A Volta do Filho Pródigo

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Areopago-Marcelo-Filho-Prodigo

O presente material baseia-se na leitura do livro “A volta do Filho Pródigo” de Henri Nouwen que se sentiu profundamente tocado quando teve contato com a obra de Rembrandt.

A obra em questão foi concluída no século XVII ( 1662 – 1669 ) e atualmente está guardada no Museu Hermitage na cidade de São Petersburgo, Rússia. Esta obra retrata a Parábola do Filho Pródigo, do Evangelho de Lucas.

“Um homem tinha dois filhos. O mais jovem disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me cabe’. E o pai dividiu os bens entre eles. Poucos dias depois, ajuntando todos os seus haveres, o filho mais jovem partiu para uma região longínqua e ali dissipou sua herança numa vida devassa.
E gastou tudo. Sobreveio àquela região uma grande fome e ele começou a passar privações. Foi, então, empregar-se com um dos homens daquela região, que o mandou para seus campos cuidar dos porcos. Ele queria matar a fome com as bolotas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. E caindo em si, disse: ‘Quantos empregados de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome! Vou-me embora, procurar o meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. Trata-me como um dos teus empregados’. Partiu, então, e foi ao encontro de seu pai.

Ele estava ainda ao longe, quando seu pai viu-o, encheu-se de compaixão, correu e lançou-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos. O filho, então, disse-lhe: ‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho’. Mas o pai disse aos seus servos: ‘Ide depressa, trazei a melhor túnica e revesti-o com ela, ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei o novilho cevado e matai-o; comamos e festejemos, pois este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi reencontrado!’ E começaram a festejar.

Seu filho mais velho estava no campo. Quando voltava, já perto de casa ouviu músicas e danças. Chamando um servo, perguntou-lhe o que estava acontecendo. Este lhe disse: ‘É teu irmão que voltou e teu pai matou o novilho cevado, porque o recuperou com saúde’. Então ele ficou com muita raiva e não queria entrar. Seu pai saiu para suplicar-lhe. Ele, porém, respondeu a seu pai: ‘Há tantos anos que te sirvo, e jamais transgredi um só dos teus mandamentos, e nunca me deste um cabrito para festejar com meus amigos. Contudo, veio esse teu filho, que devorou teus bens com prostitutas, e para ele matas o novilho cevado!’
Mas o pai lhe disse: ‘Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas era preciso que festejássemos e nos alegrássemos, pois esse teu irmão estava morto e tornou a viver; ele estava perdido e foi reencontrado!’”

Lucas 15, 11-32

Esta parábola é a terceira e última de uma trilogia sobre a redenção, vindo após a Parábola da Ovelha Perdida e a Parábola da Dracma Perdida.

O Encontro com uma pintura

Confesso, que assim como o autor, sempre me senti muito tocado por esta parábola bem como com esta imagem do Filho Pródigo. É lógico que nunca tive contato com o original da imagem, obra guardada na Rússia, mas suas reproduções espalhadas por vários lugares e por encontros, retiros e acampamentos que já participei, cujo tema nos remetia a esta parábola.

Fazendo uma reflexão mais profunda sobre a parábola e sobre a obra, dependendo do momento em que estou passando, me coloco no lugar de um dos personagens, seja para ser perdoado, seja para perdoar bem como para questionar e julgar, o tempo e a condição que estou no momento me coloca no lugar de um deles.

O Filho mais Moço

Como somos teimosos quando atingimos uma certa maturidade, nos achamos auto suficientes e queremos ganhar o mundo assim como ele é, as vezes tentando muda-lo, mas as vezes nos contentando com o que ele tem a oferecer, sejam coisas boas ou ruins, o importante é conquista-lo.

Pedir ao pai a “parte” da herança é o mesmo que pedir a independência, se sentir livre para caminhar com as próprias pernas, assim fez, o personagem da parábola e assim todos nós, digo eu, fazemos quando achamos que é hora e partir.

A partida é carregada de desejos, expectativas e ambições, pois vamos para longe, de preferência para um lugar onde ninguém nos conheça para que ali possamos viver uma nova vida, ainda desconhecida.

Os dissabores com certeza não demoram a aparecer, pois enquanto você é “alguém” neste meio, você é valorizado, é visto por todos, todos querem ficar perto e querem aquilo que você tem para oferecer, porém tudo que é material tem vida curta, tem prazo de validade, estraga e não serve mais, assim é nossa vida de extravagâncias, quando passamos do “prazo”, acabam nossos recursos, estamos fora da moda, ninguém mais te vê, ninguém mais lhe quer e você fica entregue a própria sorte, momento de recomeçar da forma que é possível.

