Teologia e Cultura: Um Diálogo Possível (Pt. 1)

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O presente artigo tratará da relação existente entre teologia e cultura, com o intuito de demonstrar a importância da conectividade entre elas. Nesta relação intrínseca se percebe quão rica pode se tornar a teologia, e mais ainda a cultura, em seu sentido amplo e nas suas mais diversas formas de manifestação. A proposta é de um olhar geral, sobre a influência da ciência teológica sobre a cultura. Cultura aqui entendida como a relação entre indivíduos dentro da sociedade, sem especificar qual sociedade, mas o entendimento que se tem sobre as relações humanas com a natureza e está com a sociedade, ou seja: cultura como construção humana.

Embora o tema “teologia e cultura”, possa suscitar certa apreensão em quem lê, no sentido de que a primeira deve prevalecer sobre a segunda, esta não é intenção deste trabalho de fazer proselitismos, nem, tampouco, sobrevalorizar a teologia como ciência humana, que, apesar, de abarcar em seu bojo, diversas outras ciências, muito embora a teologia tenha uma forma, muito própria, de interpretar os acontecimentos da história da humanidade, não se deve estabelecer como ciência superior às diversas áreas do saber humano.

A intenção primeira é de demonstrar a riqueza que pode advir da visão teológica da cultura, bem como a penetração e implicação da cultura, em suas diversas manifestações, na teologia.

Para tanto foi necessário que se conceituasse ambos os termos – teologia e cultura – devido a enorme extensão e variações que deles derivam, portanto, a definição dos termos em si, estão adequados a proposta do presente artigo, porém as diversas ramificações de ambos estão limitadas ao essencial necessário, para não incorrermos em definições muito extensas, o que não é a nossa proposta.

Inicialmente conceituamos o termo Teologia; demonstrando sua etimologia, a origem do termo na Grécia Antiga, além de desdobrarmos e explicarmos algumas ramificações existentes dentro da ciência teológica, com seus diversos olhares das várias realidades humanas.

Na sequência, conceituamos o termo Cultura, além de darmos um rápido olhar para a sua história como manifestação dos sentimentos humanos; além de suas diversas formas de expressão, não só artísticas, mas como formas de viver em sociedade, desde as mais primitivas até os dias atuais.
Para melhor compreensão do artigo, não poderíamos deixar de conceituar o termo Religião, visto que existe uma relação muito íntima com a teologia, que de certa forma, influencia a cultura. No entanto, não podemos nos estender na definição de tal termo, pois, ele por si só já daria um artigo próprio, assim, nos restringimos, também, ao essencial do termo em si.
Tratando especificamente sobre a Igreja Católica, faz se necessário relatar a renovação, ou melhor o aggiornamento, como resultado do Concílio Vaticano II, durante o período de 1962 a 1965.

Por fim, demonstramos como a instituição Igreja se relaciona com a cultura, no sentido de aplicação de sua fé, nos diversos povos e nas suas formas de viver e existir. Neste tópico é percebido como a religião, através da teologia, interfere, algumas vezes, de modo abrupto, nas diversas culturas, influenciando nem sempre de forma pacífica, no modo de vida dos povos, que foram, em certo sentido, invadidos por “evangelizadores” que não necessariamente estavam devidamente preparados para essa missão, sem entrar no detalhe no momento histórico pelo qual passaram.

