Introdução à Bíblia (Pt 2)

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Na primeira parte deste artigo, nos iniciamos um estudo sobre a Bíblia propriamente dita, não adentramos nos livros bíblicos, mas na formação de seus escritos, e suas características, como uma “biblioteca”, ou seja, uma coleção de livros. Nesta segunda parte, vamos continuar nossa caminhada, e descobrir por que alguns livros estão em algumas bíblias e em outra não. Lembre-se de deixar seus comentários ao final do texto, e fique a vontade de sugerir temas que gostaria de ler no nosso site. Boa leitura.

Livros deuterocanônicos e apócrifos

Os setes livros chamados pelos católicos de deuterocanônicos (Judite, Tobias, 1-2 Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc). São chamados pelos evangélicos de “apócrifos”.

Livros apócrifos são aqueles livros que não estão no cânon[1] da Bíblia. Apócrifo é uma palavra grega e quer dizer “oculto”, “guardado”. Usa-se essa terminologia porque os livros, embora tenham sido escritos na época bíblica, não constam do cânon e são apresentados como uma manifestação de Deus revelada somente depois de ficar muito tempo “oculta”. Os apócrifos do Segundo Testamento são escritos em tempos posteriores ao primeiro século da era comum. Ficaram, pois, ocultos por algum tempo.

Os livros apócrifos tanto dos católicos quanto dos evangélicos podem não ter valor histórico, litúrgico ou catequético, mas são úteis, porém, para reconstruir as crenças populares do judaísmo na época de Jesus, bem como algumas correntes teológicas da Igreja primitiva.

Classificação dos livros apócrifos

Apócrifos judaicos:

  • Antes da Era Comum (a.E.C.: 3 Esdras, 3 e 4 Macabeus, Livro dos Jubileus, Livro de Adão e Eva, Carta de Aristéia, Martírio de Isaías, Livro de Henoc, Testamento dos 12 Patriarcas, Oráculos Sibilinos, Salmos de Salomão, 4 Esdras.
  • Depois da era comum (E.C.): Assunção de Moisés, Livro de Baruc, Testamento de Jó, Testamento de Abraão, Apocalipse de Abraão, Apocalipse de Moisés.

Apócrifos Cristãos:

  • Evangelhos: de Tiago, de Tomé, Evangelho Árabe da Infância, História de José, Evangelho de Pedro, de Nicodemos, de Bartolomeu, Livro de João Evangelista, A Assunção da Virgem.
  • Atos: Atos de João, de Paulo e Tecla, de Pedro, de André, de Tomé, de Felipe.
  • Epístolas: de Abgar, Carta aos Laodicenses, Epístola dos Apóstolos.
  • Apocalipses: de Pedro, de Paulo, de Tomé, de Adão, Ascensão de Isaías.

Autoria dos livros da Bíblia

Os autores aos quais são atribuídos os livros da Bíblia devem ser considerados mais como “patronos” ou iniciadores de uma corrente de escritos. Assim Moisés é o patrono de tudo o que é lei. Davi é o patrono da poesia cultual e Salomão dos escritos de sabedoria. Isaías, por exemplo, é o iniciador de uma certa corrente dentro do movimento profético, seus discípulos continuaram sua obra.

Muitas pessoas ajudaram a escrever as Escrituras. São homens e mulheres, jovens e idosos, pais e mães de família, sacerdotes, profetisas, profetas, agricultores, pastores, artesãos e pescadores, justos e pecadores. Algumas pessoas eram gente instruída, que sabia ler e escrever. Outras eram pessoas simples que só sabiam contar histórias. A sua preocupação central era ajudar na construção de um povo irmão, em que seriam valorizados acima de tudo a justiça, o amor, a fraternidade, a verdade e a fidelidade a Deus. Cada qual, do seu jeito, deu sua colaboração.

