O Livro do Apocalipse (Pt 8)

Areopago-Jairo-Apocalipse-8

Esta é a oitava parte [de 9] do estudo do livro do Apocalipse. Para uma melhor compreensão do todo, sugerimos acompanhar as demais partes indicadas e numeradas abaixo. Bom proveito!

Ap 15 – 20
A Vitória sobre o mal é certa, e a destruição dos perseguidores

O sinal grandioso chama a atenção para o desfecho da história. Apresentam-se os mensageiros de Deus que irão trazer os últimos flagelos. Será a realização da sentença sobre o Império Romano perseguidor. E será isso que possibilitará a caminhada dos cristãos para o futuro.

Apresentam-se também as testemunhas vencedoras. São os que não aceitaram ser dominados pela Besta. Recusaram adorar o Imperador como um deus. Não aceitaram as imposições do imperialismo. Pois nas épocas de perseguição colocavam-se turíbulos de adoração ao imperador nos locais de comércio e até nos tribunais de justiça. O gesto de adoração era condição indispensável tanto para as compras, quanto para a obtenção da justiça.

Os vencedores estão numa atitude de vitória e de ressurreição. Estão em pé sobre o mar de vidro, como esse é o símbolo do mal agindo na história (Ap 4,6), apresenta-se aqui também como a imagem do mal dominado e debaixo dos pés dos vencedores. Os cristãos podem estar certos, de antemão, da vitória que o seu testemunho obterá. Vencem o mal nas suas manifestações e nas suas causas que provocam as tensões da história. Essa é a perspectiva que permite começar olhar para o desfecho final (Vv 1-2).

Na cena anterior em que as testemunhas foram apresentadas apenas ensaiavam o cântico da vitória (Ap 14,1ss). Agora o hino é entoado porque a vitória é certa. Trata-se semelhantemente ao Cântico de Miriam, que celebrou a passagem do mar e a libertação do cativeiro do Egito.

As testemunhas cristãs celebram um novo Êxodo e uma libertação mais profunda, realizada pela morte e ressurreição de Jesus. Por isso o Cântico novo é também chamado o Cântico do Cordeiro (v3).

O conteúdo do louvor é a manifestação da sentença de Deus sobre a história. Manifesta a sua presença e revela a sua verdade, a fim de mostrar qual é o caminho a seguir (v.4).

A história está nas mãos de Deus. As forças que a agitam, por desordenadas que sejam, passam pela liberdade humana. Por isso não há mais lugar para fatalismo, e sim para a esperança da transformação.

Um dos traços da antiga esperança judaica era a passividade: O Reino de Deus virá por uma força vertical, basta esperar (Dn 2), mas o cristianismo transformou tal atitude; Deus vem, e por isso a esperança é ativa: o Reino se aproxima, por isso convertam-se e creiam no Evangelho! Essa é a atividade do testemunho que vai afastando tudo o que impede a manifestação do mundo novo.

Tal é o papel do testemunho, tal é a vitória contra as forças do mundo. E a raiz da vitória está na fé que opera pelo amor. Aí está a semente do mundo novo.

Desde o livro do Êxodo as pragas que caíam sobre os ímpios eram um apelo à conversão. Ao perceber o poder e o julgamento divinos, as pessoas injustas recebiam ainda uma última oportunidade para mudar sua maneira de agir, abrindo-se para o bem e adorando a Deus.

Assim, a liturgia celeste apresenta os sete mensageiros de Deus que irão realizar o seu julgamento por todos os recantos da terra (vv. 5-8). Deus manifesta a sua presença e vai derramar as taças da sua ira. Agirá com justiça para destruir a maldade que se concentrou no trono da Besta. Mostrará que a cidade toda está dominada por um espírito de maldade: são os espíritos diabólicos que enganam o povo e o dominam (Ap 16,13-14).

As quatro primeiras taças ainda representam a fase preparatória do ato de Justiça. A primeira é uma ferida maligna, que atinge toda a população que aceita a tirania da Besta, traz a sua marca e adora a sua imagem (v.2). A segunda, que atinge o mar, indica que o julgamento é universal. E a terceira é derramada nos rios, tudo se torna sangue, vermelho como a Besta assassina (vv.3-7). Pois, se derramou o sangue dos profetas, agora deve viver num mundo impregnado de sangue. É no derramamento do sangue das testemunhas que irá se concretizar o justo julgamento de Deus.

