Jorge Mário Bergoglio, o Papa Francisco (Pt 1)

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Quem foi Jorge Mário Bergoglio antes de se tornar o Papa Francisco? Qual é a história daquele que hoje está à frente da Igreja Católica Apostólica Romana?

Esse artigo inicia-se com o episódio da renúncia de Joseph Ratzinger, Papa Bento XVI, e depois sobre a novidade da eleição de um Papa Latino Americano. Revisita-se também a influência histórica dos Jesuítas na Argentina, a contribuição como influência cristã para um povo miscigenado e seus desdobramentos na formação do perfil de religiosidade eclesiástico, e por último a biografia de Jorge Mario Bergoglio, desde seu nascimento até a sua chegada ao Papado.

Uma transição Papal incomum

A renúncia de Joseph Ratzinger o Papa Bento XVI, foi amparada pelo Direito Canônico, especificamente no Código de 1983, no segundo parágrafo do cânone 332, sobre à renúncia do Romano Pontífice, como segue: “No caso que o Romano Pontífice renuncie ao seu oficio, exige-se para a validade que a renúncia seja feita livremente e que seja devidamente manifestada, não se exige, porém, que alguém a aceite”. E fazendo uso de seu direto, o Papa Bento XVI declarou em pronunciamento: “Bem consciente da gravidade deste ato, com plena liberdade, declaro renunciar ao ministério de bispo de Roma, sucessor de são Pedro, a mim confiado pelas mãos dos cardeais no dia 19 de abril de 2005, de forma que, a partir de 28 de fevereiro de 2013, às 20 horas, a sede de Roma, a sede de são Pedro, estará vacante” (GAETA, Saverio).

De forma singela, porém não pouco surpreendente, Bento XVI tornou-se formalmente o primeiro “Papa emérito” da história. O anúncio do Pontífice sobre a sua própria renúncia, de fato veio de forma inesperada, e desencadeou mundo a fora uma avalanche de opiniões opinativas em todos os níveis da sociedade, seja laica ou a religiosa. Para tanto, é preciso analisar o seu gesto, observando o contexto da situação, relatado pelo próprio Bento XVI:

“Após haver repetidamente examinado minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, dada a idade avançada, não são mais aptas para exercer de forma adequada o ministério petrino. Estou muito consciente de que este ministério, pela sua essência espiritual, deve ser realizado não somente com as obras e as palavras, mas não menos sofrendo e rezando. Todavia, no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de são Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor tanto do corpo quanto do ânimo, vigor que, nos últimos meses, em mim diminuiu de tal forma a ponto de ter que reconhecer a minha incapacidade em administrar bem o ministério a mim confiado”.

GAETA, Saverio

A renúncia do Papa Bento XVI, contudo, foi um gesto pessoal, e sendo justificado pela falta de destreza, desmistifica a ideia ou a tradição de que a figura do papa não possa renunciar, como também, veio para sinalizar que o Bispo de Roma é mais pastoral do que jurídico, no comando do Colégio Apostólico, situado à frente das Igrejas Locais. Este gesto, expôs à luz do dia os porões da Cúria romana, envolta muitas vezes em lutas de poder, corrupção e outros escândalos, organismo clerical que tem sido apontado como o principal responsável pelo estancamento da renovação intentada pelo Concilio Vaticano II, e pelo gradativo processo de involução eclesial nas últimas três décadas no âmbito da Igreja Católica (SILVA, José Maria da).

Na sequência dos acontecimentos, no dia 13 de março de 2013, aproximadamente às 19 horas, numa quarta-feira, foi eleito o cardeal Jorge Mario Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires (Argentina), o novo Papa. Este é o 266° pontificado da história, o qual surgiu de forma inesperada, e logo, fomentou no povo de Deus expectativas de abertura ao diálogo sobre questões ainda não resolvidas pelo Magistério da Igreja. A voz do Pontífice, o Bispo de Roma, é ouvida, não só pelos católicos e cristãos, mas por uma humanidade que valoriza os significados morais, éticos nos cuidados com a criação, sobretudo da vida humana, pautados sobre a fé de um povo que caminha.

Um Papa Latino-Americano

O teólogo e historiador da América Latina, José Oscar Beozzo, diz que Jorge Mario Bergoglio é o primeiro papa na história da Igreja nascido nas Américas. Continente berço de um povo que cresceu a partir da miscigenação entre índios, negros e europeus; povo gestado sob tensões de poder, marcado pela violência militar, política, cultural e religiosa, dominado pelo catolicismo ibérico forjado na luta contra os mouros. A partir do século XIX, a vinda de outros imigrantes, entre eles cristãos protestantes e ortodoxos e também os grupos de não cristãos vindos da Índia, China, Japão e Indonésia, colaboraram com a formação do cristianismo latino-americano (STRAZZARI, Francesco).

