O Livro do Apocalipse (Pt 5)

Areopago-Jairo-Apocalipse-5

Esta é a quinta parte [de 9] do estudo do livro do Apocalipse. Para uma melhor compreensão do todo, sugerimos acompanhar as demais partes indicadas e numeradas abaixo. Bom proveito!

O novo Êxodo: O Primeiro Roteiro da Caminhada do Povo de Deus

Uma chave de leitura

As visões dos capítulos 4 a 11 apresentam a Boa Nova de Deus como um Novo Êxodo. O tema do Êxodo está presente em todo o Apocalipse, do começo ao fim, mas aqui, nos capítulos 4 a 11, como veremos, nos comentários, as imagens tiradas do Êxodo chegam a marcar a própria sequência das visões e a estrutura da composição literária. A mensagem que daí resulta é a seguinte: o mesmo Deus que libertou o seu povo das garras do faraó, continua libertando as comunidades perseguidas das garras do Império romano. O mesmo Deus está conosco hoje.

As visões dos capítulos 4 a 11 são como obras de arte penduradas nas paredes de uma galeria circular. Cada obra de arte, cada visão, tem a sua própria força e mensagem. Mas, ao mesmo tempo, existe uma sequência entre elas. As visões foram colocadas, uma ao lado da outra, uma nascendo da outra, para que se iluminassem mutuamente. A força do livro do Apocalipse vem exatamente deste duplo aspecto. De um lado, cada visão se basta a si mesma e faz a leitora, o leitor, parar e contemplar, separadamente, as visões do Trono (Ap 4), do Cordeiro (Ap 5), da Abertura dos Selos (Ap 6), do Recenseamento (Ap 7), das Pragas (Ap 8-9), das Duas Testemunhas (Ap 11,1-3) e da Chegada ao Fim (Ap 11,14-19). Do outro lado, em cada visão existem dicas e sinais que evocam a visão precedente ou apontam para a visão seguinte. A sequência das visões começa com a visão do Trono de Deus no céu (Ap 4,1-2), faz a volta na galeria, percorrendo toda a história, e conclui retornando ao Trono de Deus, onde tudo tinha começado (Ap 11,16-19). Isto confere ao todo uma dinâmica interna muito forte. De um lado, convida a parar, contemplar e meditar. De outro lado, a prosseguir e avançar.

Resumindo o contexto

Os capítulos 4 a 11 foram escritos na província romana da Ásia Menor (atual Turquia), na época da perseguição de Nero (64) ou, mais provavelmente, na época turbulenta da revolta dos judeus contra Roma com perseguições e massacres (66-70). De qualquer maneira, o escrito reflete uma situação de desalento e de perseguição que levava as comunidades a perguntar: “Até quando, ó Senhor?” (Ap 6,10). Reflete ainda uma situação de perplexidade. A grave crise do Império dos anos 68 a 70, provocada pelas tentativas de golpe militar em quase todas as províncias, e a guerra judaica que levou à destruição de Jerusalém, criaram nas comunidades um sentimento de fim de mundo. A história parecia à deriva (cf. Ap 5,2-4). Os capítulos 4 a 11 do Apocalipse procuram ser uma luz para esta situação. Informam quantas são as etapas da caminhada, desde o começo lá no passado, chegando ao presente, indo até alcançar o Dia de Adonai [usamos o termo Adonai, ao invés do tetragrama, para não ferir o Segundo Mandamento da Lei de Deus]. Descrevem, por assim dizer, o Roteiro da Caminhada do Povo de Deus. Assim, ajudam as comunidades a se situar dentro dos fatos e a descobrir em que etapa se encontram.

Ap 4,1-11 A visão do Trono de Deus

Depois da mensagem das sete cartas (Ap 2-3), o autor transpõe um limiar. Por uma porta aberta no céu, ele entra no mundo de Deus e começa a ver o outro lado da história, o lado escondido, que só Deus enxerga. Ele convida o povo das comunidades a entrar com ele no céu. Nós também vamos entrar pela porta que o autor encontrou aberta (4,1). Lá do alto, vamos olhar a terra e assistir “às coisas que devem acontecer” (Ap 4,1). Isto permite tomar distância dos fatos e ter maior clareza das coisas.

A visão do Trono cria um novo cenário que será o pano de fundo para todo o resto do Ap. Do começo ao fim do livro, a imagem do Trono ocorre 47 vezes! A descrição da visão do Trono é como uma música tocada com instrumentos tirados da criação e da história do povo de Deus: seres vivos, pedras preciosas, cores do arco íris, relâmpagos e trovões, luz e fogo, imagens do Êxodo, profecias e visões de Isaías e Ezequiel. A música começa baixinho e vai crescendo, envolvendo a leitora, o leitor. O ponto alto é a aclamação de Deus e a revelação do seu Nome: Era-É-Vem (4,8). É onde o rojão explode em mil cores iluminando o céu!

