Escatologia: O que é o Purgatório?

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“Felizes os puros, porque verão a Deus”.

Mt 5,8

Essa bem-aventurança é uma meta bastante ousada para aqueles que a refletem com sincera humildade. Quem de nós pode se considerar puro?

Se quisermos refletir diferente, podemos então buscar a conclusão que Jesus faz da Lei e dos Profetas, nesses dois mandamentos: “Amar a Deus de todo o coração, alma e espírito e ao próximo como a ti mesmo” (Mt 22,37-40). Agora, voltemos a nos perguntar com um coração sincero: Quem de nós consegue, de fato, amar a Deus sobre todas as coisas e, especialmente, o próximo como a si mesmo?

Se você que lê esse artigo chegou a conclusão de que possui a pureza evangélica, ama a Deus com todo o seu ser e, ainda, ama ao próximo como ama a si mesmo, então o seu caminho para o Céu será sem escala. Parabéns! No entanto, se você acha que não se configura na lista VIP, então vai precisar de um tempinho de purificação para ganhar o céu.

O purgatório e a sua compreensão

A fé no Purgatório não está na Bíblia, mas surge a partir da mensagem da Bíblia. Nos Concílios de Lyon, Florença e Trento a Igreja definiu o purgatório como dogma, se apoiando principalmente nos princípios bíblicos da santidade (nosso chamado) e da responsabilidade (livre arbítrio), e finalmente nas meditações de Santos Padres, como Tertuliano, Agostinho e Gregório Magno.

No imaginário cristão, o purgatório é representado como um “lugar” onde as almas dos mortos, já justificados, se purificam antes de entrarem na glória definitiva. Mas é preciso revisitar o conceito difundido do purgatório, que erroneamente está mais associado ao inferno que do céu.

Em verdade, o purgatório é uma “situação” espiritual (de purificação) e não um lugar de horrores como comumente é descrito; é um estágio de preparo para aqueles que aceitaram a companhia de Deus e, por isso, já alcançaram a salvação.

Passar pelo purgatório é uma graça de imensa alegria, embora seja nele que reaveremos a memória das faltas cometidas, ocasionando dor e arrependimento; mas sem perder a esperança de, no fim desse processo, ver a Deus e receber o seu abraço. Esqueçamos, portanto, que purgatório significa algo relacionado com castigo ou, pior, vingança de Deus.

São Bernardino de Sena dizia que no purgatório “as almas estão numa situação melhor e mais feliz que a nossa” embora ainda envolvidas na dor do arrependimento (pelas faltas).

O “já” e o “ainda não” da purificação

O purgatório é acessível somente no pós-morte. Mas “já” existem purificações possíveis ao ser humano ainda em vida, como: as provas, lutas e dores que enfrentamos aqui. Estas “provações” podem já nos purificar. As dificuldades que o homem enfrenta durante a vida não são apagadas da memória de Deus no momento do seu juízo. Uma morte dolorosa inclusive pode ser uma oferta pura e purificadora. Também o trabalho da caridade para com os pobres se torna purificação, pois “a caridade cobre uma multidão de pecados” (1Pd 4,8). Aqui está o sentido das vezes em que, diante de alguma provação, muitos dizem: “Entrega para Deus”.

Comunhão com as “almas”

Podemos, sim, ir em socorro dos irmãos e irmãs falecidos – das almas que estão no purgatório – com nossas orações, especialmente com a santa missa. Deste modo, os defuntos são “ajudados” e “libertados de seus pecados”. O Vaticano II confirma o valor de se fazer a “memória” dos defuntos, que, além de ter fundamento bíblico (cf. 2Mc 12,45-46), é tradição da Igreja desde a antiguidade, como mostram as inscrições nas Catacumbas (cf. LG 50).

Sem dúvida, nós podemos ajudar as almas, mas podem elas nos ajudar? Aqui, a doutrina da Igreja deixa a questão em aberto. A tendência teológica de hoje é achar normal que os que “estão se purificando” tenham solicitude para conosco e possam nos ajudar (cf. LG 49). Dito isto, não é errado pedir a intercessão de pessoas queridas que já faleceram.

Podemos “invocar” as almas, mas nunca “evocá-las”. “Evocar os espíritos” é provocar uma comunicação, mediante técnicas humanas, para conseguir notícias ou auxílios. Essa prática é formalmente condenada pelas sagradas Escrituras (Dt 18,10-14; 1Sm 28,3-25; At 13,6-12 etc.), e nada tem a ver com a fé católica.

E a reencarnação?

O tema da reencarnação entra nesse artigo somente como um apêndice para complementar a ideia que, até aqui, foi trabalhada.

A saber: a reencarnação é uma crença antiquíssima e admitida por bilhões de pessoas, como os adeptos das grandes religiões asiáticas: o Hinduísmo, o Budismo etc. Aliás, em pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo em 2017, se notou que cerca de 50% dos brasileiros acreditam na reencarnação.

Um lado positivo presente nessa crença milenar é o seu caráter espiritual e ético. É como se os crentes da reencarnação se posicionassem contrários à uma visão materialista e impelidos a uma vida coerente. Isso porque a “lei do retorno” ou karma (parte da crença da reencarnação), ensina a reparar o mal feito, mostrando a necessidade de sempre se fazer o bem, para receber o bem.

Mas, para um cristão, o lado negativo da crença na reencarnação é que ela contradiz duas verdades centrais da fé:

  1. o dogma da Redenção, segundo o qual é o amor gratuito de Deus que nos salva e não nossos méritos (ou nosso karma), o que equivaleria a uma autorredenção.
  2. a verdade da Ressurreição. O destino último da pessoa não implica em se libertar da matéria ou “desencarnar”, mas em assumir a matéria e transfigurá-la. Na antropologia cristã, o corpo está ligado “substancialmente” à alma, e não apenas exterior e acidentalmente.

Além de tudo isso, temos a declaração formal de Hb 9,27 no sentido de que a nossa vida é irrepetível, e ainda a condenação constante feita pelo Magistério da Igreja de todas as formas de reencarnação.


Esse artigo foi tema de uma formação que foi gravada em vídeo e está disponível no canal do Areópago. Vide abaixo.


Referências
CATECISMO da Igreja Católica (CIC). São Paulo: Loyola, 2000.
BOFF, Clodovis. Escatologia: Breve tratado teológico-pastoral. São Paulo: Ave-Maria, 2012. 

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