A Bíblia é a Palavra do Deus do povo na palavra do povo de Deus

As escrituras são fruto de um grande mutirão entre Deus e seu povo, entre a ação de seu Espírito e a vontade do povo de ser fiel a Ele. A ação do Espírito de Deus é como a chuva. Ler Is 55,10-11. A planta é, pois, fruto do céu, isto é, da chuva, e é fruto da terra. Como a planta, a Bíblia também é fruto da ação de Deus e do esforço das pessoas. Ela é a Palavra do Deus do povo na palavra do povo de Deus.

No entanto a Bíblia não é a Palavra divina caída prontinha do céu. Deus não se revela de forma mágica, fora da história. Nem dita sua palavra direto a alguém para que a escreva. Sua revelação acontece na experiência de vida, no cotidiano.

Neste sentido, podemos dizer que a Bíblia é “testemunho” da revelação, da Palavra de Deus. E mais: ela não é o único escrito que testemunha a presença viva de Deus em meio a suas criaturas. É verdade que os relatos de experiência de Deus em Israel são exemplares para nós. Mas é preciso admitir também que a Bíblia é um dos testemunhos da Palavra de Deus que se revela a todos os povos, nações e tribos.

Projetos em confronto

Sendo também palavra humana, a Bíblia igualmente contém a produção teológica e ideológica de grupos e comunidades. É normal, então, que a Bíblia reflita também os interesses dos grupos humanos que estão por trás da literatura bíblica. O povo de Israel também viveu seus dramas, seus conflitos internos. Havia projetos em conflito. Essa tensão transparece nos escritos bíblicos. Por isso convém sempre olhar com atenção as duas grandes linhas fundamentais em confronto nos textos bíblicos: a oficial e a popular. São interesses teológicos, sociais, econômicos, e políticos distintos que se defrontam. Eles não vêm separados nitidamente. Não é fácil perceber com toda a clareza quais são os interesses oficiais a partir da corte real e quais são as reivindicações populares fruto da resistência do povo. É preciso estudar os textos com cuidado para se descobrir isso. A Bíblia é, na verdade, um intenso debate teológico entre grupos com interesses diferentes.

Quando fazemos uma interpretação bíblica ao pé da letra, fica-se confuso ao se deparar com projetos tão diferentes e até opostos entre si. Isso reforça a necessidade de não pararmos de estudar, de modo que possamos ter mais clareza quanto aos critérios de interpretação das Escrituras. É preciso muito cuidado antes de tirar conclusões apressadas, pois a Bíblia é como uma faca de dois gumes. Tanto pode ser usada como instrumento de opressão e de morte como também serve como instrumento de promoção e defesa da vida.

O projeto oficial defende privilégios e gera exclusão

A linha oficial defende os interesses dos reis, da corte, do templo, do sacerdócio oficial e dos juízes vinculados aos reis, dos latifundiários e dos grandes comerciantes. Visa uma política de escravidão, tributos, saques, trabalho forçado, exército forte e oneroso. Depois do exílio, isto é, a partir de 539 a.E.C.., a linha oficial é assumida pelos sacerdotes a partir do templo reconstruído.

Essa linha oficial é excludente, defende privilégios. Pior: legitima-os em nome de Deus. É dela que vêm as leis do puro e do impuro, da estrita observância da lei, da única raça eleita, da teologia da retribuição que afirmava que tudo é retribuição de Deus de acordo com a vida das pessoas. Segundo essa teologia, riqueza, saúde, família numerosa, honra, longa vida, seriam bençãos de Deus para os justos. Já pobreza, doença, esterilidade, desonra, morte prematura, seriam castigos de Deus para os pecadores. No tempo de Jesus, as autoridades que controlavam o poder judaico assumiam essa linha oficial. Por isso, Jesus tanto a combateu, custando-lhe a própria vida. Ler Jo 9,1-3.

O projeto popular defende uma sociedade em que a paz será fruto da justiça

A linha popular defende as aldeias, o uso familiar da terra, os pequenos santuários rurais, o trabalho livre, a partilha, a comunhão. A linha popular representa a luta por liberdade frente aos faraós do Egito, bem como a libertação da terra das mãos dos reis cananeus, a organização tribal em oposição aos reinados, a resistência profética diante dos desmandos das autoridades. Como exemplo e contraposição ler Esd 7,26 e Zc 13,1-6.