Símbolos

Pedras preciosas: Raridade, beleza, valor;

Arco-íris: Sinal da Aliança de paz e misericórdia prometida a Noé (Gn 9,1ss), como lembrança de que o julgamento de Deus é a manifestação de sua misericórdia.

Anciãos: Roupas brancas e coroas da vitória são sinais das pessoas salvas. O número 24: a totalidade do povo de Deus, 12 do AT, 12 do NT. 

Mar de vidro: O mar é símbolo do caos e das forças do mal que Deus domina. Assim, a história será uma tensão, mas os vencedores, que participam, da vitória de Jesus, irão dominar esta força do mal (Ap 15,2; 21,1). Pois Deus age na história para comunicar a sua Vida. 

Os quatro elementos vivos: São símbolos provenientes de Ez 1,10 e 10,14. Significam a ação divina na história da salvação. O número quatro indica que Deus age para comunicar a sua vida à totalidade do mundo; quatro = os cantos do mundo.

Leão: Promessa divina que já se manifestou no messianismo da tribo de Judá. Pois a plenitude dessa promessa é a vitória do Ressuscitado, o Leão de Judá (5,5).

Touro: Animal do sacrifício pelo pecado (Lv 16,1ss). Indica que a ação divina penetra nos acontecimentos materiais da história. E é nestes fatos que o povo se purifica e se abre para conhecer a vontade de Deus.

Homem: Sinal da inteligência e do discernimento. Nos acontecimentos catastróficos, é capaz de perceber o sentido exato dos fatos, conforme a promessa de Deus.

Águia: Sinal do julgamento de Deus sobre o seu Povo. A Assíria foi comparada a uma Águia (Os 8,1). Também a Babilônia, que destruíra Jerusalém (Ez 17,1ss). Além do mais, a Águia era símbolo do poder imperial romano. Com isso, os cristãos devem entender que o julgamento vem de Deus e não do totalitarismo romano. A Águia é a ação de Deus que vai julgar o seu povo (Ap 8,13;9,12), e também o Império Romano (Ap 11,14;14,6). É por este julgamento que Deus irá congregar o novo Povo e enviá-lo ao mundo.

Neste capítulo encontramos dois hinos: 8b; 11.

Ap 5,1-14 A visão do Cordeiro

Esta cena mostra o momento decisivo da história. É a hora da ressurreição de Jesus Cristo. Mas, antes de revelar o sentido da ressurreição, o autor nos mostra porque a humanidade estava ansiosa por esta libertação.

João apresenta o sentido da história como um Livro, selado com sete selos. Este livro é o símbolo de que Deus quer e já vinha sendo mostrado através do AT. Mas o seu significado ainda não era plenamente compreendido. Isso significa que as pessoas podem nascer, lutar, sofrer e morrer sem entender o porquê de sua vida! A compreensão dos acontecimentos está num Livro que as pessoas, por si só, não são capazes de entender. Para entender o que Deus quer para os homens é preciso que ele mesmo o explique. E essa explicação só pode vir por Jesus Cristo, morto e ressuscitado.

A humanidade lamenta e chora. Pois, quem é capaz de conduzir a vida para a realização feliz, se nem sabe por que está vivendo (vv. 2-4).  É, então, neste momento que João apresenta um Ancião que vai anunciar a Boa-nova (v.5).

Esta consiste em proclamar que foi achado alguém digno de revelar a vontade de Deus sobre todas as coisas. É Aquele que realiza todas as promessas de Deus. É o Filho de Davi, o vencedor que nasceu do povo de Israel. O sentido da ressurreição está no fato de que o Homem-Deus, vencedor da morte, abre o Livro fechado. Ele mostra o verdadeiro sentido das promessas do AT e ensina o que Deus quer mesmo para os homens.

O v.6 relembra o cenário celeste que vimos em Ap 4. No âmago do mistério da vida de Deus e de sua ação na história, surge aquele que é o objeto da esperança de todas as gerações humanas: o Cordeiro que está em pé, como imolado. É Jesus que está VIVO, depois de ter passado pelos sofrimentos e morte da Cruz. Ele é o Verdadeiro Cordeiro, que traz a libertação, pois se ofereceu como o Servo Sofredor e entregou a própria vida como um cordeiro imolado (Is 53,7; Jr 11,19).

