Comunhão sem Eucaristia

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Missa festiva: eu, a esposa e filha assentados no terceiro banco.
Igreja vazia. Chegamos meia hora antes.

Um mau cheiro exalava pelos poros de uma pessoa sentada no primeiro banco: um mendigo em trajes de inverno contrastava com o calorão! Pensei “O cheiro é insuportável, meu Jesus. Sei que é meu irmão!”

Veio-me à mente, uma parte da biografia de São João Maria Vianey, o Cura d’Ars, em que ele ficava de 14 a 16 horas, no confessionário. Através da divisão entre o confidente e o confessor, este percebia o hálito não tanto de hortelã, além de muitas vezes, sentir o desagradável cheiro das pessoas simples e pobres que não tinham condições de higiene corporal. Fatigados, buscavam o alívio espiritual no sacramento da confissão. Ouviam atentamente os conselhos e ponderações do Cura (Padre) na pequena cidade de Ars – o santo padroeiro dos párocos (sacerdotes, padres). Aquele que, a muito custo, chegou a ser ordenado. Sentia muita dificuldade com os estudos, mormente com Latim, Teologia e Filosofia. Exemplo de dedicação ao próximo – vocação ao sacerdócio – e também de perseverança em realizar o seu sublime sonho.

De novo, meu pensamento e olhar recaíram sobre o pobre mendigo. Naquele calorão, cabelos claros, encaracolados e barba desgrenhados, rosto castigado pelo sol, expressão cansada e desolada. Ao mesmo tempo, observava o cálice e a patena banhados de ouro no altar. No instante da consagração em que há a transubstanciação do pão e vinho em corpo e sangue de Jesus, fiquei a imaginar o Cristo sacramentado, alimento ao espírito dos fiéis que ao receber a hóstia consagrada sob a proclamação do ministro “Corpo de Cristo!” declaram Amém.

Jesus no altar, Jesus na partícula do pão consagrado é o mesmo que esclareceu “tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes” (Mateus 25, 35). Sim, aquele molambo humano no meio do povo bem vestido e saudável, dizendo amém, era também o Jesus que todos buscamos. Na pessoa daquele mendigo imundo, em cujos poros exalavam o fedor da chaga social. Não agradava, mas a incômoda presença era o próprio Cristo necessitado.

Na homilia, o sacerdote, referindo-se à carta paulina aos Colossenses (Cl. 3, 13-14) explicou o sentido de “Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente (…). “Mas, acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição”. Além de tolerar-vos, alguns entendem como apoiar-vos.

O odor daquele fiel sem banho, cada vez mais era difícil de tolerar! Apoiá-lo em quê!? Ele mesmo nada pedia. Apenas devia estar ali, para recordar os bons momentos do distante passado como este escriba viveu o seu tempo na CJC – Comunidade de Jovens Cristãos. Por aí viajava o meu pensamento… e dessa viagem não conseguia desembarcar.

Na oração “o pão nosso de cada dia nos dai hoje” sucumbi. Falei à esposa:
– Vou comprar algo na padaria para ele.
– Deixa pra depois, você não vai conseguir comungar!
– Não! Depois pode não dar tempo!

A hora era aquela e aquele o local.

Lógico que fiquei um pouco incomodado, participar da missa e não comungar era algo que jamais imaginara. Ao mesmo tempo refleti, isso pode ser farisaísmo da minha parte (observância rígida da lei).
Apaguei o incômodo farisaico. Atendi ao Espírito que me orientava à atitude, pequeníssima ação, mas imprescindível à minha consciência.
Saí rapidamente.

O propósito “compro lanche pronto, é rápido”. Assim fiz: esfihas, baguetinhas de parmesão, bolinhos de chuva e uma garrafinha de água. Com as duas sacolinhas adentrei a Igreja. Cheguei perto do banco onde Jesus em pessoa estava, bati no ombro dele e disse: É para o senhor comer e beber! Ele me olhou, atordoado, rapidamente e agradeceu com um aberto sorriso e olhos brilhantes. De repente, vejo-o juntar e elevar as mãos em sinal de gratidão ao Senhor!

O padre solicitou às famílias que se juntassem. Era a missa da Sagrada Família. Minha esposa disse “vamos ficar perto dele”. Não precisou. Ele se aproximou, ficou ao meu lado. “Abençoa Senhor, as famílias, amém. Abençoa Senhor a minha também”. As mãos levantadas em forma de abraço de todos era uma bênção: unção dos céus! Uma alegria. Os fiéis cantavam e alguns dançavam. Uma grande festa!

