O Livro do Apocalipse (Pt 3)

Areopago-Apocalipse-3

Esta é a terceira parte [de 9] do estudo do livro do Apocalipse. Para uma melhor compreensão do todo, sugerimos acompanhar as demais partes indicadas e numeradas abaixo. Bom proveito!

As sete cartas dentro do conjunto do Apocalipse

As sete cartas dos capítulos 2 e 3 formam um bloco à parte dentro do livro. Elas são como as janelas de uma casa: mesmo sendo de materiais diferentes, as janelas fazem uma unidade com o resto da casa. O primeiro capítulo nos esclareceu sobre o autor e o objetivo do livro. Os capítulos 2 e 3 permitem que olhemos pelas janelas e conheça melhor a situação dos moradores que levou o autor a enviar-lhes sua mensagem e comunicar-lhes as visões que teve.

Uma chave de leitura

  1. Destinatários: Todas elas são dirigidas ao anjo da comunidade: ao pároco, aos coordenadores de pastoral, catequistas, ministros extraordinários da sagrada comunhão, etc.
  2. Remetente: Todas elas se apresentam como palavra de Jesus: Assim diz… e segue um título de Jesus.
  3. Conteúdo: Em todas elas, Jesus afirma: Conheço… Primeiro descreve a situação: o positivo e o negativo de cada comunidade. Em seguida dá conselhos orientando, criticando, animando, ameaçando ou aprovando.
  4. Aviso: Em todas aparece no fim o mesmo aviso: Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas.
  5. Promessa: Todas terminam com uma promessa final: Ao vencedor.

As sete cidades do Apocalipse

Ap, 2,1-7: Éfeso

Era a maior e mais importante cidade da Província da Ásia, com cerca de 600 mil habitantes ou mais, incluindo os escravos. Com o porto para o Mar Egeu e o Mar Mediterrâneo e com estradas de comunicação para o Oriente, ela era o principal entroncamento comercial entre Ásia e Europa. Com isso, Éfeso acumulava muita riqueza e influência sobre as outras cidades da Província.

Os judeus tinham uma importante comunidade com bastante influência política. Havia também uma comunidade dos discípulos de João Batista (At 19,1-7). A comunidade cristã de Éfeso foi fundada por Priscila e Áquila (At 18,18-21). Quando Paulo morou lá por cerca de três anos (At 19,1-20), criou uma enorme baixa nas vendas das imagens de ouro da deusa Diana ou Ártemis, cujo templo foi considerado uma das sete maravilhas do mundo antigo, isso causou enorme prejuízo aos fabricantes da imagem que perseguiram Paulo e seus companheiros e companheiras (cf At 19,23-40).

Na maneira de apresentar Jesus para a comunidade de Éfeso, o Ap acentua dois aspectos: 1) a liderança de Jesus; 2) a sua presença nas comunidades. A escolha destes dois aspectos é motivada pela situação da comunidade de Éfeso. Através da maneira como Jesus exerce a sua liderança, a carta mostra como a comunidade deve exercer a sua liderança. (2,1)

A comunidade de Éfeso era muito atuante (2,2-4); no entanto, apesar de tantas atividades e tão boas qualidades, a comunidade tem um grande defeito, ela abandonou seu primeiro amor. Abandonar o primeiro amor significa abandonar a fidelidade ao vigor inicial. Perderam o brilho! Caíram na rotina! É como se Jesus dissesse: “Hoje você está tão diferente! por quê?

O conselho que João para a comunidade é que ela deve recuperar a memória, lembrar o passado, o tempo do primeiro amor. (2,5-6) Só assim poderá fazer uma verdadeira conversão e retomar o entusiasmo do início! Sem mudança de vida, a comunidade de Éfeso perderá a sua posição de liderança ou, simplesmente, deixará de ser comunidade de Jesus, Aqui João ajuda o pessoal a entender a vinda de Jesus não como algo extraordinário, mas como um apelo de Deus presente nos acontecimentos e nas mudanças, e que poderá ser descoberto por uma leitura fiel e criteriosa dos fatos. Caso, futuramente, a comunidade perder a sua atual posição, deverá ver nessa perda uma expressão da vinda de Jesus e de seu julgamento.         

A recompensa, se a comunidade for vitoriosa, é “comer da árvore da vida que está no paraíso de Deus”. Depois da queda, o ser humano foi expulso do Jardim do Éden, mas ele não foi destruído. A árvore da vida não foi cortada. Continua aberta a possibilidade de se vencer a morte e obter a vida. Essa possibilidade – desejo de toda a humanidade – aqui se concretiza como promessa a quem for fiel.

Ap 2,8-11 Esmirna

Esmirna era uma cidade portuária a cerca de 50 quilômetros ao norte de Éfeso. Foi construída e fortificada no tempo de Alexandre Magno (330aC) sobre as ruínas de uma antiga cidade destruída por um terremoto. Tornou-se um importante porto e um rico centro comercial entre Éfeso e Pérgamo. Sua principal divindade era a deusa Cibele. Em 133 a C, Esmirna caiu sob o controle de Roma, com o estatuto de cidade livre.

Havia em Esmirna uma comunidade florescente de judeus. Não se sabe quando nem como surgiu a comunidade cristã de Esmirna. Tanto no Ap, como nas cartas de Inácio de Antioquia, escritas em 110, a comunidade de Esmirna era conhecida e elogiada por sua fidelidade à Palavra de Deus. O mártir São Policarpo foi bispo de Esmirna na primeira metade do Século II. em 155, aos 85 anos de idade, ele foi preso e condenado à fogueira. Quando estava sendo julgado e lhe foi pedido para renegar a fé em Jesus Cristo e adorar o Imperador ele respondeu: “Servi a Ele (Jesus) durante os 85 anos de minha vida. Nunca me fez mal. Só me trouxe alegria. Por que haveria de negá-lo agora??”

