Jorge Mário Bergoglio, o Papa Francisco (Pt 2)

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Quem foi Jorge Mário Bergoglio antes de se tornar o Papa Francisco? Qual é a história daquele que hoje está à frente da Igreja Católica Apostólica Romana?

Esse artigo inicia-se com o episódio da renúncia de Joseph Ratzinger, Papa Bento XVI, e depois sobre a novidade da eleição de um Papa Latino Americano. Revisita-se também a influência histórica dos Jesuítas na Argentina, a contribuição como influência cristã para um povo miscigenado e seus desdobramentos na formação do perfil de religiosidade eclesiástico, e por último a biografia de Jorge Mario Bergoglio, desde seu nascimento até a sua chegada ao Papado.

Jorge Bergoglio, sacerdote Jesuíta

Em 11 de março de 1958, Bergoglio entrou para o noviciado na Companhia de Jesus, ordem fundada por Ignácio de Loyola:

Terminou os estudos humanísticos no Chile e, em 1963, voltou para a Argentina, onde se formou em Filosofia no Colégio Máximo de São Miguel. Entre 1964 e 1965, ensinou literatura e psicologia no Colégio da Imaculada de Santa Fé e, em 1966, passou a lecionar as mesmas matérias no Colégio do Salvador, em Buenos Aires. Estudou teologia de 1967 a 1970. Em 13 de dezembro de 1969, foi ordenado sacerdote pelo Arcebispo Ramón José Castellano. Foi enviado para fazer a terceira postulação da formação jesuítica em Alcalá de Henares, na Espanha. Em 2 de abril, fez sua profissão de fé com os jesuítas.

STRAZZARI, Francesco.

Em 31 de julho de 1973, o Padre Jorge Mario Bergoglio foi eleito provincial dos jesuítas na Argentina e ocupou o cargo até 1979. Em 1973 decidiu que a Companhia deixaria a direção da Universidade do Salvador, em Buenos Aires. Depois de seis anos como provincial, voltou a trabalhar no campo universitário. Entre 1980 e 1986 foi novamente reitor do Colégio Máximo e primeiro pároco de uma nova paróquia em São Miguel, a uns 30 quilômetros da capital federal, dedicada a São José, do qual sempre foi muito devoto. Em março de 1986 foi à Alemanha e frequentou por pouco tempo o prestigioso centro de estudos Sankt Goegen de Frankfurt e o arquivo Guardini, em Mônaco, para aprofundar seu pensamento principalmente com relação a sua obra filosófica: Der Gegensatz (Os opostos em tensão).

Quando voltou, foi enviado ao Colégio do Salvador de Buenos Aires, e, sucessivamente, à Igreja da Companhia, em Córdoba, como diretor espiritual e confessor. Bergoglio orienta-se pelo livro de Santo Ignácio, Os Exercícios Espirituais, que indica o caminho de todo jesuíta. A espiritualidade de Bergoglio e seu modo de ser, pela obra, é marcado de forma peculiar, conforme a explicação da teóloga brasileira, muito estudiosa na área da teologia e colaboradora prestigiosa da revista Concilium, Maria Clara Lucchetti Bingermer.

Ela observa que a formação de Bergoglio foi influenciada pelo esquema clássico da Companhia de Jesus, caracterizado por uma espiritualidade cristocêntrica e essencialmente missionária, baseada no discernimento do espírito para buscar e encontrar a vontade de Deus. Em resumo, a espiritualidade de Bergoglio, baseia-se no espírito, que deve ser exercitado, com a finalidade de responder aos desígnios divinos, para deixar-se conduzir ao louvor e ao serviço de Nosso Senhor. Na visão de Mario de França Miranda, outro teólogo, a formação recebida na escola de Santo Inácio de Loyola provavelmente incidirá na nova missão de Jorge Mario Bergoglio como dirigente máximo da Igreja Católica.