O Cordeiro tem sete chifres. Este símbolo mostra que o Ressuscitado tem a plenitude de todo poder. Ele é o Senhor do mundo e da história. A ele foi dado todo poder e majestade para reinar sobre o mundo.

Tem também sete olhos. O Ressuscitado possui todo conhecimento e sabedoria. Tem a capacidade de compreender e de dirigir a história. E é dele que nasce o discernimento para que todos os homens, em sua liberdade, dirijam os acontecimentos.

Este conhecimento vem dos sete espíritos, que são a totalidade da vida de Deus que se comunica. O Ressuscitado comunica a plenitude da vida. E tudo o que ele é, repercute na terra toda (v.6).

“Ele veio e pegou o Livro da mão direita do que está sentado no trono” (v.7). Neste momento, o Ap apresenta o ato da ressurreição como é visto da parte de Deus. A ressurreição é um ato sempre dinâmico. O Cordeiro morto, agora está Vivo. Dá um passo até o trono de Deus. Ele veio! Uma palavra apresenta o mistério.

A ressurreição é sempre um ato. Jesus penetra no âmago da vida do Pai, e daí torna-se a fonte de vida e de unidade para a história toda. Do seio do Pai, a Palavra encarnada irá revelar o sentido da verdadeira vida.

Assim, toma na mão este Livro Selado, e com esse gesto começa uma nova era para a humanidade (v.7). Este Ser-Vivo que penetra no seio da vida de Deus é o mesmo que vem para comunicar a vida e mostrar o sentido de tudo o que acontece.

Ao contemplarmos a vitória de Jesus Cristo sobre a morte, vemos imediatamente o efeito que produz: comunica vitalidade e sentido ao Povo de Deus. O Ressuscitado constitui uma realeza e sacerdotes para Deus, seu Pai, os quais hão de reinar no mundo, A vitória de Jesus deverá, pois, ser continuada e concretizada, de geração em geração, por este Povo de Reis. A sua missão será vencer o mal e promover uma nova comunhão no meio de toda a humanidade.

Neste capítulo encontramos três hinos: 9-10; 12; 13.

Ap 6,1-17 A abertura dos selos

Estes quatro primeiros selos mostram como a ressurreição de Jesus estende a sua eficácia sobre a vitória passada de Israel, a fim de revelar-lhe o sentido e o dinamismo. Isto é feito segundo o esquema de castigo pela “espada, fome e morte”, que os profetas Ezequiel e Jeremias já haviam usado para mostrar o sentido da primeira destruição de Jerusalém (Ez 14,21). Mas o autor aprofunda este dado, a fim de mostrar que é a Ressurreição de Jesus que permite compreender o dinamismo da história da antiga Aliança, da qual vai sair o novo Povo de Deus convocado pelo Ressuscitado.

O primeiro selo aberto tem a voz do Leão (vv.1-2), símbolo da ação divina que realiza as promessas messiânicas feitas à tribo de Judá, na ressureição de Jesus Cristo. Ele indica, pois, que na raiz da história de Israel – o Livro Selado é o AT que já contém o desígnio de Deus para o seu Povo – esta é essa promessa de salvação, que vai se desenvolvendo até chegar ao ponto máximo com a vitória do Ressuscitado.

O Cavalo Branco é o símbolo da eficácia da ação divina (2Mc 11,8) cuja plenitude se realizou na vitória e ressurreição de Jesus Cristo. A cor branca é característica de vitória, sai vencendo para vencer. Sua arma, o arco, é o símbolo da vitória prometida ao povo messiânico (Zc 9,14; 10,4). Assim o sentido dessa história é marcado por um dinamismo de vida que atingirá o ponto alto com a vitória do Ressuscitado, o Messias Pobre que venceu a morte e realizou todas as promessas messiânicas.

Alguns autores consideram que este cavaleiro com arco era símbolo dos Partos, um povo que era uma ameaça permanente na fronteira oriental do Império romano. Chegou a invadir Jerusalém e a ocupar a Palestina durante dois anos de 40 a 38 aC.

O segundo selo aberto tem a voz do Touro, animal do sacrifício para purificação dos pecados do povo (Lv 16,11.18). Aqui simboliza ainda a ação divina. Esta penetra na materialidade dos fatos da história do seu povo, mostrando qual é o seu verdadeiro significado. Tira a paz, para que uns imolassem os outros. A história de Israel foi de fato, marcada por guerras, dissensões e exílio, de tal maneira que a vida deste povo pode ser comparada a um rebanho a caminho da imolação (Jr 11,22;12,3). O dinamismo destes acontecimentos é então marcado pela espada, o sinal do julgamento divino (Is 27,1; Ez (21,19). Esta ação divina o levará a discernir o verdadeiro sentido de sua vocação e o término definitivo de sua história (Lc 2,35). O seu sentido pleno será trazido pela espada que o Messias carrega (Mt 10,34-36).