A quarta taça atinge o sol (vv. 8-9), e a imagem do fogo sugere sempre a ação da justiça divina que atinge a história. Por isso pode-se dizer que nesta imagem vê-se o sangue dos profetas tornar-se mais quente do que o sol. Os perseguidores dos justos são queimados pelo calor intenso da justiça divina, verdadeira e eficaz. Entretanto, isto não os leva ainda à conversão. Começam a blasfemar e não reconhecem a sabedoria única de Deus.

O ato do julgamento vai se intensificando e atinge o ponto máximo ao ferir o trono da própria Besta (vv. 10-11). O sangue dos justos atinge até o centro do poder. Este reino se transforma, então, em trevas totais. Contudo, ainda agora, os perseguidores, como outrora o Faraó, persistem na malícia e não se convertem.

A Justiça chega à realização plena quando revela qual é o espírito que inspira e impulsiona o mundo da maldade (vv. 13-16). Numa caricatura da Trindade – Dragão, Besta, Falso Profeta – é apresentado o espírito de maldade e da iniquidade, na imagem de “espíritos impuros, como rãs”. A maldade se torna manifesta: engana o povo através de maravilhas operadas, seduz os reis da terra e reúne-os para uma investida ainda maior. No entanto, toda esta força do mal, que procura lutar contra Deus, será destruída no Grande Dia da Consumação (vv. 14-16; Ap 20,8).

A última taça (vv. 17-21) mostra que será destruída a cidade edificada na idolatria e no poder tirânico. Deus manifesta sua presença, como na teofania do monte Sinai (v.18), e destrói o mundo da iniquidade.

Então a capital e todas as cidades satélites caem. O mundo novo anunciado pelos profetas – cidades, ilhas e montes que se aplainam – começa a despontar das ruínas do mundo antigo que se esvai. Os fenômenos cósmicos indicados simbolizam assim as potências terrestres surpreendidas pelo ato da justiça divina que as atinge.

Estas cenas que encerram um julgamento sobre o mundo romano antigo – mundo da religião imperial e do sistema jurídico romano – indicam como Deus age na história e aí realiza o seu julgamento. Manifesta a sua verdade e sua vontade de reunir a todos os homens, através do testemunho dos que creem em Cristo.

O testemunho diz a verdade, luta pela justiça e assim destrói a iniquidade sobre a qual se baseia a convivência social.

Ap 17,1-18 A mentira da cidade é revelada, queda de Babilônia

Por detrás das descrições vemos a Roma imperial (vv1-6), ela é comparada a uma prostituta montada sobre a besta. Era a cidade pagã, idólatra, apoiada sobre o poder dominador dos imperadores. Era a cidade-mãe de todas as cidades do Império. Ela é comparada a uma Mulher, para fazer contraste com a Mulher de Ap 12. É o símbolo do mundo antigo que deve ser destruído.

Roma veste-se vaidosamente, satisfeita com a própria importância e glória, está inebriada com o sangue dos justos. Entretanto, a visão irá dizer que estamos apenas no início da compreensão do mal que dominou essa cidade.

O seu poder e prestígio vem da Besta (v3). A força e o poder do mal vão além da idolatria. O Dragão e a Besta mostram que toda a cidade, nas suas forças ambíguas e nos seus sistemas, foi totalmente impregnada pelo pecado e pela sede do poder absoluto; ela quer vencer todas as cidades do mundo, e nisso procura vingar-se do próprio Ressuscitado.

O significado dessa situação de iniquidade é resumido pelo nome simbólico de Babilônia, a “confusão”. Babilônia tornou-se o símbolo do orgulho e da confusão que nascem da auto suficiência e do egoísmo humanos (Gn 11; Jr 51).

A descrição da cidade torna-se mais clara nos vv. 8-18. Encontramos aí uma alusão à sucessão dos imperadores romanos, chamando-se a atenção principalmente para aqueles que perseguiram os cristãos. No v. 8, a Besta é apresentada como a encarnação do mal que domina o Império, e focaliza-se a figura de um só homem, provavelmente Nero (Vv.11.16).

Esta Besta quis ser divina, tornou-se a caricatura de Deus (Ap1,4) e de Cristo (Ap 1,18). Ela pretende a própria perenidade divina.

