O sentido e a espiritualidade do sinal da cruz

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É curioso (e preocupante) como coisas extremamente importantes para a nossa vida se tornam tão comuns, automáticas e desvalorizadas com o passar do tempo. Se é possível dizer que a pandemia de covid-19 trouxe algo de bom, talvez seja o fato de podermos redescobrir o valor de certas coisas que, antes, passavam despercebidas, por exemplo, o ato de respirar. Nós fazemos isso o tempo todo, afinal, sem ele não sobrevivemos, porém essa ação se tornou tão automática na nossa vida que quase ninguém prestava atenção nela. Até agora!

Durante a pandemia, fomos obrigados a nos concentrar muitas vezes nessa ação que, até então, era ignorada. Além de prestar atenção nela, precisávamos avaliar, reavaliar e assim por diante, para sabermos se estava “normal”. Dessa maneira, redescobrimos a importância de algo tão simples, mas essencial para a nossa vida.

Com a liturgia não é diferente!

Com o passar do tempo, vários elementos muito importantes foram se tornando automáticos e isso, de certa forma, contaminou nossa espiritualidade, pois deixamos de reconhecer o valor que eles têm. Infelizmente esquecemos de valorizar os pequenos gestos que podem nos ensinar grandes lições.

Na liturgia da missa, em especial, temos a oportunidade de unir nossas vidas à vida de Deus, mas isso só é possível se realmente compreendemos como fazer essa união.

Muitas vezes vemos um bolo daquele modelo muito grande, esculpido e caro e pensamos que é impossível para nós fazer um bolo tão incrível quanto aquele. Porém, a diferença entre a pessoa que fez e cada um de nós é justamente o conhecimento, o treino e a dedicação que essa pessoa teve, e mais nada.

Para saber como tornar a nossa vida mais unida à vida do Cristo, na liturgia, precisamos disso: conhecimento, treino e dedicação constantes. Como ensina o Papa Francisco: “Para nós cristãos, é fundamental compreender bem o valor e o significado da Santa Missa, a fim de viver cada vez mais plenamente a nossa relação com Deus”.

Por isso, resolvi refletir a respeito de um dos gestos mais populares e, na minha visão, mais desvalorizados/esquecidos: o sinal da cruz.

Sobre esse gesto, Francisco chamou a atenção das pessoas em uma de suas catequeses: “Vistes como as crianças fazem o sinal da cruz? Não sabem o que fazem: às vezes fazem um desenho, que não é o sinal da cruz. Por favor: mãe e pai, avós, ensinai às crianças, desde o início — desde pequeninos — a fazer bem o sinal da cruz. E explicai-lhes o que significa ter a cruz de Jesus como proteção.”

Diante disso, as primeiras reflexões que devemos fazer são essas: Será que eu, mesmo adulto, faço corretamente o sinal da cruz? Conheço e vivo o significado dele? Consigo ensinar corretamente uma criança ou outra pessoa a fazê-lo?

Apesar de o Papa se referir apenas às crianças, tenho a impressão de que elas não são as únicas que precisam (re)aprender corretamente esse sinal tão importante.

A cruz no tempo de Jesus

Para compreender corretamente o que significa o sinal da cruz, precisamos, antes, compreender o que era a cruz no tempo de Jesus e quais os significados que ela tinha para a população. Em resumo, devemos poder responder a essa pergunta: Naquele tempo, o que as pessoas pensavam quando viam uma cruz ou uma pessoa crucificada?

Os romanos não inventaram a cruz. Enquanto símbolo ou objeto, a cruz já era utilizada muito antes do Império Romano. Porém, esse povo disseminou o uso da cruz como instrumento de tortura e humilhação. Algo tão horrível e vexatório que nenhum cidadão romano, por pior que ele fosse, poderia ser crucificado.

Além disso, como podemos ler no Evangelho de João (em especial no capítulo 19), esse tipo de condenação era “preparado” por vários outros sofrimentos produzidos por chicotes e açoites, dependendo do crime cometido.