A cor vermelha simboliza sangue, guerra, o que leva a alguns autores fazerem alusão às revoltas camponesas que se sucediam na Palestina, sobretudo na Galileia, quando os homens se matam entre si, depois da ocupação romana em 63 aC e que recomeçaram com toda a violência em 65 dC até a primeira destruição de Jerusalém, pelos romanos, em 70 dC.

O terceiro selo é a figura do Homem que dará sentido à cena. Ele é o símbolo da ação divina que suscita a inteligência e o discernimento. Também a voz indica que vai s tratar de um discernimento. A fome penetra em toda parte. Mas a balança indica que o julgamento é feito sob medida (Ez 4,16ss; Lv 26,26), pois a ação divina age com justiça. Ela ordena que não sejam destruídos o “óleo e o vinho”. Estes são os bens característicos da terra prometida (Dt 7,13; 8,3). Assim o dinamismo da história de Israel, mesmo quando passa fome e é julgado, deve saber sempre que a medida do julgamento é a misericórdia divina que preserva os bens messiânicos (Dt 8,8).

A cor preta simboliza a fome e a carestia. O trigo já está faltando, por opressão do poder romano, no entanto o óleo e o vinho ainda são preservados, sinal de que o poder opressor tem um limite e que Deus continua protegendo o seu povo.

O quarto Ser-Vivo, a Águia e quem diz “Vem” quando o quarto selo é aberto. A morte e o Hades querem significar a primeira destruição de Jerusalém, pelos babilônicos, momento em que o povo “morreu”, segundo anúncio dos profetas (Ez 14,21;37,14ss), e o país foi recoberto e dominado pelas feras da terra (Lv 26,22.30).

A cor verde é a cor do cadáver, por isso símbolo de doenças, peste e morte.

Na abertura do quinto selo, não há o grito “vem”, não aparece nenhum cavalo colorido, mas ouve-se o grito angustiado dos mártires. As comunidades reconhecem aqui o seu lugar hoje. É o tempo da perseguição! Os mártires estão debaixo do altar, lugar privilegiado para onde escorria o sangue dos sacrifícios. Foram degolados por causa do Testemunho que tinham dado da Palavra de Deus. Eles gritaram (6,10) como antigamente no Egito (Ex 2,23-24;3,7), é o grito dos excluídos, dos torturados, dos descartados e martirizados que, novamente, sobe até Deus. Eles gritam por justiça contra a impunidade. Reivindicam os direitos negados pelo poder opressor. Querem que o Cordeiro, o Defensor, o Advogado, o Vingador (Goêl), torne manifesta na terra a vitória que já foi realizada no céu. Que o Projeto de Deus não se retarde logo!  Eles sabem que são vitoriosos, mas custa ter paciência.

A resposta de Deus é esperar mais um pouco (6,11). A perseguição tem prazo para terminar. Já estamos no quinto selo, faltam apenas o sexto, que vai demorar só pouco tempo. O sétimo será o fim. Enquanto esperam, já receberam uma veste branca, sinal de vitória. Ou seja, como ensinava o livro da Sabedoria (Sb 3,13). Esta leitura dos acontecimentos acima as comunidades; elas descobrem que os fatos não estão escapando das mãos de Deus e que falta pouco para que chegue ao fim. O sol da vitória final já está clareando o horizonte.

Ao esperar mais um pouco, mais gente vai morrer por causa da Palavra. Eles pertencem a comunidade onde não se teme “doar a vida pelo irmão” (Jo 15,13). Até hoje, estamos no quinto selo, entrando no sexto, aguardando a chegada do sétimo. Muita gente ainda está, nos dias atuais, para doar a vida. É impressionante verificar o número enorme de pessoas que foram, e são, perseguidos e assassinados por causa do Reino. “Até quando Senhor?”

A visão do sexto selo é completamente diferente do que vimos nos anteriores. Nos primeiros cinco selos ainda eram evidentes e propositais as alusões aos acontecimentos históricos vividos ou conhecidos pelo povo das comunidades. Agora, no sexto selo, é evidente e proposital a ausência de alusões a qualquer acontecimento histórico. O sexto selo trata do futuro que ainda não aconteceu. E pela maneira de descrevê-lo em suas visões, João confessa, indiretamente, não conhecer absolutamente nada do futuro, a não ser que estará totalmente nas mãos de Deus e que não haverá motivo de medo para os que estão com Deus.

