Profetismo (Pt 2)

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Duas mulheres protagonistas na história bíblica

Você provavelmente já sabe que as mulheres estão presentes nas histórias sobre a criação do mundo, a formação do povo de Israel e sua preservação de geração em geração, mas; você sabia que a participação delas foi decisiva na conquista da terra prometida, no estabelecimento do Reino de Israel, no período de exílio e na vida de Jesus, em seu ministério, em sua morte e ressurreição? A mulher representa autoridade e liderança na vasta linha do tempo de eventos importantes oferecida pela Bíblia.
Eva não representa apenas a tentação do homem; Sara, Rebeca, Raquel e Lia foram mais do que ajudantes dos seus maridos, e a presença da juíza Débora foi importante para o exército de Israel (Juízes 4,4-5). Existem cinco profetisas na Bíblia Hebraica: Débora, Miriam (Êxodo 15,20), Hulda (2 Reis 22,14; 2Cr 34,21-28), Noadias (Neemias 6,14) e uma mulher anônima (Isaías 8,3). Você sabia que as mulheres participaram da reconstrução dos muros de Jerusalém (Neemias 3,12), elas construíram cidades (1 Crônicas 7,24); estiveram presentes nas festas judaicas (Deuteronômio 12,12) e nos sacrifícios (Deuteronômio 12,18)?

Neste artigo, vamos falar mais sobre os fatos e nomes de duas mulheres que deixaram sua marca na história e que talvez tenham passado despercebidas.

Débora, a única juíza de Israel

O Século XIII AEC (antes da era comum) é basicamente demarcado pela atuação de Juízes, (seus atos estão narrados no livro de Juízes) ou seja, líderes carismáticos que além de resolverem questões jurídicas entre os habitantes das tribos, tinha, também, a função de líderes em épocas de guerras e invasões por parte de seus inimigos.

O livro de Juízes traz diversos relatos dessas ações, que seguem um círculo vicioso: o povo fazia o que era mau aos olhos de Adonai , Adonai incita os inimigos de Israel a invadirem ou fazerem guerra contra eles, o povo se arrepende, clama a Adonai, este inspira um juiz, que lidera o povo contra o inimigo e o vence. Este círculo se repete inúmeras vezes.

Apesar de a Bíblia, como um todo, ter um viés marcadamente patriarcal, e escrita, em sua grande parte, por homens, estes não puderam esconder a importância de certas mulheres, que tiveram atuação decisiva na história da salvação.

Uma delas é a juíza Débora, cuja ação é relatada nos capítulos 4-5 do livro de Juízes.

A figura de Débora é singular no AT: profetisa (Jz 4,4), embora não se relate como ela adquiriu o profetismo; juíza “tinha a sua sede à sombra da palmeira de Débora…” (Jz 4,5), daqui se denota a importância dela perante o povo, pois a palmeira (ou tamareira) levava seu nome. Guerreira, ou um título melhor seria líder militar (4,6-9), mas sem perder a ternura, pois é uma poetisa também (5) e Mãe de Israel (5,7), ou seja, uma matriarca como Eva, Sara, Rebeca, Lia, Raquel. São cinco qualidades, ou cinco atributos para uma mulher, em que os redatores, mesmo em tempos posteriores aos fatos, não puderam esconder ou disfarçar.

O poder e respeito de que Débora dispunha era tamanho, pois diante da séria ameaça do poderoso exército canaanita que “tinha novecentos carros de ferro e tinha oprimido duramente os israelitas durante vinte anos.” (Jz 4,3b); ela “mandou chamar Barac…” (Jz 4,6) e questiona-o sobre a ordem que Adonai lhe dera para avançar contra o exército canaanita. Chamo a atenção para o termo “mandou”, ou seja, ela exerce um poder sobre o próprio general Barac, que acovardado diz, que só irá à guerra se ela o acompanhar (Jz 4,8). Ela concorda, mas adverte-o de que não será ele quem terá a honra da vitória pois esta será a de uma mulher.