Um detalhe importante a respeito dessa prática romana, mas que geralmente passa despercebido, é que, em geral, os crimes que levavam à crucifixão eram os crimes políticos. O objetivo dos romanos era desestimular seguidores ou outras pessoas a seguirem o mesmo caminho daquele que foi crucificado. O medo da morte, da tortura, do sofrimento e da dor era a grande propaganda de marketing do Império Romano para evitar novos problemas políticos nas regiões sob o domínio deles.

A crucificação era a pena destinada a escravos que atentavam contra a vida dos seus senhores e aqueles que se envolviam em rebeliões. […] “Ainda vivos, na cruz, aves de rapina já começavam a comer o condenado. Três ou quatro dias depois, a carne desse indivíduo, apodrecendo, caía da cruz e cães e outros animais terminavam de fazer o serviço” […]

VEIGA, 2021

A partir dessa explicação, fica mais fácil compreender outro objetivo dos romanos ao condenar alguém à crucifixão: apagar a existência daquela pessoa da história, para que nem um túmulo essa pessoa tivesse. Ou seja, quem era condenado à cruz, era condenado, também, a ser esquecido por todos.

Aqui, neste texto, apesar de o nosso objetivo não ser pensar diretamente em política, nós não podemos deixar de fazer as seguintes reflexões: Naquele tempo, quais eram as implicações políticas do ensinamento de Jesus? E hoje, quais são as implicações políticas do ensinamento de Jesus?

Respondendo à pergunta inicial deste ponto, ao ver uma cruz as pessoas da época de Jesus viam o que havia de pior (tortura, dor, vergonha, humilhação, esquecimento…), ou seja, viam uma completa maldição que deveria cair sobre o condenado e sobre qualquer outra pessoa que quisesse segui-lo.

Com essa breve explicação, nós podemos começar a entender o choque das pessoas do tempo de Jesus ao ouvirem a pregação a respeito de um Deus que se fez homem e aceitou morrer crucificado para salvar a todos. Essa mensagem era, como conta o apóstolo Paulo, um “escândalo para os judeus e uma loucura para os gentios” (1 Coríntios 1,23) que não compreendiam a profundidade da ação do Cristo.

Sinal da cruz, sinal de Cristo

Até a crucificação de Jesus, a cruz era o que havia de pior. Contudo, após aquele momento, ela passa a ter um novo significado. A cruz passa a ser sinal, não de horror e sofrimento, mas de vitória sobre o mal, a morte e os poderes mundanos que pensam dominar e dar a palavra final na história.

A cruz se torna algo tão importante para quem quer seguir a Jesus que sem ela, mesmo aquela [cruz] do dia a dia, não podemos encontrar o Cristo no fim da nossa jornada, pois “se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Lucas 9,23).

Enquanto cristãos, esse sinal nos acompanha ao longo de toda a vida. No batismo, alguém traça o sinal da cruz na nossa fronte, ao celebrarmos os outros sacramentos, lá está a cruz novamente, e, ao morrermos, na encomendação, alguém fará o sinal da cruz sobre o nosso corpo.

Diante disso, é importante ter consciência de que a cruz não é nem enfeite, nem amuleto, nem tem poderes mágicos para dar sorte ou trazer dinheiro fácil. O sinal da cruz é o sinal daquele que venceu tudo o que implicava em morte, dando novo significado para a vida de quem decide carregar, com o Cristo, as próprias dores e dificuldades, durante toda a vida terrena.

Ao traçarmos o sinal da cruz, professamos nossa fé em Cristo, professamos que ele sofreu a paixão e a morte, mas que ressuscitou e venceu, por isso se faz presente conosco.

[…] O sinal da Cruz é de alguma forma a síntese da nossa fé, porque nos diz quanto Deus nos amou; diz-nos que, no mundo, há um amor mais forte do que a morte, mais forte do que as nossas fraquezas e os nossos pecados. A força do amor é maior do que o mal que nos ameaça. […]

BENTO XVI, 2008

Quantas coisas esse sinal torna presente nas nossas vidas!

Por isso, não pode ser um gesto automático, sem sentido. Quando o fazemos, precisamos ter clareza de que ele representa publicamente a nossa opção por seguir aquele que é “caminho, verdade e vida” (João 14,6).