Terremoto, sol negro, lua de sangue, estrelas caindo do céu, vendaval, furacão, céu que se enrola, montanhas e ilhas que mudam de lugar, nada fica no seu lugar. Todas as imagens simbolizam a desestabilização da antiga criação, do mundo cá de baixo, que tinha sido invadida e ocupada pelas forças do mal e da injustiça. Chegou o grande Dia da Ira de Adonai (6,17). Dia terrível para aqueles que querem manter este mundo na injustiça.

Neste capítulo encontramos um hino em 6,10.

Ap 7,1-17: A reunião do Povo de Deus

A primeira cena mostra a convocação dos membros das tribos de Israel. Eles são separados com o selo vivo de Deus, segundo a promessa feita ao profeta Ezequiel (9,1-4). É a realização da promessa da salvação do resto de Israel. Deus haveria de convocar uma nova comunidade. Esta seria composta pelos fiéis israelitas que não caíram na idolatria e permaneceram fiéis ao Deus vivo.

Logo a seguir vem a descrição de um povo numeroso, congregado de todas as nações, tribos, povos e línguas (quatro=todos os cantos da terra). Essa multidão é a Igreja universal; a reunião dos povos todos realiza a grande promessa que Deus fizera ao patriarca Abraão. Não existe mais limites de raça, de cor de cultura. O Povo de Deus é uma família nova.

Os seus membros já participam da ressurreição do Cordeiro. Pois, como ele, estão de pé diante do Trono de Deus. Já possuem também vida nova, simbolizada pelas roupas brancas. Esperam a vinda definitiva do Rei Vitorioso, e por isso levam nas mãos as palmas do triunfo. Louvam a Deus e reconhecem o dom da salvação que dele receberam.

O Povo vive na presença e em comunhão com Deus. Este se comunica com ele. Estende a sua tenda sobre eles. Esta presença consiste na comunhão de mútuo amor e de participação na vida divina. A consumação dessa presença se dará na celestial Jerusalém, quando Deus será tudo em todos e o veremos face a face (Ap 21,3;22,3). A imagem da tenda para significar a presença de Deus vem do Ex 40,1ss, e serviu para exprimir o próprio mistério da encarnação do Filho de Deus: A Palavra de Deus se fez ser humano, e plantou sua tenda entre nós (cf Jo 1,14).

Os participantes deste Povo são também libertados dos perigos mais ameaçadores, como a fome e a sede, e dos perigos da natureza. Mas, a sua vida é, sobretudo, orientada pela marcha positiva rumo à consumação futura.

O Ressuscitado é o princípio e o centro da vida do Povo de Deus. Como o primeiro Adão, ele é o Ser-Vivo, princípio de vida para todos os homens. E também é o Esposo de Eva (Gn 2,24). O povo de Deus recebe a vida que vem do Ressuscitado e vive unido em comunhão com ele. Pois Jesus é o Esposo do seu Povo, realizando com ele o casamento da Aliança. Ele se une com o Povo, e coloca a humanidade toda em marcha para as “Bodas do Cordeiro” – a consumação final da Aliança – na celestial Jerusalém (Ap 21,1-8).

Neste capítulo encontramos um hino em 7,10b; 11b.

Referências
AUTORIA COLETIVA. Evangelho de São João e Apocalipse, roteiros para reflexão IX. São Leopoldo: CEBI – Centro de Estudos Bíblicos. São Paulo: Paulus, 2000.
BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2010.
BÍBLIA DO PEREGRINO. 2ª Ed. São Paulo: Paulus, 2006.
BORTOLINI, José. Como ler o Apocalipse – Resistir e Denunciar. 8ª Ed.São Paulo: Paulus, 2008.
BROWN, Raymond E. Introdução ao Novo Testamento. 2ª Ed. São Paulo: Paulinas, 2012.
CORSINI, Eugênio. O Apocalipse de São João. São Paulo: Paulinas, 1984.
FITZMEYR, Joseph A.; MURPHY, Roland E; BROWN, Raymond E. (Orgs.) Novo Comentário Bíblico São Jeronimo: Novo Testamento e Artigos Sistemáticos. Santo André: Academia Cristã; São Paulo: Paulus, 2011.
MESTERS, Carlos. OROFINO, Francisco. Apocalipse. 2ª Ed. São Paulo: Fonte editorial; Aparecida: Santuário, 2013.
TUÑI, Joseph-Oriol. XAVIER; Alegre. Escritos Joaninos e cartas católicas. 2ª Ed. São Paulo: Ave Maria, 2007.

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