Diante da disposição de Débora de acompanhar o exército israelita, nota-se:

  • a confiança dela em Adonai, pois foi promessa feita por ele ao próprio Barac (cf. Jz 4,6-7. 14a);
  • a segurança que ela transmite a Barac e ao próprio exército israelita.

O texto não narra a ação dela na guerra como uma guerreira propriamente dita, no entanto, a sua presença, pode se equiparar a própria presença de Adonai frente ao exército israelita conforme Jz 4,14b-15, pois a sua participação “passiva” estaria garantindo a participação “ativa” de Adonai, na vitória de Barac sobre Sísara. Essa atitude de Débora, lembra a mesma atitude de Moisés quando o povo guerreou contra Amelec conforme relatado em Ex 17,8,12.

O texto a partir de Jz 4,11-23, narra a vitória do exército israelita sobre o exército canaanita e a morte de Sísara, assassinado por outra mulher, Jael, conforme havia previsto Débora.

Citamos acima que um dos atributos de Débora é a de poetisa, chega-se a essa conclusão pelo texto em Jz 5, visto que se trata de um canto de vitória, como o canto de Miriam, outra profetisa, em Ex 15,19-21.

Em hebraico, o nome Débora – הרובד – significa “abelha”, em uma alusão ao ferrão cruel que ela infligiu aos cananeus na grande batalha no vale de Jezreel (Juízes 4). Após a vitória de Israel contra o poderoso exército cananeu, sob o comando de Débora, o país viveu quarenta anos em paz (5,31b).

A partir dos apontamentos feitos acima, têm-se fortes indícios
de que Débora teria exercido liderança em âmbito oficial da tribo,
contrariando a lógica patriarcal presente no antigo Israel. Porém, mesmo exercendo uma liderança institucional, Débora constitui-se como exceção nos relatos acerca de mulheres na Bíblia.

Resumindo, pode-se perceber que Débora possui todos os atributos que são importantes como líder de um povo, carisma, coragem e capacidade de liderar. Mas além desses três, ela nos mostra sua capacidade de fazer da espada uma pena com a que escreve poesia e da pena uma espada que se levanta em tempos de calamidade.

Hulda, a profetisa sábia e discreta

A única mulher que poderia ser considerada profetisa na Bíblia, no sentido estrito do termo, é Hulda (cf, 2Rs 22,14; 2Cr 34,22,28), que viveu na época da reforma deuteronomista do rei Josias (640-609 AEC). Outras mulheres receberam apenas o título de profetisas, como Miriam, irmã de Moisés e Aarão (cf. Ex 15,20), Débora (cf. Jz 4,4) e a esposa de Isaias (cf. Is 8,3).

Embora sejam somente três as mulheres chamadas de profetisas na Bíblia, sabemos que muitas outras atuaram como tais. Há de ressaltar, no entanto que essa denominação tem origem nos livros históricos e no Pentateuco, mas não são nos livros proféticos. A valorização maior do homem sobre a mulher, no mundo bíblico, após a construção do segundo templo, com certeza ignorou o nome de outras mulheres profetisas. Da mesma forma, impediu que os seus feitos proféticos fossem registrados na Bíblia.

Em Is 8,3, a mulher aqui considerada como profetisa se dá pelo fato de ser esposa e mãe do filho do profeta, e não por ser vista como tal.

A narrativa sobre a profetisa Hulda, encontra-se em 2Rs 22,16-20 e, também, em 2Cr 34,22-28; casada com Selum, membro da corte de Josias (640-609 AEC), a profetisa “vivia em Jerusalém no Bairro Novo” (2Rs 22,14b), o que pode designar que ela teve sua origem do Reino do Norte quando a Samaria foi despovoada em 722 AEC pela invasão da Assíria. O centro dessa narrativa é a “descoberta” de um novo livro da Lei, em virtude da reforma religiosa que o rei Josias (640-609 AEC) pretendia fazer. Para isso era necessário que se confirmasse a autenticidade do livro encontrado, o rei pede aos seus secretários que consultem Hulda, profetisa que mora em Jerusalém, ela confirma a veracidade do livro e profetisa que o rei morrerá antes de ver a desgraça que cairá sobre o povo, por ter se desviado da Aliança.

