A ACN, os santos, “grandes ou pequenos”, e a esperança em nosso caminhar

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Em sua Exortação Apostólica Gaudete et exsultate, o Papa Francisco escreve: “O Espírito Santo derrama a santidade, por toda a parte, no santo povo fiel de Deus, porque aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo […] O Senhor, na história da salvação, salvou um povo […] Deus quis entrar numa dinâmica popular, na dinâmica dum povo. Gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir […] Esta é muitas vezes a santidade ‘ao pé da porta’, daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus […] Deixemo-nos estimular pelos sinais de santidade que o Senhor nos apresenta através dos membros mais humildes deste povo” (GS 6-8).

Essas palavras do Papa Francisco me vieram continuamente à memória no domingo, 25 de setembro, quando a Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (internacionalmente conhecida pela sigla ACN, Aid to the Church in Need) celebrou o 25º aniversário de sua presença no Brasil, com missa no Santuário Nacional de Aparecida e um encontro para seus benfeitores e colaboradores. As atividades da ACN no Brasil vêm de mais longe: começaram há 60 anos, em 1962. Contudo, em 1997 a Fundação decidiu abrir seu escritório no país, para que os brasileiros pudessem ser benfeitores da obra, socorrendo não apenas os cristãos que sofrem aqui no Brasil, mas também os cristãos vitimados pela perseguição, guerras e catástrofes em outros países.

Para se ter uma ideia da importância da ACN para a Igreja no Brasil, basta dizer que, nesse período, 257 dioceses e prelazias (92% das 278 existentes do país) tiveram sua ajuda direta e 276 projetos são apoiados por ano. Desde 2014, os benfeitores nacionais conseguem financiar todos os projetos apoiados no Brasil – um grande feito considerando que somos um país pouco afeito a doações financeiras de apoio aos mais necessitados (ocupamos a 74º posição num ranking da Charities Aid Foundation).

Um caminho de santidade

O mais interessante nessa realidade da ACN Brasil é que a grande maioria de seus benfeitores são pessoas simples, de relativamente pouco poder aquisitivo, que dão pequenas contribuições – como uma grande catedral feita por pequenos tijolos. Os grandes benfeitores existem, mas são relativamente poucos no conjunto da obra. Quem foi na celebração em Aparecida viu uma pequena amostra desses benfeitores, apenas cerca de duas centenas de pessoas. Contudo, ali estava justamente essa “santidade que se vê no povo paciente de Deus”, que tanto encanta Papa Francisco.

O sucesso da ACN, no Brasil e no mundo, só pode ser adequadamente apreendido à luz da obra dos santos… Alguns “grandes” santos, pessoas com uma história de vida e um comportamento excepcionais, cuja santidade os demais imediatamente reconhecem. Muitíssimos “pequenos” santos, gente simples, cheia de pecados e contradições, tantas vezes esnobados pelo mundo secularizado, mas tão amados por Deus!

O padre holandês Werenfried van Straaten iniciou a ACN da forma mais inesperada possível: pedindo ao povo holandês que ajudasse os católicos alemães desalojados depois da Segunda Grande Guerra. Pedir às vítimas da guerra que ajudassem seus algozes, superando os ressentimentos inevitavelmente deixados por uma das guerras mais cruentas da história! É uma coisa que só pode ser explicada pela oração e pela santidade – sem dúvida luminosa do padre Werenfried, mas que ele também despertou, talvez de forma tosca e contraditória, em tantos holandeses que resolveram ajudar seus irmãos alemães.

A história da ACN no Brasil caminhou nessa trilha aberta por seu fundador. Seus responsáveis, assessores espirituais e colaboradores sem dúvida procuram seguir um caminho de santidade pessoal e de ajuda para que um povo se torne mais santo, tanto pelo resultado das obras apoiadas quanto pela vida espiritual de seus benfeitores.

Olhar para de onde vem a esperança

Creio que para a grande maioria dos que estiveram no evento de aniversário da ACN é chocante o contraste entre o clima que cerca quela festa e o que cerca a “festa cívica” das eleições desse domingo. Acompanhar a experiência da ACN é ver o bem agindo no mundo, alegrar-se diante da experiência do amor de Deus por nós e dos cristãos por seus irmãos. Acompanhar a política é quase sempre se deparar com disputas de poder, interesses mesquinhos se contrapondo ao bem comum, aqui e ali algumas lutas heroicas, frequentemente solitárias e mal interpretadas em prol do povo.

Todos nós temos o direito e até o dever de acompanhar a vida política do País, conhecer as mazelas dos políticos e os erros das ideologias é fundamental para que possamos tomar decisões justas tanto nas eleições quanto em nossas atividades sociais. Contudo, existe sempre um perigo em olhar só o mal e perder de vista o bem. O mal é como os buracos numa estrada. O motorista tem que estar atento a eles, mas tem que se manter atento ao caminho, para não se perder e deixar de chegar a seu destino – e, para nós, esse destino é o bem. Estar focado no bem, ainda que se mantendo atento ao mal, é um princípio básico do agir cristão.

Os santos da ACN, grandes ou pequenos, quer sejam coerentes e inspiradores, quer sejam incoerentes e limitados, são uma luz para nos ajudar a atravessar com uma justa esperança, esse tempo difícil em que vivemos. Se você quiser conhecer a ACN, veja sua página na Internet.

Artigo publicado inicialmente no site Aleteia » https://pt.aleteia.org/2022/10/02/a-acn-os-santos-grandes-ou-pequenos-e-a-esperanca-em-nosso-caminhar/

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