Nos vv. 10-12, o simbolismo sugere aqueles imperadores que já caíram e aqueles que hão de reinar ainda. E aqui se exerce a sagacidade dos historiadores que procuram identifica-los com precisão, a partir do imperador Augusto chegando até Domiciano.

Todos eles dominam sobre os povos, aqui simbolizados pelas águas impetuosas (vv. 1.15), mas, no meio dessa iniquidade universal, Deus age; os reis dos outros países, têm inveja dos imperadores romanos, e, sem querer tornam-se instrumentos do poder divino para destruir o orgulhoso poder romano (v.3).

A visão termina com esperança: Roma vai cair e será destruída. Os cristãos, que perseverarem, hão de ver o triunfo do Ressuscitado contra as pretensões imperiais. Pois o senhor da história não é o imperador romano. O Único Senhor é Cristo (v.14). No meio da perseguição, e numa situação de dominação, os cristãos têm a certeza de que serão vencedores. Sua vitória será a conquista da verdadeira liberdade, a base da construção da cidade solidária.

Ap 18,1-24 Acabou a mentira e a confusão

A destruição da Roma perseguidora e idólatra é celebrada nos moldes das antigas lamentações sobre a queda das grandes cidades: Nínive, Tiro, Jerusalém. A grandeza e o orgulho humanos são suprimidos numa só hora. A cidade que se inebriou com o sangue das cristãs e dos cristãos (v.24) desaparece, mas o testemunho continua e inaugura um mundo diferente daquele da opulência dominadora.

O anjo desce do céu e sua presença é a explicação da grande queda (vv.1-3). No v.3 temos, com efeito, o sentido do julgamento de Roma, aqui identificada como a cidade da “confusão”: todos os povos, reis e comerciantes da terra inteira foram contaminados pelo espírito de prostituição que a metrópole imperial comunicara e infundira neles.

O próximo trecho (vv.4-8) começa com um apelo ao povo fiel a Deus: não fiquem envolvidos nos pecados da grande cidade. Esta cidade merece o castigo por sua culpa; ela se auto-destrói. A lei de talião dos tempos antigos (vv.6-7) mostrava essa forma autodestruidora do mal, tudo o que a cidade fez, ela há de receber em dobro. E afirma-se a esperança na justiça de Deus: se Ele é Todo-Poderoso e Justo, então o centro da iniquidade tem que desaparecer da face da terra. Deus não deseja a vingança, mas sua bondade não suporta o mal, Ele o destrói para que a sua Vida seja visível e acessível aos seres humanos.

No sistema social da grande cidade, três grupos aproveitam-se do povo e se apoiavam na tirania romana:

  • Os governadores, ou reis da terra (vv.9-10);
  • Os comerciantes (vv. 11-17a);
  • Os traficantes internacionais.

São as forças materiais a serviço da Besta, e no dia a dia manifestam o espírito do Dragão, são os interesses econômicos e materiais que vêem no poder tirânico uma garantia de subsistência e de crescimento. Formam uma mentalidade e um sistema baseados num “espírito” egoísta e injusto, que se impõe na raiz da organização social de tal maneira, que as pessoas se sentem mergulhadas numa atmosfera de egoísmo e injustiça quase que impenetráveis e inabaláveis.

A lamentação que estes grupos fazem pela queda da cidade injusta nasce do egoísmo, pois o poder tirânico de Roma era o sustento do seu próprio proveito e interesses.

Nos vs. 21-24 temos uma ação simbólica: anuncia o desaparecimento de Roma=Babilônia. Já no livro de Jr, o profeta anunciou a destruição da antiga cidade de Babilônia, fazendo também um gesto simbólico: jogou uma grande pedra no rio Eufrates, para significar que a cidade iria desaparecer por completo (Jr 51,63-64). Tal será o destino da Roma imperial; as comunidades cristãs perseguidas tinham a certeza de que apesar do grande poder, o Império romano haverá de cair, e a profecia realizou-se.

Deus mostra que assim como a pedra desaparecera sem deixar nenhum traço, o mesmo irá acontecer com todo o sistema romano e com tudo o que traz de idolatria, injustiça e opressão.

Através dos séculos nenhum centro de imperialismo e de idolatria permaneceu para sempre. A leitura apocalíptica chega mesmo a dizer que a história é uma sucessão de impérios totalitários que se vão destruindo sucessivamente. Pois somente Deus e o seu Reino são perenes. A sua vitória sobre a pretensão da cidade “confusão” é radical. A sua realeza não suporta a ambiguidade e a iniquidade injusta das forças que constroem a cidade.