Assim foi com o filho pródigo e assim é com todos nós, mas encontramos barreiras, desafios intransponíveis, literalmente “comemos o pão que o diabo amassou com o rabo”. Momento de reconhecer e dar valor ao que tínhamos, momento de relembrar as oportunidades que passamos ao lado dos nossos e fazer uma conversão de volta para casa.

Mas ficamos na dúvida, como serei recebido, será que serei recebido e como me julgarão? Não importa, o importante é voltar e pedir perdão e recomeçar uma nova vida, da forma que me oferecerem, da maneira que for possível, afinal um dia abandonei tudo para viver aventuras, então é baixar a cabeça e aceitar, mesmo que não me aceitem mais como “filho”, no caso da parábola.

O problema todo neste retornar, é como retornar, pois o mundo nos castiga, nos maltrata, nos tira tudo inclusive a dignidade e será desta maneira que iremos nos apresentar para quem nos acolher, se é que seremos acolhidos. Estaremos como desfigurados. Mas é reconhecer o erro, mostrar que não somos mais do que aquilo que está sendo visto e pedir uma nova chance.

“Pai pequei contra o céu e contra ti”, difícil reconhecer, mas necessário. Quando a saímos de casa, mas pedimos a parte da herança é como se desejássemos a morte do pai, e de forma antecipada, já queremos a divisão dos bens, isto ao retornar vem a tona em nossa memória pois certamente iremos encontra-lo abatido pelo abandono mas feliz pelo retorno.

“Já não sou digno de ser chamado de seu filho”, que belo ato penitencial temos aqui, reconhecer que um dia viramos as costas para o altar de Deus, ou para o Pai que sempre nos acolhe para nos perdoar. Se achar indigno de ser chamado de filho, é estar profundamente mergulhado no pecado, reconhecer os erros, mas pedir uma segunda chance. É o momento em que precisamos de um abraço, falarei sobre este abraço mais adiante.
A volta do filho pródigo o tira da escuridão para coloca-lo na luz.
Em muitas ocasiões eu sou este filho pródigo…

O Filho mais Velho

Grande responsabilidade esta nossa e muito bem refletida pelo autor, pois somos aquele que nunca podemos desapontar nossos pais, não podemos decepciona-los e devemos estar com eles a todo momento. Este é um peso muito grande, pois vemos todos indo e o mais velho ficando.

O mais velho é aquele que é considerado o responsável de todos, aquele que ninguém poderá questiona-lo e todos devem ouvi-lo, mas basta apenas um deslize na vida, para fazerem dele, um ser de uma vida de deslizes, infelizmente é uma realidade não só do passado mas do mundo contemporâneo.

O filho mais velho foi aquele que sempre esteve ali, nos momentos mais difíceis não abandonou o pai, sempre foi atencioso, mas sem uma atenção sobre ele mesmo, se o pai confia nele então não é necessário uma atenção especial, mas aí é que está o problema, pois o filho mais velho quando se vê em uma situação em que ele nunca foi valorizado, o questionamento, a murmuração e a falta de humor é aparente, pois para ele nunca foi e nunca será dispensado um feliz retorno, pois ele somente retornar do trabalho de seus afazerem e nunca retornará de uma partida efetivamente ocorrida, como com o filho mais jovem.

O filho mais velho em sua maioria é carente, precisa de afeto, atenção e de alguém que o veja também como um filho privilegiado, este filho mais velho é aquele que carece de elogios, que necessita ser valorizado e quando se depara com a cena da obra, percebe que não é nada disto e tem em sua mente a necessidade de receber tudo isto.

O filho mais velho também precisa de abraço

Na obra ele aparece com as mãos entrelaçadas, ou seja, não existe uma acolhida para o irmão que estava perdido, que estava morto e se reencontrou, ele tem uma posição de questionador, de julgador, de quem está aguardando uma oportunidade para “tripudiar” sobre o irmão mais novo, pois o mais novo aproveitou a vida, gastou tudo e agora volta arrependido. O irmão mais velho é aquele que julga os erros dos outros, mas no fundo é um coitado que gostaria de ser acolhido como verdadeiramente filho do pai.

Em muitas ocasiões sou este filho mais velho…

O Pai

Que acolhida !!!
Que abraço !!!
Que manto !!!
Que olhar !!!

Tudo isto e muito mais que quem se arrepende e precisa ser acolhido quer, uma acolhida verdadeira. O pai não mediu esforços, esqueceu tudo e reconduziu o filho mais novo para o seio da família. Mandou matar o melhor animal, colocar o melhor manto sobre suas costas e colocar nele o melhor anel. Alguns destes itens não são retratados na obra, mas os são na parábola, mas enfim isto não importa o que importa é acolhida realizada, o resto são detalhes, periferias.

