A mulher na comunidade do Quarto Evangelho

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Neste mesmo espaço, já comentamos sobre a ação das mulheres na Bíblia, no entanto, no Evangelho Segundo João, há algumas particularidades sobre a importância das mulheres na comunidade joanina. E é sobre isso que o presente artigo trata.

Recomendamos que leiam na Bíblia, os episódios a que se referem as citações mencionadas, sobre as mulheres no Evangelho Segundo João.

Deixem comentários logo abaixo o artigo. Boa leitura.


Ao longo da história a Palavra de Deus tem sido fonte de vida para todos aqueles que se deixaram seduzir por seu mistério. É importante ter um olhar mais apurado aos textos da tradição joanina que se referem a mulheres. No contexto latino-americano, marcado pelo sofrimento e pela dor, mas, ao mesmo tempo, aberto à esperança, ao compromisso e à vida além da morte, precisamos estabelecer um diálogo libertador com a Bíblia. Neste Kairós, onde a mulher irrompe na história consciente de sua opressão secular, e ao mesmo tempo consciente de sua tarefa insubstituível na construção de uma história nova e fraterna, vamos aprofundar nossa reflexão, nos textos do Quarto Evangelho, para acompanhar de um modo singular esse processo.

A certeza de que o Crucificado está vivo foi decisiva para a formação da Igreja. Depois da desorientação e do sentimento de fracasso da primeira hora (Lc 24,17-24), os discípulos e discípulas de Jesus se reuniram novamente em torno do Ressuscitado.

Contudo, esse acontecimento fundante não gerou um movimento uniforme, mas deu origem à constituição de distintos grupos que expressaram sua fé com categorias diversas, e que nem sempre estiveram isentos de tensões e conflitos; dai se da a origem de diversas tradições que, a partir de sua situação vital peculiar (situações espaço-temporais, culturais, econômicas, sociais, políticas.), tentaram dar respostas às expectativas, desejos e necessidades dos crentes à luz da fé no Ressuscitado.

Alguns pensadores distinguem três épocas sucessivas a partir da morte e ressurreição de Jesus: época apostólica (segundo terço do Século I), período sub-apostólico (último terço do Século I) e período apostólico (final do Século I). Os cristãos da primeira época contavam com a segurança que lhes dava a existência entre eles de testemunhas oculares do “acontecimento Jesus”. No entanto, uma vez que estas desapareceram, esta segurança rachou e as primeiras comunidades enfrentaram o desafio de seguir caminhando de modo diferente. Tornar-se comunidade e construir o Reino da Vida a partir da nova situação criada com a morte dos apóstolos, e fiel a suas origens exigiu deles respostas criativas. A Igreja nascente enfrentou este desafio e acolheu, com dificuldades, mas em abertura ao Espírito Santo presente nas comunidades, a pluralidade de tradições que surgiram.

Deste modo, dentro do período sub-apostólico distingue-se a existência de quatro grandes tradições: a tradição paulina, a tradição do discípulo amado, a tradição de Pedro e a tradição de Tiago.

Na caminhada da Igreja do Século I, a tradição do discípulo amado desenvolveu um pensamento teológico sem precedentes. Esta comunidade concebeu sua fidelidade às origens vinculada estritamente ao seguimento. Ser discípulo/a de Jesus para eles se tornou o núcleo da espiritualidade encarnada.

Uma olhada nos textos desta tradição nos revela a audácia da comunidade joanina no tocante a sua concepção do papel das mulheres dentro da estrutura eclesial. Sua atitude aparece refletida em alguns episódios: a mãe de Jesus (Jo 2,1-12; 19,25-27), a samaritana (Jo 4,1-42), Marta (Jo 11,17-37), Maria de Betânia (Jo 12,1-8) e Maria Madalena (Jo 20,1-18).

No tempo de Jesus, e posteriormente no período apostólico (entre os anos 30-70) e sobretudo no sub-apostólico (entre os anos 70-120), as mulheres são oprimidas e marginalizadas. Nesta situação a atitude de Jesus em relação às mulheres tem um caráter fundante e libertador. É a tradição do Quarto Evangelho que com maior força e clareza guarda esta memória de Jesus. Não se pode reconstruir a comunidade do discípulo amado sem levar em conta o lugar privilegiado que a mulher tem na história, na teologia e nos valores da comunidade. Quando no período sub-apostólico se fortalece uma corrente patriarcalizante na institucionalização da Igreja (cf. Cartas Pastorais), surge com força a tradição do discípulo amado contra esta tradição.