Ap 19,1-21 O Ressuscitado é o vencedor

O capítulo 19 tem duas partes bem distintas. A primeira (19,1-10) é a continuação da celebração do capítulo 18 e traz uma nova série de cânticos. Com esses cânticos termina a descrição da queda de Roma, anunciada pelo anjo em Ap 14,8. Na segunda parte (19, 11-21), começa a descrição da derrota definitiva do poder do mal, anunciada anteriormente pelo terceiro anjo em 14,9-11.

O capítulo 18 retratava a consternação! Os comerciantes exploradores, arruinados lamentavam a perda de seus bens. Ap 19,1-10, ao contrário, traz um canto que é só alegria e gratidão. A letra desse canto revela o lado positivo da queda de Roma, enxerga nela um ato da justiça divina e um convite ao louvor (19,1-6). A justiça divina não só julga, mas também faz a justiça acontecer. Ela recoloca tudo em seu devido lugar: Roma imperial, foi para o fundo do mar, do abismo, e o povo de Deus foi parar no coração do Cordeiro a fim de ser sua esposa (Ap 19,7-8).

O Apocalipse é um dos livros mais alegres da Bíblia, em sua pobreza, os perseguidos, os excluídos, os oprimidos, vivem uma felicidade que os poderosos, em sua riqueza, não conseguem compreender nem possuir: “O pouco com Deus é muito!”, diz o ditado popular. Por trás da dor da perseguição, os apocalípticos encontram a certeza de estar na mão de Deus. A alegria explode em canto de louvor e de ação de graças. Trata-se da felicidade messiânica do mundo lá de cima que penetra no mundo cá de baixo. É a alegria plena (Jo15,11; 17,13) que ninguém poderá tirar de nós (Jo 16,22). A felicidade que vem de Deus é diferente da felicidade oferecida pela propaganda de Roma. As bem-aventuranças mostram que a visão de Deus é diferente da visão do Império. Elas ajudam a ler os fatos e animar a fé.

Em Ap 19,10 terminou a descrição da queda de Roma, anunciada pelo segundo anjo (14,8). Em 19,11, começa a descrição da derrota definitiva do poder do mal, anunciada pelo terceiro anjo (Ap 14,9-11) e executada pela Palavra de Deus. A palavra de Deus aparece como um grande guerreiro que derrota a Besta e o falso profeta. É a “última condenação”, tal como foi prevista no livro da Sabedoria em 12,27; 18,14-16).

Este capítulo com suas imagens violentas mostra que ninguém é capaz de impedir a realização do julgamento de Deus. Mesmo os que lutam contra acabam contribuindo para a sua realização. O julgamento começou pela superfície, destruindo a cidade de Roma e o seu Império (Ap 15-18). Mas não para aí, vai mais fundo e, que no capítulo 19, ataca o poder do mal que estava por detrás do Império romano, a saber, a ideologia, representada pela Besta e pelo falso profeta.

Nos vv. 11-21 fica bem claro que o poder vitorioso de Deus como Juiz está encarnado em Jesus, o cavaleiro divino. O autor ajuda as comunidades perseguidas a entender qual o Cristo em que elas acreditam. Ao lado da visão inaugural (Ap 1,9-20) e a visão do Cordeiro (Ap 5,1-14), esta é a visão em que mais fortemente se acentua que Jesus é o Senhor da história. Jesus apareceu, nascendo como menino (Ap 12,5). Morreu e ressuscitou, vencendo o Dragão (Ap 12,5-9). Como Cordeiro vitorioso (Ap 17,14), ele conduz o exército dos Servos de Deus (Ap 14,1-5). Agora, no fim, o Menino virou cavaleiro poderoso que vence e derruba a Besta e o Falso Profeta.

Nesta visão do Cavaleiro Divino, a imagem de Jesus transparece nos títulos, nas atitudes, nos símbolos e nos nomes. Com exceção dos nomes, as três primeiras imagens estão elencadas no capítulo19. 

