Doutoras da Igreja (Pt 3)

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Jovem simples e vibrante, Santa Catarina de Sena (1347-1380) sempre demonstrou grande amor pela Igreja e pelo mundo. Teve importante atuação religiosa e social no seu tempo, Século XIV, apesar de ter vivido apenas 33 anos. Nos dez últimos anos de sua vida, a jovem leiga ligada à Ordem Dominicana ditou 382 cartas sobre os mais diversos assuntos, mas sempre marcadas pela linguagem clara e lógica, e pela sabedoria e profundidade teológica que a conduziram ao posto de Doutora da Igreja. As cartas de Santa Catarina de Sena, revelam o espírito vibrante, conciliador e surpreendente que a tornou exemplo de fé e de vida no seu tempo e hoje.

Primeiros anos da vida e da atividade

Em 1347, nasce Catarina di Benincasa em Sena (Itália), seu epônimo. É a 24ª dos 25 filhos dos artesãos Tiago di Benincasa e Lapa dei Piagenti, casal cristão. Aquela que se pode designar como a primeira experiência extática de sua vida mística deu-se quando tinha apenas seis anos de idade (1353): voltando com o irmão Estêvão da casa de sua irmã Boaventura, tem uma visão do Cristo Senhor, ladeado pelos santos Pedro, Paulo e João, pairando sobre a igreja de São Domingos. Nessa visão, Catarina experimenta de tal modo o afeto do Cristo que, a partir de então, sua vida foi toda devotada a ele.

Embora possa ter feito voto secreto de virgindade com apenas sete ou oito anos (1354/1355), ao chegar à idade de casar, 12 anos (1359/1360), sob insistência de sua família, deixa transparecer sua beleza. Mas, quando a mãe lhe apresenta um pretendente, Catarina se recusa a casar-se e, pouco depois, corta os longos cabelos, põe-se o véu das consagradas e intensifica sua vida ascética – considerando que se deixou levar por sentimentos de vaidade, como punição por ter cortado o próprio cabelo, a mãe a incumbe de todos os afazeres domésticos e a proíbe de usar seu quarto de orações. Catarina acata humilde e generosamente, pensando em seu pai como se fosse o próprio Jesus Cristo, e em sua mãe como se fosse a própria Mãe de Deus. A família não desiste da ideia de que ela se case.

Pouco mais tarde, porém, Catarina, tendo sido encorajada em sonho por São Domingos, expõe à família sua anterior consagração e sua decisão pessoal de levá-la adiante. Seu pai, então, não sem considerar algum prévio sinal miraculoso, consente que a filha retome sua vida ascética. Com 15 ou 16 anos (1362/1363), entra – depois de não pouca resistência e dificuldade – para a Ordem da Penitência de São Domingos, a Ordem Terceira, que seu santo fundador chamou de Milícia de Jesus Cristo. Seus membros eram, em sua maioria, senhoras viúvas, leigas que viviam em suas próprias casas. Essas senhoras eram conhecidas como mantellate – de manto, por usarem um manto preto sobre as vestes brancas –, dedicavam-se à oração e a obras de caridade.

Catarina transcorre alguns anos quase completamente recolhida em intensa vida ascética, com constantes experiências místicas e muitas tentações. Em um de seus êxtases, em 1367 ou 1368, numa espécie de exuberante festa celeste, a Virgem Maria oficia o matrimônio de Catarina com o Cristo, que a recebe como esposa e, então com cerca de 21 anos, por mandato divino, ela inicia seu apostolado.

A caridade que até então demonstrara mais por obrigação tornou-se vocação no seio de sua família e na assistência a pobres e necessitados. Em 1368, seu pai adoece e falece. Catarina se oferece para sofrer no lugar dele, caso ele tivesse de padecer alguma expiação no purgatório. O Senhor acolhe sua proposta e lhe concede sofrer pelo pai as tribulações que ela encontrará em vida. Suas refeições, já muito frugais, reduzem-se, por volta de 1370, apenas à Eucaristia cotidiana.

Conversões admiráveis realizam-se por seu intermédio. Em suas visitas aos doentes do hospital Santa Maria della Scalla, encontra os membros da Confraria dos Discípulos da Virgem Maria, que lá se reuniam em encontros semanais abertos a todos e nos quais todos poderiam falar. Catarina começa a participar desses encontros e destaca-se, tornando-se uma espécie de “mestra de fé”, ou de “diretora espiritual”, e lhe é confiada a liderança desses encontros, nos quais reza, exorta, ensina. Leigos, de diversas classes sociais, religiosos e sacerdotes frequentam tais encontros.