Na maneira de apresentar Jesus para a comunidade de Esmirna o Ap 2,8 acentua dois aspectos: 1) Jesus é o Senhor da História, o Primeiro e o Último; 2) a identidade entre o crucificado e o ressuscitado, uma vez que o mesmo Jesus que esteve morto, o crucificado, é o que agora está vivo. A situação difícil em que se encontrava a comunidade explica esta insistência na vitória de Jesus sobre a morte.

A carta não aponta nenhum erro ou defeito na comunidade de Esmirna (2,9). Sua situação de sofrimento é caracterizada com três palavras: tribulação: situação de perseguição, sofrimento, prisão; pobreza: indica indigência, mas João tira o véu e esclarece: “Conheço sua pobreza. Você é rica, porém.”  e blasfêmia: vem da parte de um grupo de judeus e do qual a carta diz que não são judeus, mas, sim uma sinagoga de satanás. Esta expressão tem hoje um sentido negativo que não tinha inicialmente. Naquele tempo a palavra sinagoga significava reunião ou assembleia. A palavra satanás significava adversário, os do contra. A expressão sinagoga de satanás designava o grupo adversário que pensava diferente e seguia outro rumo. É provável que João tenha usado de ironia.

Em 2,10, João diz que os sofrimentos continuarão, “Tereis tribulação de dez dias”. Conforme o livro de Daniel, o limite de dez dias caracteriza a perseguição como prova e não como castigo (Dn 1,12.14). Isto ajuda a desfazer a ideia muito divulgada de que o sofrimento fosse castigo de Deus (cf Jo 9,1-3). O aviso para a comunidade é que “não tenham medo” e que “sejam fiéis até a morte”, pois Jesus é “aquele que esteve morto, mas voltou à vida” (2,8).

O vencedor não será lesado pela segunda morte. A primeira morte atinge a todos nós. A segunda morte acontecerá quando Deus, com seu poder matar para sempre a própria morte e os poderes da morte. A comunidade desde já tem a vida garantida para sempre.

Ap 2,12-17 Pérgamo:

Pérgamo era uma cidade muito antiga, capital do reino da Mísia. Foi construída em torno de uma pequena montanha, célebre por seus templos e construções artísticas. Nesta acrópole destacava-se o templo a Zeus Salvador, principal divindade da religião grega. O altar deste templo, todo em mármore branco com frisos de ouro.

Pérgamo era um centro de arte e de ciência. Sua indústria era conhecida pela manufatura do couro de carneiros, trabalhando e preparado para a escrita e conhecido como pergaminho, está era uma das principais fontes de riqueza para a cidade.

Havia uma importante comunidade judaica em Pérgamo. A arrecadação de donativos dos judeus para Jerusalém era muito grande e, várias vezes, os cidadãos de Pérgamo tentaram impedir que esta riqueza saísse da cidade. Não se sabe quando nem como surgiu a comunidade cristã. Provavelmente, se formou, durante os quase três anos que Paulo passou em Éfeso (At 19,8-10), de lá a Boa Nova irradiou e chegou a Pérgamo.

Jesus é apresentado como Juiz (2,12). A espada de dois gumes é símbolo de discernimento (Ap 19,15; Hb 4,12-13). A comunidade de Pérgamo tinha necessidade de fazer um bom discernimento, pois havia muita confusão entre vários grupos.

Na cidade e Pérgamo, por ser a capital da Província, sede do governo, trono de satanás, a propaganda do Império era particularmente forte (2,13-15). Mesmo assim a comunidade segurava firme o Nome de Jesus e não renegou sua fé, nem mesmo na perseguição, em que Antipas foi morto.

Dois problemas na comunidade era que alguns seguiam a doutrina de Balaão, e outras que tinham aderido ao grupo dos nicolaitas.

Balaão é citado em Nm 31,16, e foi responsável pelo desvio do povo do bom caminho para a prática da “prostituição com as filhas de Moab” e “dos sacrifícios aos deuses de Moab”. Os nicolaitas formavam um grupo de cristãos que alimentavam ideias mais brandas frente à religião do Império. Influenciados por essas ideias, alguns cristãos afirmavam que queimar um pouco de incenso aos ídolos ou dobrar os joelhos diante do imperador ou à sua imagem, era coisa material que não atingia o espírito nem significava renegar a fé em Jesus.

O aviso é muito claro e curto: Converter-se (2,16). A conversão que Jesus pede da comunidade é que ela deve fazer algo para que esses grupos deixem de atuar. Assim ela poderá evitar que os membros desses grupos sejam feridos pelo julgamento de Deus. 

O vencedor recebe duas coisas: o “maná escondido e uma pedrinha branca na qual está escrito um nome novo”. Em Ex 16,33 Moisés ordena que o maná seja guardado num vaso, posto diante do Senhor para que as gerações futuras possam conhecê-la. Para os cristãos, esta distribuição do maná escondido já está se realizando na celebração da eucaristia (Jo 6,30-34).

A pedrinha branca é uma alusão ao costume da cidade de Pérgamo de convidar pessoas para uma festa enviando uma pedrinha branca com o nome do convidado escrito nela. “O nome novo que ninguém conhece exceto aquele que o recebe” é a verdadeira identidade da pessoa. É no encontro com Deus que cada um, cada uma de nós vai, enfim, encontrar sua verdadeira identidade.

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