As viagens de Paulo (Pt 1)

O presente artigo apresenta as duas primeiras viagens que Paulo realizou (a terceira e quarta viagens estão em outro artigo com o mesmo título), levando o Evangelho de Jesus Cristo. Algumas comunidades foram fundadas por ele, outras, já havia embriões do cristianismo, que Paulo fortalece com suas pregações.

Descrevemos com alguns detalhes, as cidades percorridas por Paulo e seus companheiros, para que fique mais claro, ao leitor, as diversas situações: políticas, sociais, econômicas, de perigo, mas também, de sucesso, que ele viveu ao, destemidamente, cumprir a missão que lhe foi delegada pelo próprio Cristo.

Primeira viagem

Ano de 46 a 52; At 13-14

Antioquia: A primeira viagem de Paulo inicia em Antioquia da Síria (Atos dos Apóstolos (At) 13,13). Havia ali uma comunidade formada por judeus e pagãos convertidos. Foi nessa comunidade que Paulo percebeu a urgência de sua missão para fora dos confins da Palestina.

Antioquia era a terceira cidade do império romano, vindo logo depois de Roma e Alexandria. A cidade era uma encruzilhada entre dois mundos culturais diferentes: o mundo semita (judaico) e o mundo grego. Era ponto de passagem obrigatória para os que vinham do Oriente.

Salamina: De Antioquia, Paulo, Barnabé e João Marcos navegaram até a cidade de Salamina, na ilha de Chipre, pátria de Barnabé. Havia ali uma importante comunidade judaica. Chegando à ilha, anunciam a Palavra de Deus nas sinagogas (At 13,4-5).

Pafos: Atravessando a ilha a pé, chegaram a Pafos. Paulo anuncia a Palavra ao procônsul Sérgio Paulo, que abraça a fé (At 13,6-12). Na casa do procônsul havia um mago de nome Elimas, sinal de que o racionalismo grego estava em decadência e as pessoas procuravam os cultos de mistérios, a astrologia e a magia como formas de religião.

Perge: Paulo, Barnabé e João Marcos deixam Pafos e navegam rumo à região da Panfília. Desembarcaram no porto de Atalia e se dirigiram a Perge (At 13,13-14). A região da Panfília possui clima subtropical. Havia muitas cidades importantes, mas Paulo decidiu entrar pelo continente, rumo à região da Pisídia. João Marcos desistiu da viagem e voltou para Jerusalém (At 13,13b).

Antioquia da Pisídia: Era a cidade mais importante da região. Havia muitas colônias judaicas nessa região. Os acontecimentos narrados pelos At a respeito dessa cidade (At 13,14-41) são típicos para se compreender o conteúdo da pregação que Paulo dirige aos judeus. Mostram, ao mesmo tempo, a acolhida ou rejeição da Palavra (At 13,42-47). No plano dos Atos dos Apóstolos vai ficando cada vez mais clara a orientação de Paulo aos pagãos (At 13,48-49). Fica evidente, também que de agora em diante a perseguição irá ser companheira constante dos missionários (At 13,50).

Icônio: Expulsos de Antioquia da Pisídia, Paulo e Barnabé vão para Icônio (At 14,1-5). Aí se repetiram fatos semelhantes aos de Antioquia da Pisídia. Diante da ameaça de apedrejamento, devem fugir para a região da Licaônia.

Listra: Nesta cidade Paulo curou um aleijado (At 14,8-10). O episódio serviu para que aí fosse anunciado o Evangelho de Jesus. Contudo, os que perseguiam Paulo em Antioquia da Pisídia e Icônio chegaram à cidade. Paulo é apedrejado e tido por morto. No dia seguinte, partiu para Derbe com Barnabé (At 14,19-20).

Derbe: É a última cidade visitada, antes que retornem ao ponto de partida. Depois de anunciar o Evangelho nessa cidade, retornam, passando por Listra, Icônio e Antioquia da Pisídia, onde haviam sofrido perseguições. A volta dos missionários se caracteriza pelo fortalecimento do ânimo dos discípulos, pela exortação à perseverança na fé e pela consciência de que é preciso passar muitas tribulações para entrar no reino de Deus (At 14,22). Para organizar as comunidades fundadas, foram designados anciãos em cada uma delas (At 14,23).

Na viagem de volta, Paulo e Barnabé se detêm por certo tempo em Perge, onde anunciam a Palavra. Daí vão ao porto de Atalia, embarcando para Antioquia da Síria, o ponto de partida (At 14,25-26).