Tanto as experiências que teve como seminarista na ordem dos jesuítas, de cunho comunitário, espiritual ou intelectual, quanto suas atividades como jesuíta já formado, seja no campo da espiritualidade, seja do governo, se realizaram sempre dentro do espírito e das orientações próprias desta ordem religiosa. […] Observamos de início que a espiritualidade inaciana é apenas uma entre outras ricas e profundas espiritualidades da Igreja Católica. […]. Lembremos ainda que não se pode deduzir linearmente desta espiritualidade as tomadas de posição e as iniciativas futuras do Papa Francisco.

PASSOS, Décio João e SOARES, Afonso M. L.

Mario de França Miranda deixa claro que, o jesuíta é chamado por Deus para ser enviado em missão, portanto, Bergoglio valoriza a Igreja em sua dimensão missionária, donde emerge a preocupação de Santo Inácio de Loyola em prescrever aos jesuítas uma sólida formação espiritual, juntamente com uma ampla e profunda formação intelectual. Assim seriam melhor preparados para enfrentar os mais variados desafios pastorais que a sociedade lhes ofereceria. Esta mesma característica levará os membros dessa ordem para as mais diversas frentes de atuação pastoral, de cunho educacional, missionário, assistencial ou social, deparando-se frequentemente com situações inéditas e correndo o risco ao lhes dar respostas sempre inovadoras. Numa palavra: para o jesuíta a missão é sempre prioritária (PASSOS, Décio João e SOARES, Afonso M. L.).

A formação de Bergoglio contou com a influência de professores notáveis, como seu professor, grande teólogo Juan Carlos Scannone, um expoente no campo da filosofia e da teologia, tanto que é considerado um dos grandes representantes da Teologia da Libertação na Argentina. O professor Scannone sempre nutriu grande estima por Bergoglio, tanto é que o escolheu para ajudar no seu discernimento vocacional como diretor espiritual, embora fosse alguns anos mais velho do que ele. Contudo, Bergoglio também estudou com professores considerados conservadores e outros que tinham boa inclinação pela teologia pós-conciliar. Com o passar do tempo Bergoglio torna-se professor de literatura (STRAZZARI, Francesco).

O caso de Yorio e Jalics

Por volta de 11 a 23 de março de 1976, foram sequestrados os jesuítas Yorio e Jalics, por grupos ligados às Forças Armadas. Eles invadiram as casas dos militantes e dos habitantes do bairro Rivadavia e do sul de Flores e levaram todos os que tinham contato com o peronismo de base (PB). Também foi sequestrada Monica Mignone, a filha do autor do livro Igreja e Ditadura. Isto levou Mignone a criticar as autoridades, insinuando que já estivesse premeditada a prisão dos jesuítas, porque estas ocorreram logo após as licenças ministeriais, porque estariam longe do povo da igreja. Tais críticas resultaram em manifestações contra o seu provincial, no caso, o jesuíta Jorge Bergoglio. No entanto, durante esse período Bergoglio ajudou a salvar pessoas perseguidas pelos militares e intercedeu por muitos presos políticos para que pudessem sair do país. Vários sacerdotes foram vítimas de sequestros, torturas e morte, especialmente aqueles padres vinculados ao Movimento de Sacerdotes para o Terceiro Mundo (PASSOS, Décio João e SOARES, Afonso M. L.).

Bergoglio relata que: “A minha primeira sensação, é de que os teriam libertado imediatamente, porque não havia nenhuma acusação contra eles. Além disso, eu estava convencido de que não fora uma operação para capturar somente eles, mas uma batida policial, na qual acabaram sendo pegos”. Além de Mignone, Bergoglio foi por muito tempo criticado também por Horacio Verbitsky, escritor do livro História política da Igreja católica (v. III), o qual disse que Bergoglio queria limpar a Companhia dos membros “jesuítas esquerdistas”. Alicia de Oliveira, do Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS), o defendeu: “É uma infâmia pensar que os tenha entregado. Ao contrário, ele os tinha avisado” (STRAZZARI, Francesco.).