No Quarto Evangelho a figura central não é o apóstolo e sim o discípulo. É o discípulo que garante a fidelidade à tradição de Jesus. Há homens e mulheres entre os discípulos.

O Quarto Evangelho ressalta a mulher como discípula, provavelmente por duas razões históricas: por um lado, como protesto contra a tendência patriarcalizante no período sub-apostólico (cf. 1Tm 2,9-15). A tradição do discípulo amado, fundada sobre a memória de Jesus, reflete um modelo de Igreja onde a mulher tem relevância e liderança eclesial. Mas é possível que o Quarto Evangelho privilegie a participação da mulher por corresponder à situação sociorreligiosa da própria comunidade.

A Samaritana (Jo 4,1-42)

Temos aqui uma mulher desprezada por ser samaritana e estar numa situação difícil (buscar água ao meio-dia, quando o sol está mais quente, demonstra que ela é desprezada dentro da própria comunidade samaritana, inclusive pelas mulheres). Esta mulher desprezada recebe uma revelação especial de Jesus e é missionária de Jesus na aldeia dos samaritanos. Além da situação histórica do tempo de Jesus, possivelmente se reflete aqui a situação histórica que a comunidade do discípulo amado enfrenta. A mulher representa neste contexto posterior a tradição do discípulo amado que semeia a semente da Palavra e que leva o peso da fadiga da evangelização, contraposta à tradição apostólica que colhe o que outros semearam e que se aproveita da fadiga deles (4,34-38). A Igreja é construída sobre o testemunho das discípulas de Jesus. A Igreja apostólica colhe o que a Igreja das discípulas de Jesus semeou. 

Marta (Jo 11)

Em Jo 11,5 relata que “Jesus amava Marta, sua irmã (Maria) e Lázaro”. Jesus partilha a revelação e a missão com aqueles a quem ama (Jo 15,13-15). Estes três constituem em Betânia (casa do pobre) a comunidade de Jesus, a comunidade de seus amigos e amigas, discípulos amados. Esta comunidade, assim constituída, representa também a comunidade posterior do Quarto Evangelho.

Marta faz uma importante confissão de fé (11,17), que é a mesma confissão que faz o discípulo amado como autor do Quarto Evangelho em 20,31. A confissão de Marta corresponde à confissão de Pedro na tradição apostólica (Mt 16,16; Mc 8,29). A confissão de Pedro também aparece em Jo 6,69, mas seu peso teológico é muito inferior ao de Marta. Pode-se concluir que, assim como a Igreja na tradição apostólica de Mateus está construída sobre a confissão de fé de Pedro, na tradição do discípulo amada o Igreja está construída sobre a confissão de fé de uma mulher. Note que esta confissão responde a uma revelação de Jesus a Marta muito superior à que temos em Mt 16 e se dá no contexto do sinal máximo de Jesus: a ressurreição de Lázaro. Se na tradição do discípulo amado Marta aparece como tipo da comunidade crente e desempenha um papel análogo a Pedro, como representante da fé apostólica, é porque na comunidade do discípulo amado a mulher tem, historicamente um papel importante.

Em 12,12 relata que: “ofereceram-lhe aí um jantar; Marta servia (diekonei) e Lázaro era um dos que estavam à mesa com ele”. O verbo aqui usado (diakonein), no contexto da Igreja sub-apostólica, bem pode ter o sentido da função de uma pessoa ordenada por imposição das mãos, assim se interpretou facilmente este verbo para os sete homens em At 6,1-6.

Maria de Betânia (Jo 12)

Vamos aprofundar o texto que trata do gesto profético de Maria de Betânia, que se encontra em Jo 12,1-8. A necessidade de ter uma leitura mais acurada, se dá pelo fato de que, na grande maioria das vezes, o foco da leitura e interpretação, recai sobre a postura de Judas Iscariotes (12,5-6), e a resposta que Jesus dá a este: “Pobres sempre tereis entre vós, a mim não tereis.” (12,8).