Sinal da cruz, sinal da Santíssima Trindade

Para nós, católicos, além de ser um sinal do Cristo, o sinal da cruz também é um sinal da Santíssima Trindade. Ao traçarmos esse sinal, principalmente no início da celebração da missa, dizemos simultaneamente “Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”.

Mas quem ou o que é essa Trindade que invocamos?

Ao longo da história, muitos santos e teólogos refletiram sobre esse tema e tentaram explicar um pouco desse mistério de Deus. Eu, particularmente, costumava refletir muito sobre isso antes de conversar com as crianças quando acompanhava a catequese de uma comunidade por onde passei. Por fim, decidi ir por um caminho mais simples para explicar para elas como é esse Deus Uno e, ao mesmo tempo, Trino.

Para as crianças, eu costumava utilizar uma analogia, ou seja, uma comparação. De acordo com a Teologia católica, existe um único Deus (Uno), mas esse Deus tem três pessoas (trino). Mas como algo pode ser “um” e, ao mesmo tempo “três”? Aí entra a analogia.

Eu costumava mostrar para as crianças uma vela, mas essa vela possuía três pavios e, consequentemente quando estava acesa, três chamas. O fato de ter três chamas, não mudava o fato de ser uma única vela. Cada chama se movimentava de forma espontânea, tinha características diferentes das outras, mas a vela continuava sendo uma. Além disso, a vela, mesmo com as três chamas, tinha uma única substância, a parafina. Uma chama não era mais importante do que a outra, mesmo tendo características únicas e movimentos diferentes. E ninguém podia dizer que uma chama era a outra, cada chama era única. E, apesar de tudo isso, a vela continua a ser una, uma só, não três velas.

De maneira geral, as crianças costumavam compreender essa analogia de forma satisfatória e conseguiam relacioná-la ao que se quer ensinar a respeito da Santíssima Trindade. As chamas representavam as pessoas da Trindade que permaneciam sendo um único Deus.

Obviamente, essa explicação não tem a pretensão de servir de tratado teológico, nem de substituir qualquer explicação mais complexa, mas pode, mesmo com muitas limitações, auxiliar a compreender um pouco mais desse mistério de amor de um Deus que não é solidão, mas relação constante entre as três pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo).

O sinal da cruz na liturgia

Por fim, chegamos onde eu gostaria que é justamente no sentido desse sinal na liturgia, em especial, da missa.

Na nossa missa atual, as primeiras palavras, […] são as palavras de bênção que acompanham o sinal da cruz, palavras que formam um portal trinitário para toda a Missa […]. Conforme usada aqui, a fórmula, tirada da ordem de nosso Senhor para pregar e batizar [conforme o evangelho de Mateus 28,19], […] deve ser explicada pelo fato de que o sinal da “bênção”, o “sinal da cruz” está conectado a Ele [ao Cristo]; nós começamos a ação santa [da missa] no poder que vem do Deus trino por meio da cruz de Cristo. Ao mesmo tempo, no uso desta fórmula, podemos perceber uma ponte entre os dois grandes sacramentos do Batismo e da Eucaristia.

JUNGMANN, [s.d.], p. 296

Sendo assim, logo no início dessa liturgia, ao fazer o sinal da cruz, o objetivo é lembrar o nosso batismo e fazer a primeira profissão de fé no Deus Trindade e na salvação que vem por meio do sacrifício de amor feito por Jesus na cruz. Esse sinal indica o nosso “sim” público da acolhida da palavra de Deus e da aceitação de Jesus como nosso salvador. Justamente por isso, não pode ser algo automático.

Na história da liturgia, o grande sinal da cruz que hoje praticamos, entrou […] pelo século XI. Seu sentido se mostra pelos movimentos, da testa para o coração, para expressar o abaixamento do Filho, gerado pelo Pai, sua encarnação e paixão; tocando nos ombros, queremos dizer que ele continua se doando na comunhão do Espírito Santo. O divino Espírito, que saiu do lado transpassado de Jesus na cruz, faz-nos voltar ao Pai, por meio do Filho.