Ap 20,1-15: A morte da morte. A preparação para a grande festa

Este é o capítulo que cria a maior parte dos problemas e dificuldades. Aqui aparecem, juntos, em apenas quinze versículos, quase todos os símbolos e visões que causam dificuldades. Porém, por incrível que pareça, este capítulo é também o que tem a mensagem mais clara! É absolutamente certa a destruição radical e total de todo e qualquer poder do mal, inclusive da própria morte, que ameaça a vida e a fé do povo. A vitória final é tão certa que, apesar de futura, ela é descrita como um fato que já pertence ao passado. Por isso, os tempos se misturam: passado, presente e futuro. 

Em Ap 11,18 anunciou-se o julgamento de Deus que tem dois lados: condenar e recompensar. Aqui no capítulo 20, um lado do julgamento alcança seu objetivo: o lado da condenação. O mal é condenado ao desaparecimento, e a sentença é executada. Desaparece o mundo cá de baixo, sem deixar vestígio! Remove-se, assim, o último obstáculo para que possa aparecer o outro lado do julgamento: o lado da recompensa para os que praticam o bem e foram fiéis ao Projeto de Deus. Este outro lado será descrito nos capítulos 21 e 22. Será a manifestação do mundo lá de cima.

Como entender os mil anos?

Ao longo deste capítulo corre o fio escuro dos mil anos (Ap 20,3.4.6.7). Tomando ao pé da letra, o capítulo 20 oferece o seguinte quadro. Primeiro teríamos os mil anos do Reinado de Cristo (20,1-6). Em seguida, haveria um breve tempo de perseguição, seguida por uma intervenção de Deus que marcaria o fim do poder do Dragão (20,7-10). Depois viria a destruição do velho céu e da velha terra, da morte e da morada dos mortos (Ap 20,11-15), seguida pela vinda do novo céu e da nova terra, descritos nos capítulos 21 e 22.

Uma das possíveis interpretações para os mil anos a partir de Ap 20,1-10 é considera-lo como um dia da Nova Criação. Este dia começou quando Jesus Ressuscitado, o Messias, depois de ter vencido Satanás no mundo de cima (Ap 12,10-12), veio revelar esta vitória aos que vivem no mundo de baixo. Assim como nos Evangelhos a vitória de Jesus sobre os demônios era sinal de que o Reino de Deus estava chegando (Lc 11,20), aqui a vitória definitiva de Jesus sobre o Dragão significa a instauração definitiva do Reino, a conclusão total da obra de Deus. João lembra desta forma que a Nova Criação também terá um “sétimo dia” e que este dia também durará, como os outros mil anos.

Estes mil anos não podem ser calculados na base do relógio e do calendário. O número mil é simbólico. Ele indica o tempo completo que vai desde a ressurreição de Jesus até o final da história. Quantos anos terá este tempo completo, ninguém o sabe: “nem os anjos, nem o Filho, mas só o Pai” (Mc 13,32). O término depende do Pai. Depende também da fidelidade das comunidades. Elas podem apressá-lo ou atrasá-lo (At 3,19-20). A chegada do fim é, ao mesmo tempo, dom e tarefa, fruto da graça e da observância.

Portanto, façamos a parte que nos cabe como batizadas e batizados: apressemos o tempo da vitória, o tempo de Deus o Κάιρος (káiros).

Referências
AUTORIA COLETIVA. Evangelho de São João e Apocalipse, roteiros para reflexão IX. São Leopoldo: CEBI – Centro de Estudos Bíblicos. São Paulo: Paulus, 2000.
BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2010.
BÍBLIA DO PEREGRINO. 2ª Ed. São Paulo: Paulus, 2006.
BORTOLINI, José. Como ler o Apocalipse – Resistir e Denunciar. 8ª Ed.São Paulo: Paulus, 2008.
BROWN, Raymond E. Introdução ao Novo Testamento. 2ª Ed. São Paulo: Paulinas, 2012.
CORSINI, Eugênio. O Apocalipse de São João. São Paulo: Paulinas, 1984.
FITZMEYR, Joseph A.; MURPHY, Roland E; BROWN, Raymond E. (Orgs.) Novo Comentário Bíblico São Jeronimo: Novo Testamento e Artigos Sistemáticos. Santo André: Academia Cristã; São Paulo: Paulus, 2011.
MESTERS, Carlos. OROFINO, Francisco. Apocalipse. 2ª Ed. São Paulo: Fonte editorial; Aparecida: Santuário, 2013.
TUÑI, Joseph-Oriol. XAVIER; Alegre. Escritos Joaninos e cartas católicas. 2ª Ed. São Paulo: Ave Maria, 2007.

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