Já bastante conhecida, sua autoridade ganha ainda maior fama. Alguns dos frequentadores de seus encontros, e outros que lhe vinham pedir conselhos em particular sobre os mais diversos tipos de problemas, tornam-se discípulos de Catarina, que reconhecerão nela, não obstante seus cerca de 24 anos, sua mamma – mãe. Esses seus discípulos serão conhecidos como “família catariniana”.

Além do dom do discernimento dos espíritos, sinais e prodígios miraculosos acompanham suas atividades. Em 1370, outra experiência marca-a profundamente: Catarina “morre misticamente”. Nessa experiência, ela vê Deus a recebê-la e a mandá-la de volta para uma vida nova, uma nova missão para a salvação dos homens. Essa sua nova missão consiste em dirigir-se, com a sabedoria divina, a papas, bispos, governantes e todos os cristãos.

A nova missão: as Cartas

Recebida a nova incumbência, a intensa e profícua atividade epistolar de Catarina tem início. Em suas mais de 380 Cartas que chegaram até nós, três elementos são, praticamente, uma constante: o retorno do papado a Roma, o incentivo da cruzada para recuperação dos lugares santos e a reforma da Igreja. Mas sua insistência em tais elementos tinha como objetivo último seu “desejo ardente” de paz. Com efeito, a sociedade dos dias de Catarina é dilacerada por muitos e variados conflitos: eclesiais, civis, familiares.

Quando Catarina nasceu (1347), fazia mais de 35 anos que o papado havia deixado Roma e se instalado em Avinhão, onde permaneceu por quase 70 anos (1309-1378). Esse período, conhecido, entre outras expressões, como cativeiro avinhonês, foi por muito tempo considerado – e defendido como – período em que os papas estiveram como prisioneiros do rei da França. A historiografia contemporânea, todavia, revisitando e reavaliando a questão, já não afirma ter-se tratado de encarceramento dos papas por parte da coroa francesa.

Contudo, o número e a força dos cardeais franceses não deixaram de mostrar sua influência. Isso é perceptível particularmente nos conclaves do período avinhonês, que só elegeram papas franceses, que acabavam, de um modo ou de outro – embora não raramente a contragosto -, fazendo concessões à coroa francesa. Da corte, espiritualmente pobre, de modo geral, em Avinhão, sete papas regem a Igreja: Clemente V (1305-1314), João XXII (1316-1334), Bento XII (1334-1342), Clemente VI (1342-1352), Inocêncio VI (1352-1362), Urbano V (1362-1370) e Gregório XI (1370-1378). A atual estrutura administrativa da cúria romana deve muito à organização que as cortes adquirem nos anos de Avinhão.

Catarina cumpre fielmente sua missão e escreve indistintamente a todos. Suas Cartas, com efeito, têm destinatários de todas as extrações eclesiásticas e sociais, de simples frades a papas, de simples leigos a reis e rainhas. Aos eclesiásticos pede que observem com fidelidade seus deveres religiosos; aos governantes e aos nobres, que zelem pela paz e pelas questões públicas e políticas, que sejam justos, que não se rebelem contra o papa, que lhe sejam fiéis e o auxiliem. Não poucas vezes, Catarina pede a reforma da Igreja e a convocação de uma cruzada.

De fato, em meio à desordem política e socioeconômica, os “homens de Igreja” não se mostravam muito primorosos na vivência dos valores evangélicos, refletindo, em suas vidas, o modo de viver do século. Quanto ao convite à cruzada, se por um lado, os cristãos são chamados a estar em paz entre si, são, por outro, chamados a pôr-se unidos em guerra para reaver a Terra Santa.

Catarina, portanto, intervém nas mais distintas realidades de seu tempo, as quais, obviamente, não lhe passam de modo algum despercebidas. Sua mística, então, não a “desconecta”, como pensariam alguns acerca da vida dos místicos, do mundo em que vive. Pelo contrário, é atenta às realidades divinas – às quais esteve sempre estreitamente unida e das quais foi incansável promotora – sem perder de vista as humanas.

Intervém decisivamente: sem meias palavras, embora com respeito, não poupa críticas nem à autoridade civil nem à religiosa, que reconhece e às quais se submete, esperando, todavia, a realização das mudanças necessárias.