Hulda teve papel importante no incremento da reforma deuteronomista de Josias (cf 2Cr 34-35), o que significou vida nova para o povo e a esperança de dias melhores no seguimento do Senhor.

Apesar de a sociedade ser patriarcal, e a liderança religiosa e política pertencer aos homens, na profecia, todos eram iguais. Hulda entra para a história dos judeus e dos cristãos como a profetisa que teve influência decisiva numa reforma política e religiosa na vida do Povo de Deus. Sua profecia é decisiva para a reforma do Povo de Deus.

A pergunta que muitos exegetas do passado se fizeram foi: por que Josias não foi ao grande profeta de Israel do momento, Jeremias? Ele procura precisamente Hulda, que não era apenas inferior a Jeremias “na hierarquia”, mas também era mulher, algo incomum para aquela posição na época. Diferentes explicações foram oferecidas na literatura rabínica sobre este caso; por exemplo, que Jeremias não estava em Jerusalém naquela época ou que Hulda, sendo mulher, seria “mais branda” do que ele na sua profecia.

De acordo com uma das tradições rabínicas encontradas no Talmude, Hulda era descendente de várias gerações anteriores de Josué e Rahab.
Além disso, hoje em Jerusalém estão os restos dos “Portões de Hulda”, que serviam de acesso ao Templo e que, segundo alguns historiadores, a origem do seu nome se deve à proximidade dos portões à Tumba de Hulda (uma teoria não comprovada).

A interferência de mulheres nas tradições orais nestas narrativas bíblicas

Com as duas profetisas estudadas neste artigo, são de períodos distintos. Débora é do período dos juízes ou período tribal, cerca de 1200 a 1030 AEC. Hulda tem sua atuação entre 600 a 400 anos após Débora, e está situada no chamado período dos reis, mais especificamente no reinado de Josias, em Judá, quando ocorre a reforma religiosa e política.

Embora ambas sejam do Reino do Norte, Hulda tem sua atuação no Reino do Sul. Conclui-se de que ela tenha migrado do Norte para o Sul, visto que ela “vivia em Jerusalém no bairro novo” (cf. 2Cr 34,-22).

A atuação profética dessas mulheres é tão evidente, que foi impossível aos redatores patriarcais, deixarem de lado as profecias delas.

Débora atua como juíza, profetisa, poetisa, líder militar e matriarca. Sua ação foi no sentido de salvar o povo da ameaça canaanita, que já vinha sofrendo há vinte anos, nas mãos de seus inimigos. Como havia profetizado, a união de diversas tribos do norte vence o inimigo.

Hulda, embora esposa Salum, um importante funcionário do rei, não se importa com esse cargo, e parece desdenhar do rei quando diz aos enviados deste para uma consulta “E dizei ao rei de Judá, que vos enviou para consultar o Senhor…” (cf. 2Cr 34,26), e profetisa uma desgraça sobre Jerusalém.

A importância dessas duas mulheres na vida do povo é crucial: Débora salva o povo de maior opressão e talvez aniquilação. Hulda colabora de forma decisiva na reforma religiosa e política do Reino do Sul, num período turbulento na vida do povo e do reinado.

Nota:
O termo Adonai foi utilizado neste artigo para não ferir o Segundo Mandamento.
Referências:
Bíblia Do Peregrino. São Paulo: Paulus, 2ª Ed, 2006.
FARIA, Jacir de Freitas. Profetas e profetisas na Bíblia – História e teologia profética na denúncia, solução, esperança, perdão e nova aliança. São Paulo: Paulinas, 2006. 3ª reimpressão, 2018.
McKENZIE, John L. Dicionário Bíblico. São Paulo: Paulus, 1983.
VV.AA. Novo Comentário Bíblico São Jerônimo: Antigo Testamento. Santo André: Academia Cristã; São Paulo: Paulus, 2012.

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