Ao lermos esse texto notamos que ele se coloca entre a ressurreição de Lázaro (11,1-54), e a entrada messiânica em Jerusalém (12,12-19), assim nos situa claramente em ambiente pascal. Em 12,8b encontramos a chave de interpretação da unção de Jesus em Betânia. O próprio Jesus lança luz sobre o acontecimento vivido: o gesto de Maria anuncia antecipadamente a sepultura de Jesus, inseparável, por outro lado, de sua Ressurreição.

Diferente dos outros relatos de João onde aparecem mulheres, aqui não existe nenhum diálogo entre Jesus e Maria. Só nos resta o gesto realizado por ela como palavra reveladora. Entra em cena de improviso. O evangelista não precisa apresenta-la. Previamente nos dera alguns dados: Jesus a amava (11,5) e era irmã de Marta e Lázaro (11,1);

O amor de Jesus, experimentado por essa mulher em diferentes ocasiões e de modo singular na ressurreição de seu irmão Lázaro, faz com que ela realize um gesto gratuito de amor. “Ela encarna todos os que amam Jesus com coração sincero e agradecido”. O amor como vinculação pessoal com Jesus é a senha dos autênticos discípulos. A união é tão profunda que, com esse gesto, Maria antecipa o fato fundante da fé da Igreja: a morte e a ressurreição do Filho amado do Pai. Seu gesto é anúncio e testemunho antecipado, para os outros comensais, do amor entranhável do Pai. Ao secar com seus cabelos os pés de Jesus fica imbuída do mesmo perfume, quer dizer, fica envolta nesse mistério de amor que há de ser Boa-Nova para todo aquele que crê. Também a casa, símbolo da comunidade crente, experimenta a presença permanente do ressuscitado. Mais uma vez a mulher é reconhecida com o mais alto grau pela tradição do discípulo amado: sua vinculação ao Mestre por meio do amor é o que confere a ela sua dignidade e sua igualdade na estrutura comunitária.

Há de se ressaltar, que ao secar os pés ungidos de Jesus, Maria também fica ungida, ou seja, participar intensamente da messianidade de Jesus.

Maria Madalena (Jo 20,1-18)

Maria Madalena não é a mulher pecadora de Lc 7,36-50. Em nenhum lugar do Quarto Evangelho, nem em qualquer outro texto bíblico, se diz que Maria Madalena era ou fora uma pecadora. Só Lucas (8,2) e o apêndice de Mc 14,9 nos dão a notícia de que dela tinham saído sete demônios, que se referem a doenças psíquicas ou físicas, nunca se diz que ela fora prostituta. Foi o Papa Gregório Magno (540-604), que ensinou na Catedral de Milão no ano de 596, a partir da leitura equivocada de Lc 7,36-45, que a mulher que unge os pés de Jesus seria Maria Madalena, muito menos Maria de Betânia.

Maria Madalena é a primeira testemunha da Ressurreição. Esta tradição está conservada em Mt 28,9-10 em Mc 14,9, muito timidamente em Lc 24,10. Em 1Cor 15,5 Maria Madalena desaparece completamente como testemunha da ressurreição, por que?

Em Jo 20,18 Maria Madalena diz “vi (heóraka) o Senhor”. Em 1Cor 9,1 Paulo diz a mesma coisa para fundamentar sua autoridade apostólica. Não poderíamos também falar da autoridade apostólica de Maria Madalena? Maria Madalena é enviada aos discípulos para anunciar a glorificação de Jesus: “subo ao meu Pai e vosso Pai, a meu Deus e vosso Deus” (20,17). Este anúncio constitui a síntese do Quarto Evangelho, por isso Rabano Mauro (780 – 856 abade nos mosteiros beneditinos de Fulda e Mogúncia durante o período da renascença carolíngia do século IX), diz que Jesus fez dela a apóstola dos apóstolos, que ela não demorou em exercer o ministério do apostolado e que evangelizou os companheiros apóstolos com a Boa-nova da ressurreição do Messias, que foi elevada à honra do apostolado e instituída evangelista da ressurreição.