Teologia: um conceito

Primeiramente é necessário definir o termo teologia. Por sua evidente etimologia, a palavra teologia remete a um tratar de Deus (Theós). Ao mesmo tempo, o sufixo logos indica um tratar segundo, não imediato, mas reflexivo e sistemático: consiste, portanto, no esforço metódico dos crentes para compreender, fundamentar e tirar as consequências de sua própria fé, nos diversos níveis de sua aplicação. Isto permite compreender, desde logo, duas características fundamentais:

  1. A teologia é realidade em mais de uma parte: há teologia onde há religião, pois, todo crente tende necessariamente para essa explicitação. Por isso, deve ser superado o hábito ocidental de pensar que existe somente a teologia cristã, existe igualmente uma teologia islâmica, uma hindu, uma budista etc. E, acima de tudo, esse fato permite compreender a importância atual do diálogo inter-religioso. As religiões tem diferentes modos de referir-se a uma mesma realidade: Deus, o Divino, o Mistério, o Eterno, a Transcendência, o Absoluto, o Nada…, e compete às teologias a elaboração das diferenças, em sua capacidade de complementar-se ou corrigir-se, apoiar-se ou refutar-se, com vistas a melhor compreensão e a vivência mais universalmente humana.
  2. A teologia é magnitude histórica: cada uma delas constitui o resultado de lento e complexo processo de constituição, em múltipla interação com outras religiões, e outras teologias, com a filosofia, e em geral com a cultura e com os diversos desafios sociais. De onde seu caráter ativo, tateante e, por vezes, conflituoso.

A palavra teologia aparece pela primeira vez em Platão (1999) com clara intenção pedagógica de estabelecer normas para a explicação adequada à juventude dos mitos, lendas e história dos deuses. Em Aristóteles (1999), adquirirá tonalidade decididamente especulativa, ao constituir o auge da reflexão acerca do Primeiro Motor.

Os estoicos introduziram tripla divisão:

  • mítica: estudo crítico dos mitos;
  • física: estudo filosófico da natureza do divino;
  • política: que diz respeito à legislação e ao culto público estatal.

Não é difícil vermos anunciados aí alguns dos traços fundamentais de qualquer teologia. Dentro desse horizonte geral, nasce a teologia cristã, a qual, neste artigo, vamos tratar em relação à cultura.

Para a teologia cristã, o Deus de Jesus Cristo está no centro, seu objeto de estudo principal. qualquer reflexão teológica refere-se de alguma maneira a Deus.

Teologia tem a ver com lógia, com palavra, com saber, com ciência, coloca-se Deus no discurso humano. Etimologicamente, significa um “discurso, um saber, uma palavra, uma ciência de ou sobre Deus”.

Portanto, como a teologia é uma função natural da fé e uma dimensão integrante da ação da Igreja no mundo, pois, para o cristão, não é possível crer sem buscar as razões da sua fé e sem declará-las publicamente (1Pd 3,15). A teologia é filha do encontro entre a fé e o intelecto humano.

A semântica estuda o significado das palavras. Debruça-se sobre as transformações de sentido que um termo sofreu ao longo da história. Como o termo “teologia” tem longa história, pode-se acompanhar-lhe as transformações de acepção. No entanto, neste trabalho, não traçaremos os caminhos que o termo “teologia” sofreu desde a sua primeira citação, nem tampouco as várias teologias existentes atualmente, por não se tratar do objeto de estudo

A unidade da teologia e suas especializações

A unidade da teologia se funda em seu único termo: Deus. Não obstante, esta unidade é despedaçada em parcelas cada vez mais divididas entre especialistas, orientados ao estudo de algum aspecto próprio da reflexão teológica.

Assim, em uma época em que se reage contra o estreito círculo em que a teologia viveu, parece que não é suficiente falar só de “teologia”, mas se deve “qualificar” este esforço interpretador da realidade feito na fé. Mas, nesta tarefa se corre o perigo de não sintetizar suficientemente a função utópica (sem lugar) da teologia e sua missão qualificada (aqui e agora). Deveria conceber a teologia como método ou função interpretadora e conformadora do contexto histórico e cultural em que vive, e reconhecer a dose de relatividade que esta função inclui, vinculada estreitamente à mutável condição histórica das épocas nas quais vai se realizando.
Isto posto, elencamos abaixo algumas especializações que a ciência teológica foi se desdobrando ao longo da história, mais especificamente após o Concílio Vaticano II.

