mais velho, com seu orgulho e sua obrigação de obediência ao pai e, ora o pai, que acolhe seus filhos sem questionamentos ou pré-condições.

Olhando para o pai, descrito na parábola, descobrimos três caminhos para exercer uma paternidade verdadeiramente compassiva: pesar, perdão e generosidade. Esses são os caminhos para o crescimento da imagem de Deus, no homem. Como o Pai, tenho de crer que tudo o que o coração humano deseja pode ser encontrado em casa. “Não sabíeis que Eu tenho de estar na casa do meu Pai?” (Lc 2,49).

Mas, e nós, compreendemos o que significa, realmente, perdoar?

Será que significa ceder, sempre, diante daqueles que nos magoam e nos ofendem? Será que significa encolher os ombros e seguir adiante quando nos confrontamos com uma situação que causa morte e sofrimento a nós, ou a outros nossos irmãos? Será que significa “deixar correr” enquanto forem coisas que não nos afetem diretamente? Será que significa pactuar com a injustiça e a opressão? Será que significa tolerar tudo, num silêncio feito de covardia e de conformismo?

Não. O perdão não pode ser confundido com passividade, com alienação, com conformismo, com covardia, com indiferença… O cristão, diante da injustiça e da maldade, não esconde a cabeça na areia, fingindo que não viu nada… O cristão não aceita o pecado e não se cala diante do que está errado; mas não guarda rancor para com o irmão que falhou, nem permite que as falhas derrubem as possibilidades de encontro, de comunhão, de diálogo, de partilha…

Perdoar não significa isolar-se num silêncio ofendido, ou omitir-se das responsabilidades na construção de um mundo novo e melhor; mas, significa estar sempre disposto a ir ao encontro, a estender a mão, a recomeçar o diálogo, a dar outra oportunidade.

O perdão é o sinal mais visível do amor do Pai, que Jesus quis revelar em toda a sua vida. Não há passagem do Evangelho que possa ser subtraída a este imperativo do amor que chega até o perdão. Até nos momentos derradeiros e mais exigentes da sua existência terrena, ao ser pregado na cruz, Jesus tem palavras de perdão: “Pai perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem” (Lc 23,34).

A misericórdia é esta ação concreta do amor, que, perdoando transforma e muda a vida. Deus é misericordioso, a sua misericórdia é eterna, de geração em geração, abraça cada pessoa que confia nele e transforma a vida.

Aqui, no Areópago, temos uma resenha publicada pelo nosso parceiro Diácono Marcelo Reis. Nela você poderá conhecer um pouco mais sobre a obra literária de Henry Nouwen – “A Volta do Filho Pródigo: a história de um retorno para casa”. Essa obra baseia suas narrativas a partir da pintura magistral – O Retorno do Filho Pródigo, de Rembrandt Van Rijn.

Boa leitura!

Referências
BÍBLIA de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.
BÍBLIA do Peregrino. São Paulo: Paulus, 3ª edição, 2017.
FABRIS, Rinaldo, MAGGIONI, Bruno. Os Evangelhos II. São Paulo: Edições Loyola, 1992.
FRANCISCO. Misericordiae Vultus. São Paulo: Paulus, 2015.
NOUWEN, Henry J. M. A Volta do Filho Pródigo: a história de um retorno para casa. São Paulo: Paulinas, 2008.

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