BUCCIOL, 2018. p. 19

Ainda nesse momento, no início da missa, cada um de nós se coloca sob a proteção da cruz de Cristo, como um escudo, um sinal que resume a nossa forma de viver, ou seja, qual caminho cada um de nós escolheu seguir durante a vida. Como ensina Bento XVI:

[…] Persignar-se quer dizer «sim» – evidente e público – àquele que por nós sofreu; àquele que, mediante o seu corpo, revelou o amor de Deus até ao extremo; ao Deus que rege não através da destruição, mas sim através da paixão e do amor, que são mais fortes do que todo o poder do mundo e toda a ciência interesseira dos homens. O sinal da cruz é um testemunho da fé: acredito naquele que por mim sofreu e por mim ressuscitou; naquele que transformou o sinal da vergonha num sinal de esperança e de amor de Deus que nos é presente. […] Quando fazemos o sinal da cruz, colocamo-nos sob a sua proteção, segurando-a ao mesmo tempo diante de nós como um escudo, que nos ampara nas dificuldades do dia a dia, nos encorajando a continuar. […]

RATZINGER, 2010, p. 131-132

Ao traçar o sinal da cruz sobre si mesmo, cada cristão se torna o próprio sinal daquele que nos salvou, sinal da paixão e da ressurreição de Jesus Cristo que deve iluminar e dar sabor ao mundo (Mateus 5,13) por meio de atitudes e escolhas no dia a dia da própria vida. Como Jesus, cada cristão deve ser um sinal de contradição (Lucas 2,34) diante daquilo que o mundo apresenta. Além disso, esse sinal nos indica em nome de quem nos reunimos em comunidade para rezar: da própria Trindade.

[…] o sinal da cruz é a suma [= o resumo] da nossa fé, e fazendo-o com o coração atento, entramos no pleno mistério da nossa salvação. […] Deus amou-nos de tal modo, que se entregou a si mesmo por nós: esta é a mensagem da cruz, “mistério de morte e de glória”. A cruz recorda-nos que não há amor verdadeiro sem sofrimento, não existe dom da vida sem dor. […]

BENTO XVI, 2008

O sinal da cruz, apesar de simples, carrega em si uma quantidade muito grande de significados. Ao longo da história, ele passou de sinal de maldição para sinal de bênção (hoje, cada um ao receber uma bênção faz justamente esse sinal), de morte para vida, de ódio para amor.

O objetivo neste texto não foi esgotar todo o sentido da cruz, mas ajudar a refletir melhor a respeito de alguns pontos cruciais. Após essa reflexão, espero que você possa fazer o sinal da cruz de maneira mais consciente de tudo o que ele significa, que você consiga viver melhor esse sinal na sua vida e, de maneira especial, na liturgia. Que consiga ensinar e explicar corretamente para outras pessoas um pouco do que esse gesto, tão simples, simboliza para a nossa fé católica.

Referencias
BENTO XVI. Audiência geral de 17 de setembro de 2008. Disponível em: <https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2008/documents/hf_ben-xvi_aud_20080917.pdf>. Acesso em: 12 set. 2022.
BENTO XVI. Homilia no 150° aniversário das aparições de Lourdes (14.09.2008). Disponível em: <https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/homilies/2008/documents/hf_ben-xvi_hom_20080914_lourdes-apparizioni.pdf>. Acesso em: 9 set. 2022.
BUCCIOL, Dom Armando. Sinais e símbolos, gestos e palavras na Liturgia: para compreender e viver a liturgia. Brasília: Edições CNBB, 2018.
FRANCISCO. Audiência Geral de 8 de novembro de 2017. Disponível em: <https://www.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2017/documents/papa-francesco_20171108_udienza-generale.html>. Acesso em: set. 2021.
FRANCISCO. Audiência Geral de 20 de dezembro de 2017. Disponível em: <https://www.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2017/documents/papa-francesco_20171220_udienza-generale.html>. Acesso em: set. 2021.
JUNGMANN, Joseph A. The Mass of the Roman Rite: its origins and development (Missarum Sollemnia). [s.l.]: [s.e.], [s.a.].
RATZINGER, Joseph. Introdução ao espírito da liturgia. 3. ed. Prior Velho: Paulinas, 2010.
VEIGA, E. Paixão de Cristo: como foi a morte de Jesus, segundo a ciência. BBC, 1 abr. 2021. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/geral-56609774>. Acesso em: 8 set. 2022.

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