Teologia Feminista

A partir dos anos 1970, as mulheres cristãs que participam nos movimentos feministas percebem a necessidade de denunciar as estruturas patriarcais e androcêntricas que as diferentes Igrejas mantêm, elaborando uma reflexão teológica própria que conhecemos com o nome de teologia feminista (TF).

Esta TF trata de desmascarar a função opressiva da teologia patriarcal, apoiando-se na experiência de luta das mulheres contra a discriminação e opressão de que são objeto, visando a conseguir a sua libertação e o reconhecimento de sua dignidade como pessoas.

Propõe-se transformar a teologia e pôr fim ao patriarcalismo que reina na sociedade e nas Igrejas. Como outras teologias da libertação, recorre a métodos de análises críticas, faz uma reflexão construtiva e se propõe uma transformação conceitual.

Teologias da Libertação

Gustavo Gutierrez Merino (teólogo peruano e sacerdote dominicano, considerado por muitos como o fundador da Teologia da Libertação.) faz um diagnóstico certeiro perfeitamente aplicável à teologia cristã, que como a história humana, foi elaborada por mão branca, masculina, da classe social dominante. A perspectiva dos vencidos da história é diferente. Tentou-se apagar de sua memória a recordação de seus combates. Isto os priva de uma vontade histórica de rebelião.

As diferentes teologias da libertação (TL) vem romper essa visão, cujo propósito é reescrever a história na “perspectiva dos vencidos”, e contribuir para recuperar a memória de seus combates pela libertação.
A pluralidade de teologias da libertação dificulta a elaboração de uma teoria geral delas. No entanto, é possível descobrir seus aspectos comuns, pois se trata de teologias perfeitamente conciliáveis que, embora com as suas diferenças, nunca devem ser entendidas como contra propostas. Entre elas dá-se interação e intercomunicação permanentes.

O primeiro elemento em comum das diversas teologias da libertação é o seu lugar de procedência: todas nasceram no Terceiro Mundo ou em âmbito de opressão do Primeiro Mundo. São, portanto, teologias elaboradas na periferia, ubiquadas no reverso da história, onde a pobreza constitui um fenômeno massivo e estrutural. E esta origem define o seu ponto de partida, que não são princípios teológicos abstratos que se aplicam imediatamente à realidade, mas situações concretas de miséria e de opressão, por exemplo: as minorias étnicas como negros, hispanos, asiáticos nos Estados Unidos da América; os próprios negros sul-africanos, indígenas no Brasil, o movimento feminista (citado acima), além da teologia de gênero, que também faz sua afirmação teológica enquanto sofredora de preconceitos.

Esta origem marca também o tipo de perguntas às quais ela tenta responder, que não são, inicialmente e de forma preferencial as surgidas nas indagações acadêmicas, mas brotam da realidade. Esta define também o principal desafio que enfrentam: a libertação das pessoas e dos povos a condições infra-humanas em duas diversas e plurais modalidades: raças marginalizadas, povos dominados, culturas não respeitadas, religiões negadas, mulheres dupla ou triplamente discriminadas, classes oprimidas.
As teologias da libertação obrigam toda teologia a propor de novo os condicionamentos sociais, econômicos, sexuais, étnicos, raciais, nacionais, culturais. Caso contrário, estaríamos diante de um discurso vazio, retórico, mistificador ou, o que é pior, cínico e cúmplice das situações de injustiça estrutural.

As teologias da libertação tentam articular metodicamente, nem sempre com o mesmo acerto, a relação dialética universalidade-parcialidade. Todo o discurso é parcial, relativo, ao mesmo tempo que com pretensões de validade universal. Toda a teologia é constituída a partir do lugar da fé e do lugar social onde se vive a fé. No caso das teologias da libertação, o lugar da fé é a Igreja dos pobres, e o lugar social, o mundo dos excluídos socialmente e dos descartados por uma economia que mata, como nos alerta o Papa Francisco.

Referências
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