O bispo Bergoglio leva para a Europa a sua herança italiana estampada no nome, no sangue e uma identidade cultural transfigurada pela influência do contato com os povos do continente americano, fruto de sua experiência adquirida em suas andanças pastorais pelas “Villas Miséria” da periferia de Buenos Aires, no qual topou o tempo todo com esse povo pobre da América, formado principalmente por indivíduos indígenas, negros e brancos e que fazia contraste com catolicismo romanizado de suas elites e de suas classes médias de origem europeia.

Na América Latina sua figura se impôs pela sobriedade de vida o espírito de serviço, a disponibilidade ao acordo, a pregação concisa e envolvente. O caráter e a sensibilidade o tornam uma figura quase “ascética”, em sintonia com aqueles que colocaram o Evangelho como fundamento da atividade eclesial. Não é nem filósofo nem teólogo. Nunca se ligou a nenhuma corrente particular na universidade católica argentina, da qual foi grande chanceler, e sempre criticou a Teologia da Libertação que flertava com a interpretação marxista da sociedade. […]. Em 2002, não aceita ser nomeado presidente da Conferência Episcopal, eleição que ocorrerá três anos mais tarde e que será confirmada por um segundo triênio em 2008.

STRAZZARI, Francesco

Os Jesuítas na Argentina

Os jesuítas chegaram à Argentina em 1585. Criaram várias províncias nos países da América do Sul, com objetivo de integrar os espanhóis e os índios. Com os índios criaram as “reduciones” (missões), espécie de comunidade criada pela ordem religiosa para fixar as populações indígenas. Após um século e meio verificou-se que estas missões produziram um notável desenvolvimento nos ramos da pintura, escultura e música.

O rei da Espanha, Carlos III, em 1767 decidiu expulsar todos os jesuítas, e o Papa Clemente XIV, em 1773, suprimiu a Companhia de Jesus, que seria restabelecida em 1814 por Pio VII. Os jesuítas voltaram para a Argentina na época de Rosas (1829-1852), governo com o qual tiveram tantos embates, que tiveram que ir embora. Depois da batalha de Caseros e a da queda de Rosas, voltaram ao território argentino. Em 1875, tiveram o Colégio do Salvador, em Buenos Aires, incendiado, devido à luta entre os católicos e os liberais. Desde o início do século XVI até a metade do século XIX, a Igreja na Argentina se caracterizou como hispânico-crioula, com um clero formado na maioria por jesuítas, franciscanos e dominicanos e um laicato que foi protagonista da guerra da independência da Espanha. Com a imigração italiana, por volta da metade do século XIX, construiu-se uma Igreja italianizada, à qual passaram a integrar outros grupos estrangeiros e também os índios. A partir de 1875, este processo de reorganização nacional teve muita participação dos jesuítas e salesianos.

A partir da metade do século XIX, a Igreja na Argentina sofreu o rancor laico e anticlerical da maçonaria liberal estabelecida no poder, que tendia a identificá-la com a barbárie, à qual contrapunha uma ação de civilidade, eliminando as referências à religião. Muitos abandonaram naquele tempo a prática religiosa. A situação começou a mudar a partir do início do século XIX, quando se viu a decadência cultural do laicismo devido em grande parte aos fluxos migratórios para os centros urbanos apinhados de massas ligadas ao catolicismo popular.

STRAZZARI, Francesco

No século XX, os jesuítas com o objetivo de educar e catequizar o povo, dedicaram-se às missões populares. A partir da segunda metade do século, desenvolveram uma notável atividade científica. Fundaram as universidades católicas, apesar de não dominarem as ciências exatas como cálculos econômico-financeiros.

A Biografia de Jorge Bergoglio

Jorge Mario Bergoglio nasceu num período no qual a Igreja na Argentina se empenhava numa ação minuciosa de catequese e de assistência às paróquias, através de associações tais como a Ação Católica, as associações de pais, os círculos operários católicos, fundadas pelo Padre Frederico Grote no início do século XX. Em 1934 aconteceu em Buenos Aires o Congresso Eucarístico Internacional, evento que teve como resultado o renascimento da religiosidade popular. Quem presidiu este Congresso foi o secretário de Estado, o Cardeal Eugenio Pacelli, que seria eleito papa em 1939.

Os avós paternos de Bergoglio vindos do Piemonte, partiram da Itália em pleno inverno, em direção ao hemisfério sul, que estava em pleno verão. “O capote com o pescoço de pele, que vovó Rosa Margherita Vasallo vestia, resultava decisivamente excêntrico. Porém, nenhuma tentação de tirá-lo: no bolso interno da veste escondia-se todo o dinheiro que ela e o marido Giovanni Ângelo haviam juntado para enfrentar o mundo desconhecido que os esperava na Argentina e traziam com eles o jovem filho de vinte e quatro anos Mario Giuseppe Francesco, o pai do futuro Pontífice” (GAETA, Saverio).