Se bem percebermos neste momento da acolhida um lindo abraço é dado ao filho, que de joelhos o recebe, uma cena como estas no momento contemporâneo seria no mínimo uma humilhação do pai para com o filho, mas para um cristão e que conhece esta passagem e seu verdadeiro sentido teológico, nos trás de forma verdadeira o que é um arrependimento e o que um “perdoar” de verdade, esquecendo todo passando, fazendo como um “tudo que era velho passou, morreu, não existe mais”, agora é cabeça para frente rumo a uma nova vida.

É este o desejo do pai, libertar seu filho das roupas velhas e surradas e dar-lhe um novo manto, tirar suas sandálias desgastadas e calça-lo de novas sandálias, retribuindo ao filho mais novo seu sinal de despojamento, pois se bem percebermos na obra um dos pés já está sem a sandália, despojamento total do filho, ele merece e o pai quer lhe dar novas sandálias.

Se bem percebermos na obra, uma das mãos tem aspecto feminino e a outra aspecto masculino, vejo aqui um pai com traços maternais, um pai que acolhe como uma mãe acolhe, com ternura com jeito de mulher acolhedora, assim como Maria acolheu Jesus, este pai quer acolher seu filho com traços maternos, esta mão materna está na direção do pé que esta descalço, nos remetendo ao despojamento do filho e uma mãe que dá tudo de si para gerar uma nova vida, um esvaziamento total para que um novo ser preencha este vazio. O pai estava vazio de si com a ausência do filho.

A outra mão com traços masculinos, está na direção do pé que ainda está com sandálias, porém bem surradas, se observamos aqui temos uma mão paterna, mão que transmite segurança a seus filhos, mão surrada, calejada pelo trabalho e pela busca do pão de cada dia, mão que serve de exemplo para ambos os filhos, pois tudo foi conquistado graças a esta mão masculina, mão que trabalha, que se doa, que recebe e que acolhe.

O manto do pai, é semelhante ao manto do filho mais velho e é um manto semelhante a este que o pai quer para seu filho mais novo, não está na obra mas está relatado na parábola, é um manto de quem tem posses, de quem tem poder sobre a sociedade em que está habitado.

Na sociedade da época poucos tinham um manto como este.

Observando bem, tanto o pai como o filho estão na luz, ao contrário do filho mais velho que está, em parte, na escuridão.

Por fim, o olhar do pai é um olhar de quem sofreu a ausência do filho, um olhar compadecido, de quem está disposto a perdoar, de quem quer fazer festa para o filho que estava morto, que o mundo o tinha matado, mas que agora estava voltando à vida, que alegria para este pai !!

Ainda na figura do pai, ele no momento de acolher o filho, faz questão de chamar o filho mais velho para participar da festa e enfatiza para ele “tudo que meu é seu”, ou seja, nem mais e nem menos para ninguém todos são iguais, não existe diferenças entre os filhos, independente do que fizeram ou deixaram de fazer, este pai tem amor para todos e os quer vê-los bem.

Em muitas ocasiões sou este pai…

Conclusão

Não dá para terminar a leitura de um livro como este, da mesma maneira como comecei, verdadeiramente a leitura me fez refletir sobre muitas questões, comparando-a com obra estudada. Diversas vezes a vi e a comparei com o texto. Confesso que nos últimos dias é o que mais tenho feito, leitura detalhada do texto e comparando-o com a obra, também de forma detalhada.

Dá para perceber os traços de Deus em cada detalhe que nos permite também ser tocado por Ele, fazendo de nós uma obra nova, digo eu, não dá para ser insensível a isto, a parábola é profunda, a obra e ainda mais e o livro é a soma de tudo isto, de forma esmiuçada, que oportunidade “sem preço”, foi ter contato com este livro.

Assim como Deus faz nos corações arrependidos, nos corações que perdoam e sobre tudo nos corações que julgam, peço que Ele também faça no meu coração e no de todos aqueles que me cercam e que todos nós possamos experimentar um pouco de cada personagem em questão.

Obrigado ao Filho Pródigo, pelo seu ato de coragem.
Obrigado ao Filho mais velho, por entender sua missão dentro da família.
Obrigado ao Pai, que perdoou, que acolheu e fez festa.

Referencia
Nouwen, Henri J. M.. A Volta do Filho Pródigo. São Paulo: Edições Paulinas,1997.
Bíblia de Jerusalém

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Um comentário em “A Volta do Filho Pródigo”

E uma obra linda ; gosto muito dessa parábola; talvez porque tenho filhos ; e a gente mãe sempre quer que seu filho se arrependa do que está fazendo e volte a fazer o que é o certo

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