A linha popular se faz presente através de profetisas e profetas anônimos que produzem sua profecia, acrescentando-as a livros proféticos já existentes. É o caso de Is 56-66, Zc 9-14, além das novelas bíblicas como Jó, Rute e Jonas, bem como a literatura apocalíptica.

Jesus e as primeiras comunidades, se inserem nesta teologia da resistência. Diferente da linha oficial, a popular é includente. Inclui pessoas e categorias excluídas. Lutam por vida e cidadania. Para sermos fiéis a Jesus, é nessa teologia que nós hoje também queremos cada vez mais nos inserir.

Alguns exemplos dos dois projetos em confronto no texto bíblico

Linha OficialLinha Popular
Afirma que Deus é favorável à opção pelo reinado (1Sm 9,15-16. 10,1)Afirma que Deus condena a opção pelo Reinado (1Sm 8, 1-18.12,19)
Exclui estrangeiros (Dt 23,4; Esd 9-10; Ne 13)Inclui estrangeiros (Rt 1,16-17; Is 56,3; Lc 10, 30-37; At 8-10; Jn)
É favorável ao templo (2Sm 7,1-3; Ag 1)É crítica ao templo (2Sm 7, 4-7; Is 66,1-2; Jr 7-26, Am 9,1-4; Mq 3,12; Mc 11,15-18.13,1-2)
Religião centrada em sacrifícios e ritos externos (Lv 1-8)Religião baseada na justiça e na solidariedade (Is 1,10-17. 58,1-12; Os 6,6; Am 5,21-24; Mt 9,13.12,7)
Exclui mulheres, considerando-as impuras e inferiores (Lv 12. 15,19-30; Jo 8-1,11)Inclui mulheres, valorizando sua beleza, sua sabedoria, seu corpo, sua vida (Pr 31,10-31; Rt; Jt; Es; Ct. Também Jesus resgata a dignidade das mulheres.
Condena pobres e doentes e pessoas com deficiência física, como se fossem castigados por Deus por seus pecados. Os amigos de Jó representam a teologia oficial, a teologia da retribuição (Jó 4.5; Lv 21,14-21; Dt 23,2)Vem em defesa dos pobres, doentes, apontando as verdadeiras causas da pobreza; a figura de Jó representa a teologia popular de resistência (Jó 24,1-12.31; Is 29,18-19.35,5-6. 56,3-5; Mt 11,4-5; At 8,26-40) Jesus vem nesta mesma corrente (Lc 13,1-5; Jo 9,1-3)
Obriga à observância das leis de pureza exterior (Mc 7,1-5)Coloca no seu devido lugar os mandamentos de Deus (Mc 7,6-13. Defende a pureza do coração, livre de roubos e injustiças (Mc 7,14-23)
Obriga à observação minuciosa da tradição do sábado (Mt 12,1-2)Coloca a vida acima da lei, cuja função é estar a serviço das pessoas, e não o contrário (Mt 12,3-14)
Exige circuncisão (Gn 17)Exige a circuncisão do coração, isto é, a mudança de vida (Dt 10,16; Jr 4,4; Rm 2,29)

Essas duas linhas teológicas estão misturadas em toda a Bíblia. Às vezes, não é fácil perceber a que linha os textos bíblicos pertencem. Por isso é importante a oração que nos abre ao Espírito de Deus e converte nosso coração à solidariedade com os pobres, excluídos, descartados da sociedade, ajudando-nos com sua sabedoria, no discernimento da Palavra de Deus no meio das palavras humanas em confronto.

Alguns métodos de leitura da Bíblia

Leitura Sociológica = Este método nos ajuda a descobrir a materialidade do texto.           

Realidade = O texto, que é o livro, revela a vida, a realidade do povo, sua experiência de luta e de descoberta do Deus que está dentro dessa comunidade.

Pré-texto = situação, realidade do povo de ontem e de hoje.

Contexto = a fé com que o povo lê e celebra os fatos da vida.

Texto = livro gerado dentro e a partir da história.