Chegaram à Argentina, na capital Buenos Aires, em janeiro de 1929, no período que compreende o final da grande onda de imigração europeia para a América, levas de imigrantes fugindo da pobreza, em busca de uma vida melhor e mais digna. Este moimento imigratório teve início por volta do ano 1840. A Argentina continuaria a receber muitos europeus que aportavam para morar aí e estabelecer raízes. A família Bergoglio e seus membros, pode-se dizer, não estavam na miséria, uma vez que na Itália possuíam uma casa e administravam uma padaria. Foi relevante para decidirem sair da Itália, o desejo de reatar as relações com parentes que já se encontravam em terras argentinas.

Em 1922, os três irmãos de Giovanni Ângelo já se haviam transferido para Buenos Aires, onde abriram uma empresa de pavimentação de estradas. Com o passar do tempo, após uma melhora financeira, levantaram um edifício de quatro andares, no qual construíram moradia para toda família Bergoglio, ou seja, um andar para o núcleo familiar de cada irmão. Este prédio foi o primeiro a ser equipado com um elevador na cidade, que, segundo o autor, era “um espetáculo que atraía a curiosidade de quem passava por lá”. Infelizmente, ocorreu uma crise econômica muito severa de 1929-1932, obrigando-os a encerrar as atividades, fato que obrigou Giovanni Ângelo a abrir uma loja junto com um dos irmãos, para, em seguida, deslocar-se a trabalhar em outra empresa.

Foi em 1934, que o filho de Giovanni Ângelo, Mario Giuseppe Francesco conheceu sua futura esposa, Regina Maria Sívori (filha de um argentino e de um piemontês), fruto de um encontro no oratório salesiano de Santo Antônio, no bairro Almagro, onde ambos iam à missa. No dia 12 de dezembro de 1935 casaram-se e o primeiro filho do casal, Jorge Mario Bergoglio, nasceu em 17 de dezembro de 1936. O casal Bergoglio teve outros quatro filhos, sendo dois homens, Alberto Horácio e Oscar Adrián, e duas mulheres, Marta Regina e Maria Elena (a única ainda viva até 2020).

Foram morar em um apartamento no bairro Flores, na região centro-ocidental de Buenos Aires. A infância de Bergoglio foi marcada pela sua vó Rosa Margherita, dela recebeu influência nos primeiros anos de sua vida de modo que Rosa Margherita cuidava dele para que os pais pudessem trabalhar despreocupados. E, por essa razão, ainda agora a avó é citada por ele como a pessoa que mais habita seu coração.

De quando era criança, Bergoglio traz vicas em sua memória boas recordações. “Os jogos de bisca com o pai, as tardes de sábado diante do rádio com a mãe escutando as obras líricas, aos domingos com toda a família no estádio do San Lorenzo, o time de futebol fundado em 1908 pelo salesiano Lorenzo Massa (na adolescência, além do futebol, jogará também basquete)”. Após o quinto parto aconteceu que sua mãe ficou com as pernas paralisadas. Assim, ela separava os ingredientes e os organizava sobre a mesa, enquanto os filhos seguiam as suas instruções para combiná-los e cozinhá-los. Um ensinamento útil também para o futuro, quando Jorge Mario será reitor e bispo, para virar-se sozinho.

De 1943 a 1948, Jorge Mario frequentou a escola elementar Antonio Cerviño, onde ainda se conservam os registros que atestam os resultados de seus estudos: “Obteve sempre o suficiente nas diversas matérias previstas pelo programa: aritmética, geometria, história, geografia e desenho. Mas, naquele tempo, não havia notas, o desempenho dos alunos era classificado somente em suficientes ou insuficientes”, explicou a atual diretora, Efe Roxana Dominguez.

De Amália Damonte, uma amiguinha de quando tinham cerca de doze anos, chegou uma graciosa notícia. Certo dia, Jorge Mario lhe entregou uma folha de papel na qual desenhara uma casinha branca com o teto vermelho, dizendo-lhe: “Esta é a casa que comprarei quando nos casarmos”. Em seguida, acrescentou: “Se você não me disser sim, vou ser padre”. Porém ela não lhe respondeu e, mais ainda, quando aquele desenho acabou nas mãos da mãe, os seus pais a proibiram de tornar a vê-lo.

Efe Roxana Dominguez

Em meio às dificuldades, sendo Jorge Bergoglio o filho mais velho, começa a trabalhar muito cedo, antes de terminar o ginásio. Consegue diplomar-se como técnico químico. Sua educação religiosa é influenciada pela sua avó. Ele frequentava à missa e participava dos grupos de Ação Católica da paróquia do bairro Portuário de Flores. Entra para o seminário diocesano de Villa Devoto.

Referencias
GAETA, Saverio. Papa Francisco - Vida e os desafios; tradução Pe. José Bortolini. São Paulo: Paulus, 2013. 1ª edição.
SILVA, José Maria da (org.) Papa Francisco: perspectivas e expectativas de um papado; In: BRIGHENTI, Agenor. Perfil pastoral da Igreja que o Papa Francisco sonha; Petrópolis, RJ: Vozes, 2014. 1ª edição.
STRAZZARI, Francesco. Para conhecer o Papa Francisco; tradução Cacilda Rainho Ferrante. São Paulo: Paulinas, 2014. 1ª edição.

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