Avaliação da primeira viagem: Chegados ao ponto de partida, Paulo e Barnabé prestam contas dos acontecimentos da primeira viagem. A grande constatação é a de que Deus tinha, por meio deles, aberto as portas da fé aos pagãos (At 14,27).

Segunda viagem

Ano 49-52; At 15,39-18,22

Entre a primeira e a segunda viagens acontece o, chamado, Concílio de Jerusalém (At 15,1-29), do qual participam Paulo e Barnabé. Foi um acontecimento decisivo para a Igreja primitiva. O resultado da primeira viagem de Paulo deixara bem claro que os pagãos também tinham sido chamados à fé (cf também At 10). Tratava-se, portanto, da inculturação da Palavra num universo de valores do mundo semita: como evangelizar culturas diferentes sem judaizá-las?

Preparando a segunda viagem: Paulo e Barnabé, acompanhados por Judas e Silas (ou Silvano), deixam Jerusalém e voltam a Antioquia da Síria, levando consigo a carta com as conclusões do Concílio de Jerusalém (At 15,22-29). Durante os preparativos da segunda viagem surgiu forte disputa entre Paulo e Barnabé, que acabaram se separando. Barnabé queria levar junto João Marcos, Paulo se opôs, porque João Marcos havia desistido durante a primeira viagem, Barnabé, então, toma consigo João Marcos e via para Chipre. Paulo toma consigo Silas (ou Silvano) e juntos atravessam a Síria, rumo noroeste (At 15,36-41). De Antioquia da Síria partia uma estrada que levava a Tarso e à Ásia Menor.

Tarso: É a cidade onde Paulo nasceu, entre os anos 5 e 10. Os Atos dos Apóstolos nada fala a respeito de possíveis atividades missionárias de Paulo nessa cidade durante a segunda viagem.

Derbe, Listra, Icônio e Antioquia da Pisídia: Paulo já visitara essas cidades durante a primeira viagem. A tarefa da primeira etapa da segunda viagem é a de confirmar as comunidades ali fundadas. Em Listra, Paulo encontra Timóteo. Circuncida-o e leva-o consigo. Timóteo será um grande colaborador de Paulo, que o considera seu filho querido (1 Cor 4,17; 1Tm; 2Tm).

Paulo e Timóteo atravessam a região da Frígia e da Galácia (At 16,6). Os Atos nada falam da atividade de Paulo na Galácia. É provável que, por causa de uma doença, tenha sido obrigado a deter-se nessa região, fundando aí algumas comunidades (Gl 4,13).

Trôade: Deixando a Galácia, os missionários chegam a Trôade (At 16,11). É provável que também Lucas, a partir desse momento, pertença ao grupo de Paulo.

Neápolis: De Trôade, Paulo e seus companheiros navegam para Neápolis, onde chegam depois de dois dias de viagem. Por Neápolis passava a Via Egnatia, uma longa estrada romana que unia Bizâncio às costas ocidentais do Épiro. Atravessando o mar Adriático, a Via Egnatia continuava na Via Ápia, que de Brindes levava a Roma.

Filipos: Filipos era uma das principais cidades da Macedônia. Evangelizando esta cidade, Paulo está entrando na Europa, pois Filipos era uma colônia romana. A evangelização se depara, assim, com nova realidade: a cultura e mentalidade romanas. Completa-se, dessa forma, o quadro cultural, social e religioso em que Paulo se movimenta: judeu de nascimento e fariseu por formação, cidadão romano, evangeliza o mundo grego e o mundo romano.

Em Filipos nasce a primeira comunidade cristã na Europa. Os At não falam da organização dessa comunidade. A carta que Paulo, mais tarde, escreve a essa comunidade, fala de “epíscopos e diáconos” (Fl 1,1) e mostra como essa comunidade se estruturou, bem ao estilo da organização romana.

Os acontecimentos de Filipos (At 16,16-24) levaram Paulo e Silas (ou Silvano) ao castigo dos açoites e à prisão, em discordância com as normas do direito romano, que não permitia castigos sem antes ter sido aberto um processo (At 16,37). Seguindo a Via Egnatia, Paulo e Silas (ou Silvano) passam por Anfípolis e Apolônia, para chegar a Tessalônica (At 17,1).

