Política, tô fora!

Areopago-Irineu-Politica
Você pode também escutar esta crônica na voz de “Gilberto Macedo”

Há doze anos vi-me na condição de candidato. Após vencer as prévias no âmbito da Arquidiocese de São Paulo, Dioceses de Campo Limpo, Santo Amaro e São Miguel Paulista, fui o candidato a vereador em São Paulo, pela Renovação Carismática Católica (RCC). Apoiado por familiares e amigos, incluindo um deputado estadual do Partido Verde (PV), lancei-me à empreitada.

Um candidato diferente. Não pedia votos a mim. Apresentava alguns ensinamentos sobre a importância da política na visão do Magistério da Igreja, um trecho bíblico do Primeiro Testamento e o conhecidíssimo texto do poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht: O analfabeto político. Quase todo o meu discurso era de conscientização política. Poderia até me adequar à linguagem eleitoreira, porém não me sentiria bem se assim procedesse.

Seguem-se os três textos da campanha (assessoria) que orientavam à exposição ao público, com vivos comentários pessoais.

I: De Bertolt Brecht

“O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio dos exploradores do povo.”

São os que se acham portadores de grande sabedoria, afirmando: Odeio política. Nenhum político se salva. São todos uns pilantras.

Diante da grande quantidade – um terço do atual Congresso, de políticos réus, respondendo a processos e sendo investigados, compreende-se a generalização. Dificulta à conscientização sobre a importância da política.

II: Juízes 9, 8-15

“As árvores resolveram um dia eleger um rei para governá-las e disseram à oliveira: reina sobre nós! Mas ela respondeu: ‘Renunciarei, porventura, ao meu óleo que constitui minha glória aos olhos de Deus e dos homens, para colocar-me acima das outras árvores?’ E as árvores disseram à figueira: ‘Vem tu e reina sobre nós!’ Mas a figueira disse-lhes: ‘Poderia eu, porventura, renunciar à doçura de meu delicioso fruto, para colocar-me acima das outras árvores?’ E as árvores disseram à videira: ‘Vem tu, reina sobre nós!’ Mas a videira respondeu: Poderia eu renunciar ao meu vinho que faz a alegria de Deus e dos homens, para colocar-me acima das outras árvores?’ E todas as árvores disseram ao espinheiro: Vem tu, reina sobre nós!’ E o espinheiro respondeu: ‘Se realmente me quereis escolher para reinar sobre vós, vinde e abrigai-vos debaixo de minha sombra.”

Jz 9,8-15

Expunha a necessidade de pessoas de bem assumirem um cargo político, deixando a zona de conforto e encararem o desafio de produzir políticas públicas importantes.

III: Exortação Apostólica Christifideles Laici, 42.

“Para animar cristãmente a ordem temporal, no sentido que se disse de servir à pessoa e à sociedade, os fiéis leigos não podem absolutamente abdicar da participação na « política », ou seja, da múltipla e variada ação (…) destinada a promover orgânica e institucionalmente o bem comum. (…) todos e cada um têm o direito e o dever de participar na política, embora em diversidade e complementariedade de formas, níveis, funções e responsabilidades. As acusações de arrivismo (ambição desmedida); idolatria de poder, egoísmo e corrupção que muitas vezes são dirigidas aos homens do governo, do parlamento, da classe dominante ou partido político, bem como a opinião muito difusa de que a política é um lugar de necessário perigo moral, não justificam minimamente nem o ceticismo nem o absenteísmo (falta) dos cristãos pela coisa pública. (…) « A Igreja louva e aprecia o trabalho de quantos se dedicam ao bem da nação e tomam sobre si o peso de tal cargo, ao serviço dos homens ».

O objetivo da política é a busca permanente do bem comum, “bem de todos os homens e do homem todo, bem oferecido e garantido para ser livre e responsavelmente aceite pelas pessoas, tanto individualmente como em grupo.” (Papa João Paulo II, 1988)

Usava a imagem da casa suja (meio político) que para ser limpa alguém precisaria adentrá-la para fazer a obra de higienização. Ficar do lado de fora jogando pedra nada constrói.

IV: Carta Encíclica Fratelli Tutti, 180 e 182 (caso a campanha fosse hoje)

“Reconhecer todo o ser humano como um irmão ou uma irmã e procurar uma amizade social que integre a todos não são meras utopias. (…) Com efeito, um indivíduo pode ajudar uma pessoa necessitada, mas, quando se une a outros para gerar processos sociais de fraternidade e justiça para todos, entra no «campo da caridade mais ampla, a caridade política». Trata-se de avançar para uma ordem social e política, cuja alma seja a caridade social. Convido uma vez mais a revalorizar a política, que «é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas de caridade, porque busca o bem comum».