Ele se virou para nós e disse à minha esposa “Eu tenho duas filhas em Recife” e abriu um tímido sorriso de José.

Severino, 53 anos, ex-presidiário, três anos num presídio lá em Andradina (Minha cidade natal) sabe tocar violão, guitarra e canta também. Em minutos revelou sua biografia…

Demos o abraço e desejamos A Paz de Cristo!

A comunhão, pela primeira vez na vida, não se deu na partícula do pão consagrado. Senti o doce perfume do Senhor pairando no ar. Um sinal de graça.

Foi bastante o pão dado ao irmão desconhecido a Eucaristia daquele dia. A alegria brotou imensurável. Triste, tocante, verdadeiro, cruel: viver da família desgarrado.

Família é Fonte de Amor e Vida, título de um programa, ao vivo, na Rádio 9 de Julho há quatro anos no ar. A minha, a sua, a de todos é ou deveria ser também sagrada como a Família de Nazaré.

Reflitamos…
E o nosso papel nesta sociedade que tanto fere a consciência cristã?

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43 respostas em “Comunhão sem Eucaristia”

Querido Irineu, parabéns!
Belíssimo texto de um testemunho vivo num momento sublime da verdadeira eucaristia. Você é inspirado pelo Espírito Santo e um grande exemplo para todos nós.

Excelente atitude Sr Irineu, não me surpreendi mas sim me emocionei pois sei quão grande é o seu coração e sua espontaniedade em ajudar o próximo. Parabéns amigo, Deus te abençoe.

Uffa! Narrativa,texto, eucarística e ação… -aqui podemos falar (muito), porém o Cristo que te visitou naquele momento e de repente como nunca dantes não somos capazes definir com exatidão. Sou feliz por ter esse homem na lista dos meus irmãos; obg Irineu.

Como é difícil reconhecer o Cristo, no irmão que está à margem da sociedade…..Teu gesto, sem dúvida, foi de alguém que se sentiu tocado pelo Espírito Santo.

Amigo Irineu, a sua história, seu exemplo nos mostram situações que acontecem na vida, as vezes acolhidas, as vezes rechaçadas por não conhecer as bem aventuranças ou por egoísmo, mas como fizeste a compaixão falou mais alto é o Cristo que haje e não deixa ninguém acomodado, dá a todos a possibilidade de servir seu próximo, a Deus. Obrigado por compartilhar um belo gesto de amor.

Amigo Irineu, como sempre me encanta!
Talvez tenha sido essa a sua mais perfeita comunhão!
A atitude do sofredor de rua, se colocando ao seu lado para agradecer e abençoar sua família, talvez só conseguida por ter adquirido forças pelo lanche , me fez lembrar de dois acontecimentos …num domingo, sentada ao lado de um senhor que também cheirava mal, na igreja pequena, vi uma alma tão pura (como de costume o padre e o ministro vai até os fiéis levar a Eucaristia)
Qdo lhe foi oferecida , ele olhou e disse. Não posso, não sou digno!! Pensei Senhor eu não sou digna também. mas comunguei. O outro acontecimento ..no final de uma missa, chegou um senhor muito simples, que inibido disse- me… moça para quem posso entregar essa oferta? Eu moro na rua, mas consegui emprego, e já recebi meu primeiro salário, quero entregar e agradecer a Deus! Estava com uma nota de dez reais!! Quase morri com a grandeza daquele coração!! Que Deus me conceda a graça de ter atitudes como a sua Irineu, e como a dos dois sofredores de rua que me deram grande lição de vida
Deus o abençoe!

Caríssimo Irineu, como sempre vc nos surpreende com seus relatos e de vez enquanto nos remete aos idos de Andradina nos nossos bons tempos de CJC.. Lá foi nossos primeiros contatos com a vida em comunidade e onde pudemos de algum modo aprender a ser cidadãos de responsabilidade.

Excelentes o texto e a experiência vivida.
Outra pessoa, sem a sua sensibilidade e olhar cristãos, veria apenas um mendigo sujo e mal cheiroso, e um. “estorvo à oração “…

Maravilhosa narrativa Sr. Irineu. Nós devemos viver o cristo ressucitado todos os dias.Observando e ajudando os nossos irmãos necessitados.Gde abraço.

Próprio de quem vive a eucaristia na sua plenitude. Dizer algo sem vivenciar é ser um ator sem experiência real. Meu amigo IU não é um ator mas sim um testemunho da fé que vive e professa. Mensurar algo com a régua divina é buscar a medida exata de qualquer dimensão. Parabéns amigo Irineu que Deus o ilumine hoje é sempre amém. Saúde acima de tudo.