Materialidade do texto = antes da mensagem, oral e escrita, vêm a história, os acontecimentos, a vida que também está dentro do texto. É importante portanto perceber:

  • Perceber, no escrito, a vida, a história do povo;
  • Descobrir o conflito que fez surgir o texto;
  • Perceber que o texto produzido é resposta a esse conflito;
  • A resposta ao conflito nunca é neutra, ela é sempre resposta: ou do opressor, que diz que Deus está agindo nele, no rei; ou do oprimido, que dia que Deus está agindo no povo.

Mensagem = após terem sido descobertas a história e a vida presentes no texto, podemos perguntar:

  • O que Deus quer nos dizer?
  • Quem Ele é e onde está?
  • O que Ele faz?
  • O que Ele quer que nós façamos?

Método da Leitura dos Quatro Lados

O método de leitura dos Quatro Lados, nos ajuda a esmiuçar o texto até encontrarmos a materialidade.

Toda sociedade se estrutura em sistemas sociais, para reconhecer e entender em qual sociedade estava o povo de Israel (e a de nossos dias atuais), podemos fazer uma leitura da realidade dos quatro lados aplicado no estudo da Bíblia.

Lado econômico: são as relações de trabalho. Encontramos fazendo as seguintes perguntas:

  • Como o povo vive?
  • O que produz?
  • Como se produz?
  • Quem produz?
  • Quem lucra?

Lado político: são as relações de poder. Ficamos sabendo através das seguintes questões:

  • Como o povo se organiza?
  • Quem manda?
  • Quem faz as leis?
  • Quem obedece?
  • Como é exercido o poder?

Lado social: são os grupos na sociedade. Visualizamos com as seguintes questões?

  • Quais os grupos presentes?
  • Como se organizam?
  • Como se articulam entre si?
  • Que relação existe entre mulher-homem; criança-adulto; etc.?

Lado ideológico: é tudo o que se refere à cultura e à religião, para saber perguntamos:

  • Quais as ideias presentes?
  • Quem transmite as ideias?
  • Em que Deus acreditam?
  • Como se celebra?
  • Que fé o povo vive?

Após ter feito este levantamento, podemos perguntar:

  1. Qual o conflito presente no texto?
  2. Está presente uma tentativa de solução? Qual?
  3. Deus está presente ou ausente neste texto?
  4. De que lado Deus está?
  5. Qual a mensagem do texto, ontem e hoje?

Resumindo temos:

Se produzSe mandaSe aplicaSe reza
(econômico) As relações de trabalho determinam a estrutura social gerando as classes sociais.(político) As relações de poder são criadas para manter e assegurar o poder econômico.(ideologia) Ela sustenta e legitima a estrutura social apoiando as classes dominantes.(religião) Expressa a relação com o transcendente sendo este o espelho da sociedade.

É dentro dessa realidade, é na história que o povo de ontem e de hoje faz experiência de Deus. “Mais do que aprender a Bíblia, importa aprender dela o jeito de Deus.”

Referências
BÍBLIA DE JERUSALÉM. Paulus Editora, São Paulo, 2002.
BÍBLIA DO PEREGRINO. Paulus Editora, São Paulo, 2ª Ed. 2006.
BROWN, Raymond E. FITZMYER, Joseph A. MURPHY, Roland E. (Orgs.) Novo Comentário Bíblico São Jerônimo – Antigo Testamento. Ed. Academia Cristã, Santo André; Paulus Editora, São Paulo, 2012.
GASS, Ildo Bohn. Uma introdução à Bíblia – porta de entrada. Centro de Estudos Bíblicos. São Leopoldo, 2002. Paulus. São Paulo, 2002.
TEB – Tradução Ecuménica da Bíblia – Ed. Loyola. São Paulo, 1994.
História da Tradução da Bíblia - Sociedade Bíblica do Brasil (sbb.org.br)
A tradução da Bíblia por João Ferreira de Almeida - InfoEscola

[1] Cânon = Medida; na Bíblia se refere aos livros ali inseridos e dados como inspirados por Deus.

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