Suas Cartas são ótima fonte para conhecer seu espírito de amante da vida espiritual e dos mais nobres valores fundados na fé e na caridade de Cristo. Mostram Catarina como portadora de uma mensagem ligada a realidades que lhe são infinitamente superiores, sem as quais ela não seria Catarina de Sena – e sem as quais o cristianismo não seria o cristianismo. Ela, certa de que o encontro com Cristo transforma profundamente quem o encontra e deixa-se encontrar por ele, não se abate diante das dificuldades que encontra, e põe-se, sem reservas, diante dos homens, quaisquer que sejam, como arauto de tal encontro. Assim, a paz qual instância última de suas insistências não parece nem casual nem meio para outro fim; só em paz os cidadãos podem viver tranquilamente suas vidas, não só como cidadãos deste mundo, mas também como irmãos a caminho de uma pátria superior, impulsionados pela mesma realidade divina.

A “secretaria” de Catarina

Analfabeta1, Catarina teve vários “secretários” a seu serviço, dentre os quais destacamos os seguintes: Cristóvão di Gano Guidini: discípulo de Catarina, foi o responsável pela primeira coleção de suas cartas; Neri di Landoccio Pagliaresi: nobre e poeta, foi um de seus primeiros discípulos. Onze cartas de Catarina lhe são destinadas. O florentino Barducio Canigiani também foi discípulo de Catarina e acompanhou-a em sua viagem a Roma. Por isso as cartas conservam certa unidade de estilo – estilo, aliás, de inspiração mística, estado em que Catarina ditava suas cartas, como se diz que costumava ser –, perfeitamente harmônico com o estilo do Diálogo e de suas Orações.

Últimos anos

Como toda essa atividade literário-epistolar – da qual não demos mais que pálida uma amostra – deu-se no arco de seus dez últimos anos de vida, cuja narração foi interrompida para tratar da vocação que legou suas cartas até nós, é preciso voltar à década de 1370. Catarina transcorre os meses de maio e junho de 1374 em Florença, onde estava reunido o Capítulo Geral dos dominicanos e onde conheceu frei Raimundo de Cápua, que, desde então, foi seu diretor espiritual, confessor e discípulo. Essa é a primeira de outras viagens que fará.

Naquele mesmo ano (1374), no segundo semestre, faz uma espécie de retiro no mosteiro dominicano de Montepulciano. No ano seguinte, por duas vezes, vai a Pisa. Na primeira delas, em êxtase, Catarina recebe os estigmas de Cristo, pedindo-lhe que não sejam visíveis. Na segunda vez, quando se dirigiu também a Lucca, foi como “embaixadora” de Gregório XI, que deseja que tais cidades não se aliem a Florença contra o Estado Pontifício. Por questões econômicas e comerciais, Florença motivava outras cidades-Estado, e mesmo cidades sob domínio papal, a rebelarem-se e unirem-se contra o Estado Pontifício. Gregório XI, depois de várias tentativas de acordo, excomungou toda Florença e impôs-lhe pesadas sanções. O governo de Florença chama Catarina e pede-lhe que vá a Avinhão negociar a paz com o papa. Ela o faz em 1375-1376, embora não se possa dizer que tenha tido êxito. No final de 1377, vai Val d’Orcia para estabelecer a paz entre os irmãos Salimbeni, que se tinham desentendido quanto a perdoar ou vingar familiares mortos por uma família rival. Nesse mesmo ano, de volta a Sena, recebe do papa o pedido de ir como sua embaixadora a Florença, a fim de estabelecer a paz. Os revoltosos e favoráveis à guerra chegam a queimar casas de discípulos de Catarina e a ameaçá-la. É já 1378. Em Florença, Catarina recebe a notícia da morte do papa e da eleição de Urbano VI.