Senti tanta emoção que o meu estômago ficou rígido só de viver sua história. Agradecida por partilhar. Temos que ter coragem para viver o evangelho e podemos começar por aí imaginando Jesus na outra pessoa.

Penso que a tradição e o ritual eucarístico nada significa sem atitude. O que ocorreu foi a própria comunhão, na prática, com Jesus Cristo: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.” Hoje em dia é difícil termos atitudes parecidas, seja pelo medo, receio, preconceito, etc., só quando Deus toca em nossos corações é que todo esse sentimento desaparece e, a partir daí, nada e ninguém nos faz mudar de ideia. Texto muito bom para reflexão. Parabéns!

Que texto comovente. A comunhão se deu entre sua família, esse homem e Jesus Cristo de forma real. E por que não dizer: em espécie!
Obrigada pela partilha e por nos lembrar, mais uma vez, para que somos chamados neste Reino!

Ressalto a fina sensibilidade do Autor para captar o sublime dentro de momentos comuns.
Este é o Irineu que conhecemos de longa data e que, tal como vinho, a cada dia se aprimora.

Em que lugar da igreja devemos nos sentar para a celebração da missa? A oração do Pai Nosso faz nós pensar para nos prepararmos para a eucaristia, venha nos o vosso reino, seja feita a vossa vontade, não são só palavras, são atitudes. Muito bom este texto, mais uma lição de vida. Obrigada

Em que lugar da igreja devemos nos sentar para a celebração da missa? A oração do Pai Nosso faz nós pensar para nos prepararmos para a eucaristia, venha nos o vosso reino, seja feita a vossa vontade, não são só palavras, são atitudes. Muito bom este texto, mais uma lição de vida. Obrigada

Maravilhosa narrativa,e exemplar atitude. Mais uma mostra do Amai vós uns aos outros como vós amei.
Parabéns,meu amigo IRINEU

Quando elevamos nossa mente e coração ao nosso Deus, ficamos atentos a caridade. É um dom que
O Senhor nos dá…linda lição a sua meu querido amigo! Um abraço carinhoso…💖

Uma história carregada de amor ao próximo. Exemplo a ser refletido e praticado, a diferenca e q faz a diferença, as vezes nao agimos na sabedoria de Deus,
nesse caso o coração e tocado, para caminharmos nos ensinamentos vivos a nossa disposição. Parabéns amigo, mais uma vez sinto o gosto da renovação do amor. Abraços

Quem mais teria a coragem de tamanha atitude. Entrega e vivência total do Evangelho. Deus continue abençoando a vossa vida.

Quem mais teria a coragem de tamanha atitude. Entrega e vivência total do Evangelho. Que o Espírito Santo incuta em nossos corações o dom da Caridade, hoje, amanhã e sempre.

Me ative ao texto, ansiosa por saber o desfecho. Fiquei emocionada em imaginar a proximidade de Jesus, naquele momento. E, vc não perdeu a oportunidade em ratificar sua fé Cristã com seu ato de caridade.
Deus continue abençoando sua vida.

Lindo texto , a família que nos sustenta , nos alegra , nos faz seguir em frente , não só a minha como a família de todos que aqui estão , só temos a Agradecer todos os dias,

Uma história belíssima …e que ação emocionante, e que já aconteceu comigo… infelizmente , não tive sua atitude, mas guardarei para mim e para os meus , esse gesto belíssimo 🙌🙌🙌🙌

História comovente, escrita com sentimento, detalhando o encontro com Jesus eucarístico na pessoa de um mendigo. Quem conhece o Irineu, reconhece nele o comportamento exemplar do verdadeiro cristão.

Uma vovó que a vida toda foi missa, exceto um domingo que resolveu levar para o hospital um jovem que se acidentou no trânsito. Quanto morreu leu no seu caderno celestial que apenas uma única vez tinha vivido a Santa Missa… Qual seria? Pois é assim, esquecemos do amor e queremos compensar com tradição ao em vez de reconhecemos a imagem e semelhança de Deus no próximo.

Irineu, como sempre uma lição para todos nós do verdadeiro sentido da vida! Jesus, realmente está na eucaristia, mas também está no mendigo, na criança abusada, no idoso abandonado, no jovem aliciado pelo crime, etc..Lembrei-me, quando Jesus foi questionado pelos fariseus em fazer milagres aos sábados. A resposta todos sabem. Parabéns!

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