A mãe (e discípula) de Jesus

Em Caná da Galileia celebra-se um casamento numa família pobre: o vinho não foi suficiente para os convidados. A mãe de Jesus, sensível a esta necessidade humana diz a Jesus: “eles não têm mais vinho”. Hoje diria: não têm trabalho, não têm casa, não têm terra, não têm comida. A mãe de Jesus é a figura feminina do Israel fiel, como Natanael é reconhecido por Jesus como “verdadeiro israelita” (1,47). A mulher, como representante do povo fiel que espera e crê no Messias, ordena aos serventes que obedeçam a Jesus. Os 600 litros de vinho, abundância exagerada, rompe o contexto das bodas e é o começo dos sinais de Jesus, onde manifesta sua glória e seus discípulos creem nele. A mulher (Israel) se faz discípula de Jesus.

A mãe de Jesus aparece pela segunda vez ao pé da cruz, junto do discípulo que Jesus amava (19,25-27). Nenhum dos dois é citado pelo nome. São simplesmente a discípula e o discípulo, que são as duas grandes figuras do Quarto Evangelho e da comunidade histórica. A discípula está ao pé da cruz como mãe e o discípulo é assinalado por Jesus como filho de sua mãe e, portanto, irmão seu. Agora a mãe é novamente chamada de mulher, porque como mulher simboliza a comunidade do discípulo amado.

O discípulo por sua vez, acolhe a discípula em sua casa (na comunidade), mas acolhe-a como mãe. O discípulo é irmão de Jesus. A discípula é também irmã de Jesus, mas é reconhecida como autoridade (como mãe) na comunidade.

O apreço que esta tradição tem das mulheres é inseparável do desenvolvimento de seu pensamento acerca do Filho único do Pai, do amor como vinculação definitiva e permanente com ele, assim como de sua peculiar teologia sobre o Espírito, advogado e mestre de todo crente. Por outro lado, o reconhecimento das mulheres como discípulas qualificadas do Mestre está ligado também ao momento histórico-social-religioso no qual esta tradição se desenvolve. 

A experiência de vida e compromisso da comunidade joanina nos convida a reler nossa história de homens e mulheres com outra ótica. Em primeiro lugar nos provoca a uma revisão profunda para ver se o amor está na base de nossa organização eclesial como critério decisivo nas distribuição de tarefas e serviços.

O compromisso na construção do Reino de Vida é assumido corresponsavelmente por homens e mulheres. Como vimos nos textos, é um trabalho complementar, onde não se dão discriminações por causa do sexo. Acontece o mesmo em nossas comunidades???

A tradição joanina insiste na vinculação pessoal com Jesus como base e fundamento da Igreja. Tendo colocado assim os alicerces, livramo-nos de velhos preconceitos que situam o homem acima da mulher.

Desde o princípio as mulheres compreenderam esta mensagem contida no Evangelho Segundo João. Relegadas dos serviços da Igreja que têm a ver com a autoridade e o ensinamento, temos introjetado o seguimento como chave fundamental em nossa caminhada de libertação. A partir daqui desenvolve-se uma espiritualidade da resistência até hoje. Como a dos pobres, a resistência feminina é para ter vida e vida em abundância (Jo 10,10). Caminhar atrás das pegadas do Mestre, em sintonia com seu querer e com seu fazer, nos fortalece na decisão de continuar lutando para abrir novos espaços de participação para todas as mulheres na sociedade e na Igreja. Unidas às dores e às esperanças dos marginalizados e dos empobrecidos, unimos nossas forças na construção de um mundo mais humano, mais justo para todos e todas. 

Referências
MATEO, Juan, BARRETO, Juan. O Evangelho de São João: análise linguística e comentário exegético. São Paulo: Paulus. 1999.
PERKINS, Pheme. Evangelho Segundo João. In: Novo Comentário Bíblico São Jerônimo- Novo Testamento e Artigos Sistemáticos. Santo André: Academia Cristã. São Paulo: Paulus. 2011.
TUÑI, Josep-0riol; ALEGRE, Xavier. Escritos Joaninos e Cartas Católicas. São Paulo: Ave Maria. 1999.
VV.AA. A Tradição do Discípulo Amado – Quarto Evangelho e cartas de João. Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana – RIBLA (Nº17 1994/1. Petrópolis: Vozes. São Leopoldo: Sinodal.
VV.AA. Evangelho de João e Apocalipse – Roteiros para reflexão IX – São Leopoldo: CEBI. São Paulo: Paulus. 2000.

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