Bastaram dois meses para que a peste abatesse Sena. De fato, ao voltar a sua terra, Catarina encontra aí morte – inclusive de três de seus irmãos de sangue e de oito de seus sobrinhos – e fome. Ela se desdobra ainda mais em caridade e atenção aos necessitados. Algumas curas são realizadas por seu intermédio. Após algumas idas e vindas, em 1377, Catarina obtém da cidade de Sena o direito de propriedade sobre um castelo em Belcaro, que lhe havia sido dado por Nanni dei Savini, a quem Catarina convertera anos antes. Ela o reforma e transforma no mosteiro de Santa Maria dos Anjos, de estrita observância. Nesse mesmo ano, começa a ditar seu livro: O Diálogo, sua obra-prima. Em março do ano seguinte (1378), morre Gregório XI. Sua sucessão é tumultuada: o povo pede um papa romano, e o conclave elege o arcebispo de Bari, Bartolomeu Prignano. Para aplacar os romanos, os cardeais apresentam como eleito o cardeal romano Tebaldeschi, convencendo-os, depois, a aceitar a eleição de Prignano, que foi coroado como Urbano VI (1378-1389).

Sabendo de seu temperamento difícil e de suas indisposições com bispos e cardeais, Catarina lhe escreve e pede que tenha paciência. Os cardeais, contrariados com o papa e seu desejo de imediata reforma eclesial, retiram-se de Roma, convocam Urbano VI – que se recusa a comparecer diante deles – e elegem um novo papa: Clemente VII (antipapa, 1378-1394). Que leva o papado de volta a Avinhão e dá início ao Grande cisma do Ocidente, em que cinco antipapas (além do já indicado: Bento XIII, 1394-1423; Clemente VIII, 1423-1429; Bento XIV, 1425-1430; Bento XIV, [que desconsiderou o antecessor daí, novamente “XIV”], 1430-1437) se manterão sucessivamente, por cerca de 40 anos, até a resolução da questão no Concílio de Constança (1414-1417).

Urbano VI chama Catarina a Roma. É a última viagem que fará. No final de 1378 ela se encontra em Roma, com vários de seus discípulos, para bater-se, com discursos e cartas, pela unidade da Igreja, em favor de Urbano VI, que reconhece como legítimo papa.

A cisão não implicava somente leves questões religiosas. Em pouco tempo, coroas europeias dividiam-se em apoio a um ou outro papa. A disputa estava na iminência de grandes confrontos militares, quando, em 1379, depois de algumas derrotas, o antipapa Clemente VII retira-se em Avinhão. Em 1380, já no início do ano, Catarina encontra-se debilitada. Menciona que fortes dores físicas a afligem. Mesmo assim, em meio as dores, não cessam suas experiências místicas, nas quais recebe o conforto do Cristo.

Catarina falece em 29 de abril de 1380. A santidade de sua vida é reconhecida oficialmente cerca de 80 anos mais tarde (1461), quando é canonizada por Pio II (1458-1464). Pio IX, em 1866, declara-a segunda padroeira de Roma. Em 1939 é declarada segunda padroeira da Itália por Pio XII (1939-1958). Paulo VI (1963-1978), em 1970, declara-a doutora da Igreja; e, em 1999, João Paulo II (1978-2005) a declara padroeira da Europa.

Durante sua vida, Santa Catarina adquirira grande fama, mas nem tudo foram flores. Ela mesma conta suas dificuldades e as críticas – inclusive do clero e de prelados – que lhe foram feitas. Embora conhecida, sua morte parece não ter repercutido senão entre seus discípulos, ainda que estes últimos – bem como todo aquele que se encontrou com ela – conhecessem de perto a santidade exalada de sua vida cristã, na qual mística e apostolado/política unem-se numa dignidade ímpar. Suas Cartas deixam isso claro.

A sobrevivência de suas obras, particularmente de suas Cartas, são um indício do quanto sua mensagem é viva e atual. Afinal, refletem a vida da Igreja e de cada cristão, do clero e de leigos: precisam ser lembrados do núcleo de sua existência, já que não raramente podem ser absorvidos por elementos secundários – quando não se servem dos valores cristãos em defesa de interesses próprios –, e que esse núcleo chama-se amor, desdobrado em dois, a Deus e ao próximo.

Nota
1) Embora, nos últimos anos de vida, tenha miraculosamente aprendido a escrever; cf. Carta 272, 12. O milagre também é reportado por RAIMONDO DA CAPUA, Legenda Maior, I, XI, 7.
Referências:
DE SENA, Santa Catarina. Cartas Completas. São Paulo: Paulus Editora. Edição do Kindle. 2016.
BIANCHI, Enzo. Catarina de Sena – Uma Mulher “feita fogo”; in Mulheres à frente de seu tempo. VVAA. São Paulo: Paulus, 2017.
SESÉ, Bernard. Catarina de Sena – Uma Biografia. São Paulo: Paulinas, 2008.

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