Tessalônica: principal cidade da Macedônia, Tessalônica era metrópole cosmopolita. Sua população era formada por gregos, romanos, judeus e orientais. Havia ali grande quantidade de religiões. Paulo fundou uma pequena comunidade que, desde o início, demonstrou sua perseverança nas tribulações (1Ts 1,6-7). A inveja dos judeus suscitou perseguição contra Paulo e Silas, forçando-os a fugir, de noite, para Beréia (17,2-10a).

Beréia: Os judeus de Beréia eram mais pacíficos, de sorte que acolheram de bom grado os missionários (At 17,10b-12). Contudo, visto que a cidade ficava relativamente perto de Tessalônica, os que perseguiam Paulo e Silas aí chegaram, forçando Paulo a partir sozinho, deixando Silas e Timóteo na cidade (At 17,13-15). Paulo dá outra versão dos acontecimentos (1Ts 3,1): os três teriam fugido de Beréia para Atenas. Dessa cidade, Timóteo foi enviado a Tessalônica a fim de averiguar se a comunidade tinha conservado a fé ou não. Timóteo se reencontra com Paulo em Corinto.

Atenas: Por mar, Paulo chegou a Atenas, centro cultural do mundo grego. A estratégia de Paulo era atingir grandes cidades da época, fundar aí comunidades que se encarregariam, depois, de levar o Evangelho às cidades menores. Em Atenas ele se depara com a enorme variedade de religiões e filosofias. Tenta discorrer com os filósofos estoicos e epicuristas no Areópago. Mas se fracasso é evidente (At 17,16-34). O episódio de Atenas foi determinante para os rumos da pregação de Paulo (ver a polêmica contra a “sabedoria do mundo” em 1Cor 2,1-4,13).

Paulo vive, nesse período, dois problemas cruciais: o da rejeição da Palavra por parte de muitos judeus e da elite intelectual, e o drama de um missionário continuamente perseguido e rejeitado. As perseguições e torturas eram séria ameaça à credibilidade daquilo que anunciava.

Corinto: Era uma cidade com cerca de meio milhão de habitantes. Paulo aí viveu por um ano e meio (At 18,1-17). Inicialmente morou com o casal Áquila e Priscila, que eram tecelões. Ele também conhecia essa profissão e trabalhou na confecção de tendas (At 18,3). Aí teve início uma comunidade cristã composta em sua maioria de gente pobre e escrava (1Cor 1,26). Os escravos, além dos trabalhos domésticos e da lavoura, eram requisitados para o tráfego do Diolkos, uma estrada pavimentada, com seis quilômetros de extensão, que unia o golfo de Sarônico ao de Corinto. Os navios eram puxados de um porto a outro, pelos escravos, ao longo dessa estrada, para não terem que navegar ao sul pelo Peloponeso, lugar sempre perigoso à navegação. É a esses escravos coríntios que Paulo afirma: não há mais judeu ou grego, escravo ou livre (1Cor 12,13; Gl 3,28).

Em Corinto nasce o primeiro livro do Novo Testamento: a Primeira Carta aos Tessalonicenses, depois que Timóteo chegou a Corinto com boas notícias sobre aquela comunidade (1Ts 3,6).

Corinto é um ponto de referência importante para a atividade missionária de Paulo. A comunidade dessa cidade foi a que mais inquietou o Apóstolo. Teve que visita-la mais vezes; mandou-lhe Timóteo e, depois Tito, para apaziguar os ânimos; aí sua autoridade apostólica foi questionada e posta de lado. Paulo escreveu diversas vezes aos coríntios (2Cor é uma coleção de bilhetes escritos em ocasiões diferentes). As cartas revelam os muitos problemas internos e externos enfrentados por aquela comunidade.

A atividade de Paulo em Corinto apresenta duas etapas distintas: a primeira entre judeus (At 18,6) e a segunda entre pagãos (At 18,9-10), depois que os judeus o rejeitaram.

Cencréia: A saída de Corinto marca o retorno da segunda viagem. De Corinto, Paulo vai a Cencréia, tomando um navio que o levaria de volta à Síria. Após breve parada em Éfeso, partiu para Cesaréia e daí voltou a Antioquia da Síria. (At 18,18-22).

Referências
Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2012.
Mapas da Bíblia. São Paulo: Paulus, 1987.

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2 respostas em “As viagens de Paulo (Pt 1)”

Olá querido Fábio, paz e bem.
Obrigado pelo comentário, e pela visita ao nosso site.
Leia os outros artigos dos nosso amigos, também.
Abraços

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