Bergoglio foi denunciado em 2005 por supostas conexões ou omissão diante do sequestro, pela ditadura argentina, de dois padres jesuítas: Orlando Yorio e Francisco Jalics, em 23 de maio de 1976, quando era superior provincial dos jesuítas. As denúncias foram desmentidas pelo próprio Francisco Jalics, que contradisse de forma categórica as insinuações: “O missionário Orlando Yorio e eu mesmo não fomos denunciados pelo Padre Bergoglio, agora Papa Francisco”, afirmou Jalics em uma declaração publicada no site da ordem jesuíta alemã (PASSOS, Décio João e SOARES, Afonso M. L.).

Jorge Bergoglio, Cardeal Jesuíta

Jorge Bergoglio foi escolhido pelo Cardeal Antônio Quarracino, para ser seu íntimo colaborador em Buenos Aires. Em 20 de maio de 1992, João Paulo II nomeia Bergoglio como bispo titular de Auca e auxiliar em Buenos Aires. Em 27 de junho é consagrado bispo pelo cardeal. Escolhe como lema Miserando atque elegendo (Tenha misericórdia deles, acolha-os) uma expressão do monge inglês Beda, o Venerável (673-735 D.C.), erudito anglo-saxão, e no brasão de armas usa o criptograma IHS, símbolo da Companhia de Jesus. Em 23 de dezembro de 1993, Bergoglio foi nomeado vigário episcopal da zona de Flores, local onde nasceu e também onde foi empossado como vigário-geral da arquidiocese. Em 3 de junho de 1997, foi promovido a arcebispo coauditor de Buenos Aires.

Após a morte do Cardeal Quarracino, Bergoglio o sucedeu em 28 de fevereiro de 1998 como arcebispo primaz da Argentina. Em fevereiro de 2001, por João Paulo II foi constituído cardeal, concedendo-lhe o título de São Roberto Bellarmino, o cardeal teólogo jesuíta da contrarreforma. Em outubro de 2001, foi nomeado relator-geral adjunto na 10ª Assembleia Geral Ordinária do sínodo dos bispos, dedicada ao ministério episcopal. Em 2005 foi eleito presidente da Conferência Episcopal Argentina, no qual ficou até de 2011. Em 2007, no final da quinta Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano realizada em Aparecida de 13 a 31 de maio o arcebispo Bergoglio foi também eleito por grande maioria como presidente da Comissão encarregada de preparar o documento final dos trabalhos.

O campo de ação de Bergoglio, apesar de estar focado no âmbito religioso, nunca deixou de lado as suas intervenções no âmbito social extraeclesiástico. No Te Deum, que é a festa nacional argentina, na qual se comemora a revolução de 1810, festividade que é tradição acontecer no dia 25 de maio de cada ano e nas quais Bergoglio, nas suas homilias, sempre faz uso de palavras duras, oportunamente no sentido de defender a dignidade humana do seu povo, por ocasião da festa cívica. Palavras também dirigidas aos presidentes Fernando de La Rúa, em 2000, Nestor Kirchner, em 2003, Cristina Fernández Kirchner, em 2010. A presidente Cristina Kirchner após aprovar a lei de reconhecimento jurídico das uniões homossexuais, foi severamente criticada por Bergoglio, que definiu a aprovação dessa lei como “uma tentativa de destruir os planos divinos”.

O cardeal Bergoglio sempre esteve junto aos pobres da argentina; nas favelas da Villas Misérias, ele se sentia em casa. Para chegar até a favela, ele usava o ônibus comum como meio de transporte; vestia-se como padre, de modo simples. Celebrava a missa, na capela da Virgem de Caacupé, local bem humilde; lá realizava batizados, distribuía comunhão e por horas escutava confissões. Inteirava-se dos problemas da comunidade, e procurava sempre uma forma de poder ajudar.

Bergoglio instituiu um vicariato episcopal para acompanhar as pastorais que atendiam as favelas na capital da Argentina. Para Bergoglio, “a Igreja deve estar sempre em missão, ou seja, sair de si mesmo, ir em direção da periferia, porque quando a Igreja permanece fechada em si mesma, autorreferencial, envelhece. É preferível uma Igreja que erra quando sai em missão, do que uma Igreja doente fechada em si mesma.” (GAETA, Saverio.)