“Cada um é plenamente pessoa quando pertence a um povo e, vice-versa, não há um verdadeiro povo sem referência ao rosto de cada pessoa.” (Papa Francisco, 2020)

Ah! Sobre a candidatura a vereador – não fui eleito. Obtive 10.202 votos.

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17 respostas em “Política, tô fora!”

Graças a Deus pude participar um pouquinho desta história …. para mim o que mais amei nessa campanha não foi você tentar mostrar a todos que a política é feita no dia-dia; que politica é suja mas que, se você não entrar pra limpar, ela continuará suja; que a política é essencial na vida de todos, etc … o que mais amei foi estar toda a campanha toda ao seu lado !!!! Muito obrigado Pai !!!!

Irineu, valeu!
Uma boa crônica e na hora certa,pois as eleições estão aí.
Que Deus ilumine os eleitores para uma escolha consciente e votem em candidatos realmente comprometidos com.a coletividade e o bem estar de toda população, principalmente os mais vulneráveis !
Um abraço com carinho.
Paz e bem!

Irineu para mim a política no Brasil é um câncer. Pessoas do bem não conseguem se manter nesse meio de corrupção e de “vantagens”. Gritam democracia, mas o voto é obrigatório e que obriga muitas vezes ao eleitor a votar nulo, branco, justificar ou o pior, votar em alguém que não acredita para que outro que também não goste ganhe a eleição.
Para mim a vontade do povo não é ouvida. Os votos nulos e brancos deveriam ser “ouvidos” e mais de 25% desses votos deveria cancelar uma eleição. Significa que pelo menos 1/4 da população votante não confia em seus candidatos. Mas infelizmente nada é feito para ouvir o povo. O povo tem que ser manipulado, por isso a pobreza e a falta de educação em alta em pleo século XXI em um país que diz que está em “desenvolvimento” desde sempre, mas não incentiva pesquisas, educação, bem estar.
Boas pessoas, como você, que querem ser bons políticos, não se criam nesse cancêr que é a política do Brasil.
abraços

Votei nele. Contudo, diante da irrealidade política não perdi meu voto. Ganhei e, acima de tudo vi meu amigo Irineu entrar (candidato) puro e sair santificado. Santificado porque nem a pecha da desconfiança pesa sobre ele. Talvez se eleito fosse, por mais integro que permanecesse poderia ter alguém dizendo: “Diga-me com quem andaste que direi quem tu és. Contudo com não andou na política suja esta mais limpo que antes. Obrigado IU por nos trazer mais uma reflexão real.

Acompanhei toda a jornada. Mostrou-me a possibilidade das pessoas atuarem na Política para o BEM COMUM, inspirado no Evangelho!

Olá Irineu tudo bem ?
Refletindo sobre o momento atual do nosso pais e os olhos voltado para a America sua reflexão vem ao encontro com a atual conjutura que o mundo e o país esta vivendo…Pois como é importante a atuação popular e o nosso compromentimento como Cristão e cidadão na politica…Como diz o Papa e que potencializou em uma des suas inciclitas que “A politica é uma forma mais concreta de fazermos caridade e perpertua a justiça e equidade social.
Não podemos dexistir,cabe a missão de nós “leigos” do ponto de vista do cleco eclesial virar este jogo…Penso que não podemos colocar em questão a nossa religiosidade mais sim os nossos varoleres..Não importa partido A ou B esquerda direita ou centro.Devemos estar atentos no projeto politico onde o centro da questão está nas politicas publicas que intensifica a garantia dos direitos e equidade social.É triste ver meu amigo que o mundo escolhe as pessoas escolhe um “ídolo” ou “mito” mas esqueça da essencia no ponto de vista do Cristianismo,vejo a nossa Igreja dividida alguns falam que politica e religião não se mistura,outros afirma que devemos voltar ao conservadorismo esquecendo a dignidade da pessoa humana e outras defende a diversidade seja a opção sexual,conceito de familia ,etc..
Mas a final que lado que estamos?
Eu particulamente estou na lado de Cristo sempre faço aquela pergunta que fizemos na ocasião dos nossos encontros da Caritas..Se Jesus estivesse aqui o que ele faria?
Não vejo outa resposta se não for no acolhimento na entrega e se colocar no lugar do outro.Falta esta sensibilidade a empatia pois o mundo não esta perdido ,poque Deus apostou na humanidade des da criação.
Mas você me permite afirma que o mundo esta divido!
Afinal que lado que estamos?
Vale esta sugestão de reflexão na sua proxima e rica partilha.
Obrigada amigo e irmão em Cristo Irineu.
Paz e bem!

