Dies Domini

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Areopago-Bruno-Dies-Domini

Por tradição apostólica, que nasceu do próprio dia da Ressurreição de Cristo, a Igreja celebra o mistério pascal todos os oito dias, no dia que bem se denomina dia do Senhor ou domingo. Neste dia devem os fiéis reunir-se para participarem na Eucaristia e ouvirem a palavra de Deus, e assim recordarem a Paixão, Ressurreição e glória do Senhor Jesus e darem graças a Deus que os «regenerou para uma esperança viva pela Ressurreição de Jesus Cristo de entre os mortos» (1Pd 1,3). O domingo é, pois, o principal dia de festa a propor e inculcar no espírito dos fiéis; seja também o dia da alegria e do repouso. Não deve ser sacrificado a outras celebrações que não sejam de máxima importância, porque o domingo é o fundamento e o centro de todo o ano litúrgico.

Sacrossanctum Concilium, 106

É assim que Paulo VI, através da Sacrossanctum Concilium, atualiza o valor do domingo, o dia do Senhor. Dia este definido desde os tempos apostólicos, quando o sábado deu lugar ao domingo como dia santo, sobretudo pelo mistério pascal de Cristo. De fato, a ressurreição do Senhor é um acontecimento que abarca todo o Novo Testamento e possui em si o sentido único e substancial à fé cristã: “A ressurreição de Jesus é o dado primordial sobre o qual se apoia a fé cristã” (cf. 1Cor 15,14).

“Não tenhais medo de dar o vosso tempo a Cristo! (…) O tempo dado a Cristo, nunca é tempo perdido, mas tempo conquistado para a profunda humanização das nossas relações e da nossa vida.” É o que incentiva João Paulo II considerando que é dever de todo cristão “dar” o domingo a Deus. O Papa continua: “(o domingo) é a Páscoa da semana, na qual se celebra a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, o cumprimento n’Ele da primeira criação e o início da « nova criação ». É o dia da evocação adorante e grata do primeiro dia do mundo e, ao mesmo tempo, da prefiguração, vivida na esperança, do « último dia », quando Cristo vier na glória e renovar todas as coisas” (Dies Domini 1).

Com o tempo a compreensão do domingo mudou profundamente, visto hoje muito mais como dia de descanso e de dedicação à interesses outros. Sim, o domingo é também um dia de vivência familiar e muito mais. No entanto – e em primeiro lugar – é um tempo de encontro com Deus. O Papa pede para que os cristãos não confundam o domingo como dia de esporte e lazer, porém que lembrem, antes de tudo, que é o dia do Senhor. Dia que traz em si o cerne da fé cristã: paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo.

Com o advento Jesus Cristo – acentuando a sua ressurreição acontecida em dia de domingo – ocorre a troca gradativa do sábado, como dia sagrado, para o domingo. O sábado tem a sua história particular configurada no Antigo Testamento; é dia sagrado para os judeus, quando se reúnem nas sinagogas para as práticas religiosas. O apóstolo Paulo e alguns dos outros apóstolos continuaram a frequentar as sinagogas, mas aos poucos passaram a diferenciar os dois dias, sobretudo para dar a entender aos cristãos que chegavam do judaísmo os distintos sentidos de ambos. Assim, o sábado é guardado pelos judeus e o domingo pelos cristãos. A simbologia do sábado, como último dia (reservado ao Senhor) ainda se torna válido ao domingo quando este é considerado como o “oitavo dia”, aquele que dá início ao tempo e o finaliza [escatologia].

Essas são algumas das razões pelas quais o domingo é chamado a ser o Dia do Senhor, e não o dia dos homens.

Esse dia também é considerado o dia da Igreja. A paróquia, comunidade eucarística, deve incentivar a participação dos fieis na celebração, evidenciando a unidade da assembleia no domingo e realizando uma espécie de exercício, no qual saboreamos antecipadamente a alegria dos novos céus e uma nova terra (o já e o ainda não). Visto de outra maneira, é de domingo a domingo que a Igreja avança para o último dia.

A Missa é a atualização do mistério salvífico de Cristo. É um encontro, pessoal e comunitário, com o Ressuscitado na sua própria Palavra e num banquete por Ele mesmo preparado. Este encontro deve ser organizado pela paróquia e também pelos fiéis, a fim de que os participantes possam ser cativados e envolvidos pelo mistério. Afinal, este evento é o cerne de todo o domingo. Ao final, os fiéis voltam – fortalecidos – para o seu cotidiano, com a missão de levar o kerigma a toda criatura e impulsionados à prática da caridade: “ite, missa est”.

Por ser considerado o dia do Senhor, o domingo traz um duplo sentido aos cristãos: a recordação de que Deus é bom e fez boa todas as coisas, por isso é um dia de alegria; e, ao mesmo tempo, um dia de descanso, de um repouso necessário, para que todo o gênero humano se volte à contemplação do divino e da consciência de que tudo é de Deus.

Obviamente, Jesus Cristo não está condicionado ao domingo ou ao tempo, pelo contrário, Ele é Senhor do tempo; é o princípio e o fim de tudo. Mas coube à Igreja a escolha de um momento propício para o encontro dos homens com Deus, um tempo reservado, repleto de sentido. O domingo é justamente este momento. Um tempo de reunir o povo de Deus para celebrar as maravilhas do Senhor, ato este totalmente relevante à vida do homem de hoje e de sempre. Dessa forma, é de grande importância que cada fiel se convença de que não pode viver a sua fé, na plena participação da comunidade cristã, sem tomar parte regularmente na assembleia eucarística dominical (Dies Domini 81).

Referências:
Dies Domini, Carta Apostólica, João Paulo II (http://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/apost_letters/1998/documents/hf_jp-ii_apl_05071998_dies-domini.html)
Sacrosanctum Concilium, Constituição Conciliar, Paulo VI (http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19631204_sacrosanctum-concilium_po.html)

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