Jorge Bergoglio, Papa Jesuíta

No dia 13 de fevereiro de 2013, na quarta-feira de cinzas, dois dias depois que Bento XVI comunicara a própria renúncia, o cardeal Bergoglio pronunciou palavras de esperança pela situação da vacância papal, e, em seguida, disse ao povo, “Por favor, peço-lhes que rezem por mim”. No Conclave anterior, em de abril de 2005, Bergoglio e Ratzinger, possuíam as preferências dos cardeais, porém Bergoglio, após quatro votações inconclusivas, pediu a todos os que o apoiavam que fizessem convergir seus votos para o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, no caso, Ratzinger o Papa Bento XVI.

Os cardeais se reúnem em 2013, para um inédito Conclave, com o predecessor ainda vivo, cercados de muitas hipóteses jornalísticas. Quatro votações ocorreram sem resultado positivo. Depois, às 19h06 min do dia 13 de março, a fumaça branca da chaminé sobre a Capela Sistina anunciou a eleição do novo Papa; Jorge Mario Bergoglio, primeiro jesuíta na Cátedra de Pedro, primeiro Pontífice do continente americano, primeiro não europeu após quase doze séculos (o último havia sido o sírio Gregório III, em 731).

Poucos minutos antes da “fumaça branca”, o mesmo cardeal Re tivera a tarefa de dirigir ao neo-eleito a pergunta acerca de qual nome teria escolhido e ouviu responder: “Francisco”. Deixando de lado o caso de João Paulo I, faz exatamente 1100 anos que não havia o novo nome na sequência dos Pontífices: é preciso remontar ao sabino Landão, eleito em 913. E jamais alguém assumira até o momento o nome do patrono da Itália nos quase oitocentos anos passados da sua morte, não obstante tenha havido quatro Pontífices franciscanos. E curioso também notar que o último Papa procedente dessa Ordem, Clemente XIV, aboliu em 1773 a Companhia de Jesus (a Ordem de pertença de Papa Francisco), cedendo às pressões das grandes potências europeias.

GAETA, Saverio

Sobre a escolha do nome “Francisco”, Bergoglio, agora Papa Francisco, disse aos jornalistas no dia 16 de março: “Alguns pensavam em Francisco Xavier, em Francisco de Sales, também em Francisco de Assis. Eu lhes contarei a história. Na eleição, eu tinha ao meu lado o arcebispo emérito de São Paulo e também prefeito emérito da Congregação para o Clero, o cardeal Cláudio Hummes: um grande amigo, um grande amigo! Quando a coisa se tornava um tanto perigosa, ele me confortava.

E quando os votos chegaram a dois terços, veio o costumeiro aplauso, porque foi eleito o Papa. E ele me abraçou, me beijou e me disse: “Não te esqueças dos pobres! ” O Papa Francisco prosseguiu: “E aquela palavra entrou aqui: “os pobres”, “os pobres”. Depois, logo, em relação aos pobres, pensei em Francisco de Assis. Depois, pensei nas guerras, enquanto o escrutínio prosseguia, até se esgotarem os votos. E Francisco é o homem da paz, o homem que ama e cuida da criação; neste momento também nós temos com a criação uma relação não muito boa, não é? É o homem que nos dá esse espírito de paz, o homem pobre”.

Referências
STRAZZARI, Francesco. Para conhecer o Papa Francisco; tradução Cacilda Rainho Ferrante. São Paulo: Paulinas, 2014.
PASSOS, Décio João e SOARES, Afonso M. L. (organizadores). Francisco Renasce a Esperança; In: MIRANDA, Mario de França. Francisco: Papa e Jesuíta. São Paulo: Paulinas, 2013.
GAETA, Saverio. Papa Francisco - Vida e os desafios; tradução Pe. José Bortolini. São Paulo: Paulus, 2013.

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Uma resposta em “Jorge Mário Bergoglio, o Papa Francisco (Pt 2)”

Que o papa Francisco fique ainda muito tempo com agente !!! Este Santo homem ,é mesmo um abençoado. Quando Deus o chamar, quem for assumir o papado, que seja uma criatura ,também muito simples.

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