Meu amigo a política é o exercício da livre representação.

Se os homens que se corrompem estão lá é porquê a oliveira preservou seu óleo, a videira o seu vinho e nenhuma das boas árvores se preocupou com o bem comum.

Aí a árvore que se preocupa, chega sem jeito, sem as habilidades manipulantes, sem dinheiro de construtoras, sem verbas partidárias, sem espaço no horário político e não consegue se expor corretamente nem tampouco se eleger.

E nesta senda o mau e o mal prosperam.

Vivemos num país de muitos cânceres onde o patético é o comum e o bom cidadão, por medo de ser confundido, se faz de oliveiras ou videiras.

Quiçá nestas eleições surjam novos nomes capazes de construir pontes sobre muros.

Saudações Cejotistas!

Realmente, atualmente, o descrédito que assola a classe política, só faz nos desencorajar em acreditar nas mudanças, que o povo anseia. Porém, não podemos abdicar da única forma democrática de mudar as coisas: O VOTO. Por conta de mais de 20 anos de ditadura , estamos engatinhando nessa coisa de DEMOCRACIA, mas entre erros e acertos vamos trilhando a nossa história, mas por nós mesmo.
Vote consciente, fiscalize, acompanhe seu candidato , e quatro anos passa num sopro.

Obrigado Irineu pela desposição e a coragem e; se não me enganado, na época li algo sobre ti. Meu ponto de vista pensante é que nenhum candidato pode afirmar que vai governar bem pra todos, isso não existe. Meus votos é pra você voltar a ser candidato e conte com meu apoio.

Lá atrás, você teve a coragem de dar a cara para bater. Não perdeu. Mostrou que, aos que acreditaram em você (10.000) podemos e devemos estar dentro. O nosso voto consciente também pode e deve ser o caminho para uma mudanca . Tô dentro!

Lamentável o povo perder um deputado como o sr . Irineu.
Também perdemos aqui no Piauí, para a política em 2016, um irmão da RCC, que foi candidato a vereador.
Aí sim seria um voto consciente…
Vejo a política com muito *nojo*

Tive a honra de conhecer e participar da campanha do amigo IRINEU UEBARA. São Paulo, na verdade a população, perdeu de ter um homem de Deus, honrado, competente e de um coração generoso. Teria sido um grande vereador!

Porém, destaco que no processo eleitoral, deu sua contribuição como cristão. Muito mais para conscientizar do que para ser eleito. Desta forma, todos que tiveram a oportunidade de estar com o IRINEU em 2008, durante a campanha, numa reunião paroquial, associações, empresas, enfim, todos viram, presenciaram os valores de uma política que tem como essência o BEM COMUM.

Infelizmente temos que votar, mas em quem ? um pior que o outro . mas somos obrigados a nos posicionar . então que venha as eleições e acabe logo a palhaçada . Ps: uma pena o senhor não ter ganho.

Que pena o povo perdeu a chance de ter um deputado íntegro. Como todos cobram da população votar consciente essa foi a oportunidade que deixamos escapar.

A obrigatoriedade do voto é o começo do fim. Se fôssemos um país civilizado e desenvolvido o voto seria facultativo. Quando somos obrigados a fazer determinada coisa que não gostamos ou não queiramos, a tendência é que a façamos de maneira precária, com raríssimas exceções. E essa insatisfação e precariedade para os milhões que não são adeptos a política leva, consequentemente, ao voto em qualquer um ou ao voto nulo/branco, sem qualquer responsabilidade. Mas o que esperar de um país em que não existe a “Introdução a Ciência Política” como disciplina curricular regular e que se briga e se discute para incluir na grade a questão da “Ideologia de Gênero”?! Querem nos obrigar a votar, mas não se prestam a ensinar a importância do voto em nosso cotidiano. Que Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, possa iluminar nossos candidatos, políticos e que tenhamos responsabilidade e sabedoria para elegermos cristãos como, por exemplo, o candidato a vereador por São Paulo em 2008. P.S. E não nos esqueçamos de levar a caneta – por conta da pandemia – para assinarmos presença na eleição: piada!!!

Por um lado Deus sabe de todas as coisas, olha o lado positivo de o Sr. Não ser eleito. conheceu as pessoas pra trabalhar mais alegre de toda sua vida… brincadeira, mas por um lado Deus colocou Sr. Em nossas vidas passando sabedoria e muito maisss. Obrigada.

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